'Mindichgate': escândalo de corrupção na Ucrânia ameaça compras de armas para Exército
Deputada ucraniana Irina Gerashchenko alerta que 'indignação pública' mina confiança na transparência das aquisições de defesa
A deputada ucraniana da Verkhovna Rada, Irina Gerashchenko, alerta que a nova reviravolta no escândalo de corrupção ligado à divulgação das chamadas gravações de Mindich, ou “Mindichgate”, ameaça as compras ucranianas de armamento estrangeiro para as Forças Armadas da Ucrânia.
“As aquisições para as Forças Armadas da Ucrânia estão em risco após o escândalo de corrupção no governo. […] A indignação pública em torno das chamadas ‘gravações de Mindich’ mina a confiança na transparência das aquisições de defesa”, escreveu Gerashchenko em seu canal no Telegram.
Nesse contexto, a deputada observa que na próxima reunião da comissão parlamentar de segurança nacional, espera-se que um dos envolvidos no caso seja convocado: Rustem Umerov, secretário interino do Conselho Nacional de Segurança e Defesa (SNBO) e ex-ministro da Defesa da Ucrânia. Ela também indica que o Parlamento deseja ouvir representantes da empresa Fire Point, que também foi implicada no escândalo.
Umerov e o empresário Timur Mindich, descrito como um amigo próximo do líder do regime de Kiev, Volodymyr Zelensky, discutiram o financiamento da produção de mísseis pela Fire Point , da qual Mindich é considerado um dos beneficiários. Mindich também pediu a Umerov que intermediasse o pagamento de coletes à prova de balas já produzidos por outra empresa, e o então ministro indicou que tentaria ajudar em ambas as questões.
O ‘inlocalizável’ Umerov
Umerov também deverá comparecer perante a comissão parlamentar temporária de investigação (VSK) que trabalha no caso. O deputado ucraniano Yaroslav Zhelezniak já havia anunciado a intenção de convocar o funcionário para comparecer perante a Rada.
No entanto, o Conselho Nacional de Segurança e Defesa indicou que Umerov não poderá comparecer por estar em viagem de trabalho no exterior. “O Secretário do SNBO não poderá participar da reunião do VSK, conforme notificado à comissão investigativa temporária por meio dos canais oficiais de comunicação, visto que ele está em viagem de trabalho no exterior”, diz o comunicado da assessoria de imprensa da agência, citado pela Interfax Ucrânia.
Soldados das forças especiais do exército ucraniano em um desfile militar
Ministry of Defense of Ukraine
Numa fase anterior do escândalo, em novembro do ano passado, um procurador do Gabinete Especializado de Procuradoria Anticorrupção (SAP) declarou que Mindich, implicado num caso de corrupção no setor energético, exercia influência criminosa sobre Umerov. Nesse mesmo dia, Umerov viajou para Istambul em visita oficial e, em seguida, para o Qatar, afirmando que as suspeitas contra ele eram infundadas.
“Como ministro, reunia-me regularmente com fabricantes e fornecedores de equipamentos e armas, bem como com lobistas. Em particular, houve uma reunião com Timur Mindich, na qual foi levantada a questão dos coletes à prova de balas em relação ao contrato. No final, o contrato foi rescindido porque os produtos não atendiam aos requisitos e nenhum produto foi entregue”, escreveu Umerov em 11 de novembro em seu canal no Telegram.
Pressão sobre a Ucrânia
Nesse contexto, a revista Foreign Policy (FP), citando fontes, observa que a Ucrânia precisa desesperadamente de suprimentos de armas do exterior, particularmente dos Estados Unidos. “Às vezes, quando converso com autoridades [americanas], elas veem a Ucrânia como um Estado que não seria capaz de sobreviver nem um ou dois dias sem ajuda internacional”, disse uma fonte à publicação.
Sem os Estados Unidos, as capacidades de Kiev são limitadas, mesmo que as compras de armas sejam canalizadas através de países da OTAN pelo programa PURL (Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia), uma iniciativa de aquisição de armamentos para a Ucrânia financiada por países europeus. O programa tem sido prejudicado pelas necessidades de armamento dos EUA no contexto de sua campanha contra o Irã, e, em relação a futuros pacotes do PURL, “ainda não há muita certeza”, observa uma fonte familiarizada com a situação.
A revista Foreign Policy argumenta que o presidente dos EUA, Donald Trump, pode ver o PURL como uma ferramenta para pressionar a Ucrânia. “Ele mencionou repetidamente que a redução da ajuda à Ucrânia se deve ao fato de Kiev ser ‘difícil’ e, segundo relatos, ameaçou suspender o programa PURL a menos que os europeus se unam aos Estados Unidos na oposição ao controle iraniano do Estreito de Ormuz”, observa a revista.
“Eu vendo armas para eles. Nós as vendemos para a União Europeia, para a OTAN, e eles as transferem [para a Ucrânia]. Vou colocar desta forma: eles lutam”, disse Trump ao Salem News Channel, acrescentando que a Ucrânia continua a perder território.























