Hoje na História: 1789 - Navio inglês Bounty é palco de motim

O objetivo da viagem era colher sementes da ‘fruta-pão’, árvore frutífera originária da Oceania, em Taiti

Max Altman

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Atualizada em 26/04/2018 às 11:30

Em 28 de abril de 1789, o navio Bounty é palco de um motim. Assim começa uma das mais romanescas tragédias da marinha, que ilustra a durabilidade do domínio britânico sobre os mares.

Dois anos antes, em dezembro de 1787, o barco havia deixado o porto inglês de Spithead com tripulação de 44 homens com destino a Taiti, no Pacífico. Posteriormente, o Bounty seguiria às Antilhas.

Tratava-se de um barco de transporte de carvão de três mastros, antes chamado de Bethya, que foi reformado e rebatizado como Bounty.

O objetivo da viagem era colher sementes da ‘fruta-pão’, árvore frutífera originária da Oceania, em Taiti e levá-las à Jamaica, onde os britânicos contavam cultivá-las para poder alimentar os escravos da lavoura.

A missão foi confiada ao tenente William Bligh, 33 anos. Bligh já tinha efetuado diversas viagens transatlânticas e participou da segunda missão do explorador James Cook. Para as necessidades da viagem, o capitão Bligh – seu título a bordo – recrutou marineiros voluntários, de preferência os reincidentes, ou homens arrebanhados à força nos portos segundo uma prática corrente na marinha britânica.

O quarto oficial, Fletcher Christian, havia cumprido três travessias com Bligh. Este, pouco após a partida, ofereceria a seu amigo a função de quarto-mestre, seu segundo a bordo, ignorando a nomeação oficial pelo Almirantado de John Fryer. Esta seria a primeira causa de dissensão.

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O objetivo da viagem era colher sementes da ‘fruta-pão’, árvore frutífera originária da Oceania, em Taiti

O navio tomou o rumo oeste tendo em vista contornar o continente americano pelo cabo Horn. Várias semanas de tempestades, no entanto, convenceram o capitão a mudar de itinerário, seguindo pelo Cabo da Boa Esperança. Na nova rota, mais um contratempo: a ausência de vento. O problema obrigou a tripulação a conduzir o navio a remo.

As duras condições da travessia e a falta de disciplina levaram o capitão a lidar com a tripulação de maneira mais bruta. Por fim, dois meses depois, o Bounty chegou ao Taiti, onde foi calorosamente acolhido pelos habitantes, em especial as mulheres.

O navio partiu do Taiti após algumas semanas recolhendo sementes das famosas árvores. Tão logo em alto mar, Bligh conseguiu restaurar a disciplina, mas os novos métodos não foram tolerados pelos marinheiros voluntários. O descontentamento suscitou a revolta de uma parte deles, com o apoio de Fletcher Christian, saudoso das belas taitianas. O capitão Bligh e 18 de seus fieis trabalhadores foram então abandonados sobre um bote de cinco metros em pleno Oceano Pacífico.

Ao preço de uma severa disciplina e graças a um racionamento extremo dos alimentos, os exilados conseguiram alcançar a ilha de Timor após um périplo de 5 mil quilômetros. A ambição de Bligh, no entanto, era chegar a Londres para pedir um castigo exemplar aos amotinados.

Os que ficaram no barco, um total de 25 tripulantes, retornaram a Taiti, onde ajudaram o rei Pomaré I a reforçar sua autoridade sobre a ilha.

Para escapar da perseguição da justiça inglesa, os mais decididos resolveram deixar a ilha. Embarcaram novamente no Bounty na companhia de belas taitianas, seis taitianos e um serviçal negro.

O objetivo era refazer a vida em um lugar o mais isolado possível. Encontraram então uma ilhota que não estava no mapa, batizada de Pitcairn, entre as ilhas de Páscoa e o arquipélago de Gambiers. Christian teve o cuidado de mandar queimar o navio.

Todavia, o idílio logo se transformou num pesadelo em razão da rivalidade em torno das mulheres. Cada amotinado dispunha de uma mulher enquanto os taitianos deviam se satisfazer com uma para cada dois homens. A morte de uma delas gerou violentas disputas entre os homens na ilha.

Quando os americanos redescobriram Pitcairn em 1808 só restava na ilha um sobrevivente do Bounty, John Adams, que tivera a satisfação de preencher sua solidão em meio a uma dezena de taitianas e de mais de vinte crianças.

O ex-amotinado morreu em 1829 aos 65 anos, chefe da pequena comunidade mestiça. Ainda hoje, algumas dezenas de pessoas cultivam a lembrança do Bounty.

Quanto aos amotinados que permaneceram no Taiti, todos foram encontrados pelo capitão Edwards, comandante da fragata Pandora, que conhecia o caso Bounty. Entregues à justiça inglesa pelo rei Pomaré, passaram em Londres por uma corte marcial. Apenas três deles foram condenados à morte e enforcados. O relato de sua tragédia comoveu a opinião pública britânica e obrigou o Almirantado a humanizar a disciplina a bordo de seus navios.

Mark Twain escreveu um romance sobre a tragédia do Bounty e os estúdios de Hollywood não deixaram de aproveitá-lo para produzir em 1935 uma epopeia romanesca com o título de O Grande Motim, com Clark Gable no papel de Fletcher Christian.

Outros filmes sobre o tema foram feito, entre eles O Grande Motim (1962) com Marlon Brando. O ator se casaria com a atriz taitiana do filme posteriomente. Mais tarde, em 1984, foi a vez de Mel Gibson estrelar O Motim (1984).

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