Hoje na História : 1703 – Morre "o Homem da Máscara de Ferro"

Personagem que inspirou obras de ficção foi real; para historiadores, tratava-se de um agente duplo

Max Altman

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No final do reinado de Luis XIV, em 19 de novembro de 1703, um misterioso prisioneiro morre na prisão da Bastilha, em Paris. É enterrado alguns dias mais tarde sob o nome de Marchiali no cemitério Saint-Paul.

A literatura e a lenda iriam fazer uso do personagem e torná-lo célebre sob o epíteto de  "o Homem da Máscara de Ferro", já que ninguém havia jamais podido ver seu rosto, coberto sempre por uma máscara de veludo negro, e não de ferro.

Wikimedia Commons - autor anônimo

O texto abaixo dessa ilustração especulava que o "Máscara de Ferro" fosse um filho ilegítimo de Luís XIV

Este homem, de presumivelmente 50 anos, teria vivido em prisão por duas ou três décadas, antes em Pignerol, uma fortaleza alpina situada entre Briançon e Turim, até 1681. Havia sido trasladado sucessivamente ao forte de Exiles, no Piemonte até 1687; Sainte-Marguerite de Lérins até 1698, e, por fim, a Bastilha, sempre sob a vigilância do mesmo carcerereiro, Bénigne Dauvergne, conhecido como Senhor de Saint-Mars, antigo mosqueteiro.

Oito anos após sua morte, a princesa Palatine, cunhada do rei da França, o faz sair do anonimato, apresentando-o em sua correspondência como um lorde inglês que havia conspirado contra a França.
 

Wikimedia Commons
Sua identidade não tardou a suscitar variadas hipóteses. Seria ele o irmão gêmeo de Luis XIV, como pretendeu Voltaire? Ou o filho adúltero de Ana da Áustria e do duque de Buckingham? Seria ele, como outros acreditavam, o duque de Beaufort ? Ou um bastardo do rei Charles II da Inglaterra? O conde de Vermandois ? O ex-superintendente Fouquet?

Com o seu habitual talento, Alexandre Dumas revive a lenda em "O Visconde de Bragelonne" levantando a hipótese dele ser irmão gêmeo de Luis XIV, nascido oito horas após este último.

Em "A Máscara de Ferro", o historiador  Jean-Christian Petitfils evoca a hipótese de um certo Eustache Danger, serviçal da corte, posto a par do segredo e prometendo não desvelar a conversão secreta do rei Charles II ao catolicismo.

O Senhor de Saint-Mars, furioso por não ser mais que um serviçal sob a férula do superintendente Fouquet e o duque de Lauzun, havia ele mesmo montado a mistificação do mascarado de ferro para se dar importância.

A maioria dos historiadores estão hoje de acordo em reconhecer no "Máscara de Ferro" um agente duplo, o conde Ercole Mattioli ou Antoine-Hercule Matthioli, apoiando-se numa carta datada de 1770, assinada por um certo barão Heiss.

Secretário de Estado do duque de Mântova, Carlo IV de Gonzaga, traíra seu chefe assim como o rei da França, revelando aos espanhois as negociações secretas relativas à aquisição pela França da praça-forte de Casal. Luis XIV o enviou então à Veneza para prendê-lo em 1669,  cuidando todavia que vivesse sempre cercado de confortávis privilégios.

Não estaria excluído, porém, que um doméstico, tentado por esta vida de ser tratado como um rei, possa ter pretendido tomar o lugar do conde e permitido a ele retomar a plena liberdade sem que ninguém percebesse.

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