Hoje na História: 1929 – Guerra dos Cristeros opõe camponeses católicos a governo mexicano

Desconhecida e problemática, disputa se arrastou por três anos e terminou com centenas de insurgentes assassinados em condições atrozes

Max Altman

O conflito começou com a eleição para a presidência da República, em 1924, do general Plutarco Calles, que consolida as conquistas sociais da Revolução Mexicana de 1910 de Emiliano Zapata e Pancho Villa. O novo governo reorganiza o ensino público, amplia a reforma agrária e nacionaliza a indústria do petróleo em detrimento dos interesses dos Estados Unidos.

Wikicommons

Cristeros de San José de Gracia da União popular Cristera

Todavia, fiel a uma tradição anticlerical de cerca de um século, a Revolução Mexicana se indispôs com a Igreja católica.

Em 1º de dezembro de 1924, o governo priva de direitos cívicos os católicos, laicos e padres, sob o pretexto de que obedeciam a um soberano estrangeiro, o papa. Todos os eclesiásticos estrangeiros são expulsos e os padres são proibidos de realizar qualquer crítica em virtude do artigo 130 da Constituição de 1917, que até então não havia siso aplicado. As escolas confessionais são interditadas e pelo menos 20 mil igrejas são fechadas.

O episcopado resiste e suspende em 31 de julho de 1926 a administração dos sacramentos em todo o país por três anos. Esta resposta surpreendente leva as massas rurais, majoritariamente indígenas e mestiças, ligadas a uma religiosidade tradicional, ao desespero.

Sublevação

Os camponeses se sublevam aos gritos de “Viva Cristo Rey ! Viva la Virgen de Guadalupe!”.

Wikicommons

Bandeira do movimento Cristeiro

Os sublevados eram sarcasticamente cognominados “Cristeros”. Eles mesmos qualificavam seu levante de “Cristiada”, mas foram desautorizados pelo episcopado. Isto não impediu que com 50 mil combatentes fossem constituíssem a mais importante rebelião jamais vista no país, que contava à época menos de 20 milhões de habitantes espalhados sobre seus 2 milhões de quilômetros quadrados.

Três anos depois, o exército dos Cristeros ocupava três quartos do oeste do México e metade dos 30 estados da Federação. Suas escaramuças provocaram um total de cerca de 90 mil mortos, dos quais dois terços entre as tropas governamentais em inferioridade tática frente à guerrilha apesar de recorrer sistematicamente ao terror, segundo o historiador Jean Meyer.

Conciliação

O presidente Calles acabou por se reconciliar com o governo de Washington, fazendo concessões sobre o petróleo em troca da ajuda da Força Aérea dos Estados Unidos no combate contra os Cristeros...

A despeito dessa ajuda e duvidando da possibilidade de vencer a rebelião pelas armas, o presidente apela à Santa Sé. Numa demonstração de boa vontade, autoriza de novo o culto católico em 3 de março de 1929 e manda reabrir a catedral da Cidade do México.

Por fim conclui “Los Arreglos” com o Secretário de Estado do papa Pio XI, o cardeal Gasparini, o mesmo que firmara o Tratado de Latrão com Mussolini.

 

A pedido do núncio apostólico, o presidente mexicano desistiu de aplicar os artigos antirreligiosos da Constituição e deu sua palavra que os rebeldes seriam anistiados e nenhum mal a eles seria feito. Contudo, tratava-se apensa de sua palavra de honra, nenhum documento foi firmado.

Camponeses assassinados

Obedientes, os Cristeros se submetem, porém, na realidade, a anistia não foi respeitada e centenas de insurgentes foram assassinados em condições atrozes tão logo depuseram suas armas sob ordem do bispo local, sob pena de excomunhão.

O exército não se conteve. Saqueou a colheita dos campos mais afastados do oeste com o propósito de erradicar de uma vez por todas qualquer traço de cristianismo. O escritor Graham Greene em seu romance “O Poder e a Glória” retratou todos esses episódios.

Seguiu-se uma segunda guerra, “La Segunda”, que reuniu alguns milhares de rebeldes desesperados. Duraria de 1934 a 1938 sem que fosse possível avaliar o número de vítimas. Outros anos foram necessários para que a paz religiosa se estabelecesse no México.

A emoção suscitada pelos “Arreglos” fez com que o cardeal Gasperini caísse em desgraça, sendo substituído na Secretária de Estado do Vaticano pelo cardeal Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII.

Também nesta data:

1940 – França assina armistício com Alemanha na floresta de Compiegne
1941 - Nazistas invadem URSS na Segunda Guerra
1950 - Dossiê anticomunista Canais Vermelhos coloca celebridades norte-americanas em lista negra
1987 - Morre Fred Astaire, bailarino, ator e cantor de Hollywood

 

Comentários