Hoje na História: 1945 – Conferência de Potsdam discute futuro da Alemanha vencida

Reunião marca início da guerra fria que durou até 1991; Documento final previu o desarmamento e a desnazificação alemã

Max Altman

Na pequena cidade de Potsdam, próxima a Berlim, conhecida por ter sido a residência preferida do rei Frederico II, uma conferência, iniciada em 17 de julho de 1945, reuniu os três grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial: a União Soviética, representada por Stalin, assessorado pelo seu ministro de Negócios Estrangeiros, Viatcheslav Molotov; o Reino Unido, representado por Winston Churchill e seu ministro do Exterior, Anthony Eden e depois por Clement Attlee, que derrotara Churchill e o sucedera como primeiro ministro, acompanhado de Ernest Bevin e os Estados Unidos, representado por Harry Truman, que acabava de suceder ao recentemente falecido Franklin Roosevelt, e seu secretário de Estado, James Byrnes.

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Clement Attlee, Harry S. Truman, e Joseph Stálin em Potsdam

Seis meses antes, em Yalta, Crimeia, Stalin, Roosevelt e Churchill haviam esboçado um projeto para o pós-guerra, mas os interesses de uns e outros não resistiram por muito tempo.

Nas semanas que se seguiram, até a capitulação incondicional do 3º Reich alemão, o Exército Vermelho, com respeitável celeridade, ocupou Berlim e a parte oriental da Alemanha, assim como uma parte da Áustria e toda a Europa Central, enquanto os aliados ocidentais, desembarcados na Normandia um ano antes, penavam em seu avanço pela Alemanha ocidental.

Por força de sua predominância sobre o terreno de luta, apresenta-se a Stalin a condição de instalar nos países libertados, entre eles a própria Alemanha, governos simpáticos, liderados pelos partidos comunistas locais.

A situação era crítica, principalmente na Polônia onde se multiplicavam os fatos consumados. Desde 17 de janeiro de 1945, o Comitê de Lublin, um governo provisório partidário dos soviéticos, se instalara em Varsóvia, a capital do país. Os poloneses e os alemães das províncias orientais eram empurrados em direção ao oeste pelas tropas soviéticas.

Por seu turno, os poloneses empurravam os alemães para além do rio Oder e seu afluente, o Neisse. No total, vários milhões de civis foram deslocados de suas habitações em poucos meses em condições brutais, aguardando-se uma redefinição de fronteiras.

Winston Churchill se inquietava com a situação e temia que “não tínhamos nos libertado da opressão nazista e agora estamos ameaçados pela opressão comunista”.

Em 12 de maio de 1945, o primeiro ministro britânico escrevera ao presidente Truman: “uma cortina de ferro desceu sobre o front russo. As ilusões das cúpulas de Moscou e de Yalta se estão esfumaçando”.

Repartição da Alemanha

Após a capitulação da Alemanha hitlerista, a Conferência de Potsdam, reunida de 17 de julho a 2 de agosto de 1945, ordena o destino do país e da Europa: reparações in natura; estabelecimento da fronteira oriental da Alemanha sobre o Oder-Neisse; independência da Áustria; anexação pela União Soviética dos Estados Bálticos, da Prússia Oriental e da Polônia Oriental.

Contudo, rapidamente emerge a rivalidade entre a União Soviética e as Potências Ocidentais. É o começo da “Guerra Fria”. Uma “cortina de ferro”, segundo as palavras de Churchill, separa a Europa em dois: de um lado os países ocidentais sob a proteção dos Estados Unidos e beneficiários do Plano Marshall; de outro a União Soviética e seus “satélites”. A própria Alemanha se vê dividida em dois Estados hostis um ao outro.

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Alemanha dividida

A conferência de Potsdam consagra o triunfo de Stalin. O líder soviético alegava em seu favor a morte de 20 milhões de combatentes do Exército Vermelho que sacrificaram sua vida para derrotar o nazi-fascismo e salvar a humanidade para justificar suas exigências.

Em matéria de reparações, James Byrnes propôs a retenção in natura – máquinas, matérias primas, etc – pelos vencedores em sua zona de ocupação respectiva, por um valor total de 20 bilhões de dólares, a metade para os Ocidentais, a outra para a União Soviética.

Os Acordos de Potsdam ratificaram as gigantescas transferências de populações – alemães e poloneses do leste; alemães transferidos da Silésia, dos Sudetos, da Transilvânia, etc – contentando-se em recomendar que fossem deslocados de forma “ordenada e segundo regras humanitárias”. No total foram deslocados 11 milhões de alemães entre 1945 e 1947.

A conferência demoliu definitivamente o “Reich de Mil Anos” da propaganda nazista. Reconstituiu uma Áustria independente e neutra, que antes da guerra havia sido anexada à Alemanha e, de resto, reconheceu à Polônia o direito de administrar as províncias alemãs situadas a leste da linha Oder-Neisse, à espera de um plebiscito e de um tratado de paz.

A partir de 5 de junho de 1945, aos comandantes-em-chefe das forças aliadas foi atribuída a administração da Alemanha, com autoridade sobre o que restava dos administradores existentes e sobre todo o funcionalismo. A Conferência de Potsdam ratificou a divisão do país entre os três exércitos: soviético, norte-americano e britânico, mantendo sua unidade econômica e monetária.

Londres e Washington entraram em acordo para conceder uma zona de ocupação à França livre do general De Gaulle. Enclave na zona de ocupação soviética, a Grande-Berlim – dois milhões de habitantes sobre 883 quilômetros quadrados de extensão – quilômetro quadrado) foi ela mesma dividida entre os quatro vencedores, embora mantendo uma administração municipal unificada.

O documento final da conferência previu o desarmamento e a desnazificação da Alemanha, seguindo a orientação da reunião de Yalta. Nos quadros dessa decisão, se abriria em Nuremberg, em 14 de novembro de 1945, o grande processo contra os principais líderes nazistas e seus crimes de guerra e lesa-humanidade.

Os participantes da conferência voltaram para casa sem, todavia, ter abordado e esclarecido o que fariam com o Japão, ex-aliado da Alemanha, que ainda resistia aos bombardeios norte-americanos e antes que bombas atômicas fossem despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

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