Árvore das Palavras: um jornal negro contra a ditadura

Discussões trazidas pelo 'Árvore' ajudaram a marcar o 20 de novembro - data da morte de Zumbi dos Palmares - como Dia da Consciência Negra

Lucas Estanislau e Tiago Angelo

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Opera Mundi inaugura neste domingo (19/11) uma série de reportagens, com vídeos, sobre a imprensa alternativa no Brasil durante a ditadura militar. Conversamos com os fundadores e participantes dos veículos da época a fim de revisitar as histórias de seus jornais, que se misturam com a da resistência no período de execeção democrática no país. O jornal "Árvore das Palavras", ligado ao movimento negro, abre a série:

São Paulo, meados da década de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais “nanicos” assinados por estudantes que faziam resistência à ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar força em um ambiente que tinha portas fechadas aos que não pertencessem às elites do país. A criação de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta - e, neste contexto, surgiu o "Árvore das Palavras".

, organizado por Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira, toda a imprensa negra estava sendo observada pelas instituições de fiscalização da ditadura. Além do "Árvore", outras iniciativas semelhantes também eram acompanhadas de perto pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão repressivo do governo militar.

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Imprensa PT-SP

Rafael Pinto foi um dos criadores do "Árvore das Palavras"

Cultura independente

Barbosa relata que o jornal começou um trabalho “para discutir essa questão do racismo, da violência policial, a necessidade de ter uma cultura independente, que evitasse comercialização, porque já tinha gente querendo ganhar dinheiro com aquela cultura, aquele samba, a dança”.

Segundo ele, o "Árvore das Palavras" também trabalhava “arrebanhando pessoas pro processo de luta e de enfrentamento à alienação". "Então, às vezes, chamávamos pra lugares que estavam tendo atividades, reuniões”, conta.

Para Barbosa, os anos de existência do jornal marcam o início de uma luta que já dura mais de 40 anos, muito por conta do diálogo que o "Árvore" desenvolveu com outros periódicos e entidades de forte concentração negra. "Nós desenvolvemos isso em escolas de samba, nos terreiros de candomblé e umbanda, nos grupos culturais da periferia, grupos de capoeira", afirma.

Junto com períodicos de mesma temática, como o "Jornegro" e "Tição", o "Árvore das Palavras" foi responsável pela inauguração de debates que geraram unidade ao movimento negro no Brasil e que culminaram na criação do Movimento Negro Unificado,  em 1978, onde Pinto e Barbosa tiveram também um papel de destaque. A criação do MNU consolidou de vez a força da militância negra no país.

O momento que o jornal parou de circular não é preciso. Ocorreu entre o final de 1978 e o começo de 1979, quando o movimento negro passou se organizar dentro de grupos mais fortes e com mais autonomia. "Como o 'Árvore' foi uma ferramente coletiva, não teve um 'porque ele acabou'. Surgiram outros instrumentos, outras ferramentas, e ele foi deixado de lado. Aquela forma de fazer já não cabia mais, principalmente com o surgimento do MNU, que queríamos que fosse uma organização que unificasse todos os movimentos negros", diz Rafael Pinto.

Rovena Rosa/Agência Brasil

Para Milton Barbosa, a elaboração do "Árvore" se deu por conta da “necessidade de se ter um meio de comunicação"

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