Brasil Mulher: luta feminista por liberdade e anistia

Criado em 1975, jornal dedicou-se a temas especialmente ligados às mulheres, como a jornada dupla de trabalho e o questionamento da estrutura patriarcal da sociedade

Lucas Estanislau e Tiago Angelo

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Corria 1975, declarado pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher. No Brasil – que vivia debaixo de forte repressão militar – grupos começam a se organizar cada vez mais em movimentos segmentados. Surge, por exemplo, o Movimento do Custo de Vida, em que grupos de mães da periferia pedem o congelamento dos preços de produtos de primeira necessidade, a criação de creches e reajuste salarial de acordo com a inflação.

É neste contexto que é criado o Brasil Mulher, um marco da luta feminista e da resistência à ditadura militar no país.

(Editora Intermeios, R$ 45), escrito por Roselina e Amelinha em 2013.

O editorial da edição n.º 0, publicada em outubro de 1975, diz que o jornal tinha o objetivo de “ser mais uma voz na busca e na tomada da igualdade perdida. Trabalho que se destina a homens e mulheres. A época do beicinho está definitivamente para trás, porque milhares de mulheres em todo o mundo fazem uma jornada dupla de trabalho; mulheres que desejam trabalhar e serem independentes economicamente de seus maridos, são obrigadas a levar uma vida ociosa, sem nenhuma perspectiva de serem consideradas seres que pensam. Queremos usar a inteligência, informação e conhecimento em função da igualdade e, desde já a propomos, com equidade entre homens e mulheres de qualquer latitude”.

Londrina e São Paulo

O primeiro exemplar do Brasil Mulher foi editado em Londrina e transportado para São Paulo, cidade onde a divulgação podia ser maior e que abria a possibilidade de ampliar a adesão ao movimento. Em novembro de 1975, a sede do jornal já havia mudado para a capital paulista, onde vivia Terezinha, que abrigou as primeiras reuniões para discussão e elaboração das pautas. Todo o financiamento era feito pelas mulheres que faziam parte do jornal, assim como edição, diagramação e distribuição.

O foco do Brasil Mulher eram as mulheres que viviam nas periferias. O jornal era distribuído em clubes de mães na zona sul de São Paulo, na região do Campo Limpo. “Eu distribuía o jornal e falava assim: ‘vocês vão folhear esse jornal aí e depois vocês escolhem qual matéria a gente deve ler coletivamente, pra gente conversar sobre o assunto'”, conta Amelinha.

Dessa forma, o jornal foi responsável por introduzir na discussão pública temas como aborto, sexualidade, divórcio e direitos das mulheres, questões consideradas tabu na época. Rosalina conta que, nas conversas levadas para a periferia, eram discutidos temas como “o que é o orgasmo, o que é o direito ao prazer. "Optamos que essas reuniões fossem só de mulheres”.

O jornal também comprometeu-se em dar visibilidade às mulheres negras, o que foi feito já na primeira capa do jornal. “É interessante já ter uma mulher negra na capa. Uma jovem, grávida, descalça, brincando com uma criança”, afirma Amelinha. Para ela, esse “feminismo ainda muito incipiente” mostra que já havia um “compromisso grande com o movimento popular, com a periferia, com as mulheres mais pobres; por isso nossa posição de dar visibilidade às mulheres negras”.

Rosalina diz que o jornal "a ditadura achava que as mulheres não faziam uma luta tão importante" e, por isso, a censura agia menos. E, por ser um periódico que não chamava tanta atenção do governo militar, o jornal corria em apoio a outros veículos independentes, quando eles eram alvo de censura.

Eu apoio Opera Mundi

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como "Amelinha", fez parte do jornal desde seu número 0

Uma questão política

Até o encerramento do jornal, em 1980, foram publicadas 20 edições (16 edições regulares e quatro denominadas “extras”). Ao longo desse período, o jornal dedicou-se a temas especialmente ligados às mulheres, como a jornada dupla de trabalho e o questionamento da estrutura patriarcal da sociedade.

Rosalina diz que o jornal levantou questões sobre o machismo dentro da própria esquerda. "Até que ponto eles [os homens da esquerda] poderiam se dizer socialistas, revolucionários, se eles não respeitavam suas mulheres?”, relembra Rosalina. Nesse processo, o jornal fez denúncias de casos de abuso de envolvendo líderes dos movimentos sociais, o que provocou uma forte repercussão. Mesmo dentro do movimento armado de resistência a ditadura, conta Rosalina, "sempre [existiu] uma posição subalternizada, de reprodução da sociabilidade que elas tinham, de cuidar da casa, fazer a comida, participar da mesa como secretária e não como protagonista”.

Um tema recorrente era o da relação da mulher com o trabalho, “que é uma categoria importantíssima para as marxistas. Era discutir a libertação das mulheres pelo trabalho, a necessidade de as mulheres não serem donas apenas do seu corpo, mas donas de sua independência, de sua autonomia e que isso se fazia pela inserção no trabalho”.

O jornal também ressaltou o caráter político do feminismo. Uma outra questão recorrente, diz Rosalina, foi a da internalização do machismo. Essa internalização é “algo que as mulheres acabam tratando no seu privado, como algo da personalidade das mulheres e não como uma questão política, que precisa ser tratada do mesmo jeito que as outras questões.

Reprodução

Rosalina Santa Cruz Leite, militante, ex-presa política e uma das integrantes do Brasil Mulher

Uma decisão importante do Brasil Mulher foi a de reforçar o caráter de militância autônoma, sem ligações de subordinação a correntes e partidos. A ideia era evitar que o grupo e o jornal se tornassem “correntes de transmissão" das organizações em que a mulheres que faziam o jornal participavam. "Que elas fossem protagonistas e não representassem o que os homens da suas organizações discutiam”, diz Rosalina.

Recepção

Rosalina explica que a boa recepção do Brasil Mulher aconteceu justamente por conta da criação do diálogo com as mulheres da periferia, que passaram a ser constantemente retratadas nas páginas do jornal. "Elas começaram a sentir que, pela primeira vez, saíam nos jornais sem ser na página policial”, conta.

E, mesmo que grande parte dos exemplares fossem distribuídos gratuitamente, uma parcela era comercializada em bancas. E o fato de as mulheres se reconhecerem cada vez mais naquelas páginas fez com que o jornal tivesse uma boa adesão, chegando à marca de 10 mil exemplares a cada edição. “Nós criamos instrumentos para publicizar ideias, desejos, reivindicações que já estavam embrionárias nas mulheres”, afirma Amelinha. "O que fica para mim de muito forte é a mobilização, a articulação de muita gente que não conseguia se articular e a partir do jornal começou a se articular", diz.

O último número do jornal foi publicado 8 de março de 1980, alguns meses depois da promulgação da lei de anistia, em 28 de agosto de 1979. Para Amelinha, o jornal teve muita importância, embora reconheça que as pautas do movimento feminista de hoje permaneçam bastante parecidas com as levantadas pelo Brasil Mulher. O “feminismo talvez tenha avançado muito, porque hoje tem milhares de coletivos feministas por toda parte, mas a parte dos direitos está muito parecida. As pautas estão muito parecidas. A gente conquistou muita coisa, mas efetivamos ainda poucos direitos”, conclui.

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