Hoje na História: 1953 - Médicos são acusados de conspirar contra a URSS

'Conspiração dos Médicos' foi, segundo a versão oficial do Estado soviético, um complô de médicos judeus, sob ordens da inteligência estadunidense

Max Altman

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Atualizada em 12/01/2018 às 14:23

Por intermédio do jornal Pravda, em editorial publicado em 13 de janeiro de 1953, o líder soviético Josef Stalin anunciou um novo expurgo. O motivo invocado foi novamente a suspeita de complô, e teve como alvo os médicos do Kremlin, daí o nome “Conspiração dos Médicos” ou “Complô dos Aventais Brancos”.

Eles eram suspeitos do assassinato de Andrei Jdanov, importante líder soviético e membro do Politburo e foram acusados de deliberadamente conduzir um tratamento médico inadequado ao seu problema de saúde. Os médicos pagariam por um suposto anticosmopolitismo e antisemitismo de Stalin, fatores que já haviam levado ao processo de Praga. Esse complô seria neutralizado após a morte de Stalin e seus acusados, inocentados.

A “Conspiração dos Médicos” foi, segundo a versão oficial do Estado soviético, um complô de médicos judeus, sob ordens da inteligência estadunidense, que teriam como objetivo assassinar os principais quadros do Partido Comunista da União Soviética, inclusive o próprio Stalin.

“Os médicos do Kremlin”, dizia o artigo, “judeus em sua maioria, assassinaram os maiores líderes soviéticos e têm como próximos alvos vários outros, talvez até mesmo o próprio Stalin”. O editorial, intitulado “Espiões miseráveis e assassinos sob a máscara de doutores”, afirmava que “agentes de segurança do governo desmascararam médicos terroristas que assassinaram figuras públicas soviéticas com tratamentos propositalmente errados”.

Wikicommons

'Conspiração dos Médicos' foi, segundo a versão oficial do Estado soviético, um complô de médicos judeus, sob ordens da inteligência estadunidense

Conforme relatou o Pravda, o governo descobrira uma "monstruosa conspiração orquestrada por esses médicos". Os acusados seriam membros da “associação burguesa judaica internacional”, como eles chamavam o “Joint” (American Joint Distribution Committee). Segundo o jornal, uma fachada para uma organização sionista de espionagem. O plano era destruir a URSS e arrastar o mundo para uma guerra nuclear.

Ainda segundo o jornal, um deles, o Dr. Vovsi “confessara” ter recebido ordens de “eliminar a liderança da URSS”. Provas documentais, investigações e as confissões dos presos, informava o órgão oficial do governo, haviam comprovado que os criminosos ludibriaram seus pacientes, ministrando-lhes tratamentos inadequados e letais. “Todo o povo russo deve intensificar sua vigilância. Estejam de prontidão em todas as manifestações dos fomentadores da guerra e seus agentes”.

Fim do complô

Depois da morte de Stalin, em março de 1953, os líderes da União Soviética assumiram que o caso foi fabricado com o objetivo de prender e executar líderes comunistas que a ele se opunham. A campanha cessou abruptamente em 1º de março. Ao assumir o poder, Laurenti Béria - que acabaria deposto por um golpe palaciano, liderado por Nikita Kruschev, e fuzilado em dezembro de 1953 - cancelou os julgamentos e libertou os acusados.

No dia 12 de abril, doze semanas após a morte de Stalin, o mesmo Pravda publicou um outro artigo, ressaltando o respeito à lei no país. Sob a manchete, “A inviolabilidade da lei soviético-socialista”, o jornal afirmou que “os médicos tinham sido presos sem nenhuma base legal”, acrescentando ainda que os “investigadores super zelosos se haviam esquecido de que estavam a serviço do povo e que sua missão era salvaguardar a lei soviética”.

Os médicos do Kremlin foram inocentados e todos, com exceção de dois, que, ao que tudo indica, morreram na prisão, foram reconduzidos a seus cargos. Houve uma anistia e introduziram-se modificações no Código Penal.

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