De advogadas a combatentes: mulheres nordestinas arriscaram suas vidas na resistência à ditadura militar
Figuras como Mércia Albuquerque, Alexina Crespo e Amparo Araújo protagonizaram histórias cinematográficas na luta contra contra o regime
Este ano, o Golpe Militar de 1964 completa 62 anos. Os respingos da estrutura patriarcal sobre as narrativas históricas, mantém empoeirada a atuação das mulheres nas trincheiras de resistência ao período ditatorial.
Pernambuco, um dos estados onde a repressão foi mais violenta, é berço de mulheres que combateram, de forma aguerrida, em defesa dos Direitos Humanos.
Mércia Albuquerque, conhecida como “a advogada dos mil casos”, defendeu presos políticos no Nordeste e chegou a invadir um hospital para fazer o seu trabalho.
Alexina Crespo intermediou o apoio de Cuba às Ligas Camponesas por reforma agrária e chegou a conviver com Che Guevara e Mao Tse Tung.
Amparo Araújo combateu na Aliança Libertadora Nacional (ALN), grupo de resistência liderado por Carlos Marighella e atravessou os anos de chumbo sem nunca ter sido presa.
As vidas dessas mulheres constituem parte importante da história da luta contra o regime mais sanguinário da história do Brasil como república independente.
Lady Tempestade
Se, na atualidade, as mulheres enfrentam desafios para serem autônomas e acessarem direitos, em 1964 a situação era ainda mais difícil. É neste contexto que a “Tempestade” – outro apelido de Mércia Albuquerque – decide advogar por presos políticos. Ainda como estagiária do promotor Paulo Cavalcanti, ela presenciou o episódio em que o ex-deputado federal constituinte Gregório Bezerra foi arrastado por um carro, preso a uma corda no pescoço pelas ruas de Casa Forte, sob as ordens do coronel Darcy Ursmar Villocq.

Mércia Albuquerque em visita a Gregório Bezerra, preso político a quem ela viu sendo torturado
Reprodução Memorial DHNet
De volta à sua casa, ainda estarrecida com a cena que acabara de presenciar, diz ao marido Octávio: “eu vou defender essas pessoas, você vem comigo?”. Ele, que era odontólogo, aceitou o pacto, e a parte que lhe coube foi trabalhar para manter a casa, enquanto Mércia se dedicava exclusivamente à causa dos presos políticos. Prima de Mércia, a jornalista Eliane Aquino afirma que “ela nunca se filiou a nenhum partido, queria salvar vidas, acreditava muito no Direito”.
A história da advogada nascida em Jaboatão dos Guararapes, a 16 km do Recife, ganhou os palcos com o monólogo “Lady Tempestade”, no qual a atriz Andrea Beltrão deu vida aos relatos dos seus diários.
Ela se considerava tempestade, o oposto da mãe, a quem chamava de calmaria. Aos nove anos, quando perdeu o pai, Mércia recebeu apoio do tio, pai de Eliane, nos estudos. Permaneceu até o Ensino Médio em um colégio de Freira, mas manteve a autonomia. “Ela não aceitava rótulos, era dona de si”, sentencia Aquino. Cursou um ano de Medicina, mas desistiu por temer o contato com cadáveres. Por fim, formou-se pela Faculdade de Direito do Recife.
A fama de “advogada dos mil casos” foi conquistada pela luta persistente de Mércia ao longo dos anos, defendendo pessoas perseguidas pela Ditadura Militar, até mesmo no período pós-Anistia.
O contexto era adverso: o golpe de 1964 rasgou a constituição de 1946 e passou a instaurar novos mecanismos, como a Lei de Segurança Nacional e os Atos Institucionais, dispositivos de caráter administrativo que sustentaram legalmente as medidas de repressão e a categorização do crime de “subversão. Por isso, os presos políticos não gozavam de benefícios constitucionais permitidos aos presos comuns.
O habeas corpus, benefício constitucional de proteção da liberdade, foi extinto. Criaram a figura da “prisão para averiguação”, que permitia capturar as pessoas sem mandado de prisão ou flagrante delito, e também permitiram que civis passassem a ser julgados pela Justiça Militar.
O professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Manoel Moraes, titular da Cátedra de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, explica como se davam essas prisões. “Bastava um agente do Dops infiltrado querer prender, você era sequestrado, torturado e preso e, se não fosse considerada pessoa muito perigosa, era solto”, recorda.

Mércia ao lado de Cândido Pinto, preso político que ficou paraplégico com apenas 21 anos, ao ser baleado por Agentes do DOPS
Acervo DHNet
Neste contexto, o trabalho de Mércia era focado em “quebrar a incomunicabilidade”, ou evitar que o preso sumisse pelos calabouços do regime, podendo desaparecer para sempre. Em uma época sem internet, computador, celular e redes sociais, essa interceptação se dava de forma prática e obrigou Mércia a empreender ações cinematográficas para defender os seus representados.
Em uma dessas ações, ela acessou a ala de internação do Hospital Militar do Recife disfarçada de enfermeira, para poder conversar com Odijas Carvalho, um estudante de agronomia e militante do Movimento Estudantil e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que havia sido preso e fortemente torturado.
Ninguém da família ou do grupo de amigos e militantes sabia do seu paradeiro. Mércia confirmou o local onde o preso estava através de um contato com o capitão Francisco de Paula Accioly. Ao chegar no local, diz em uma das páginas do seu memorial que, “Odijas tinha muita febre, apresentava equimoses [manchas roxas] em todo o corpo, usava apenas uma cueca ou um calção. O rosto estava macerado e roxo”.
O jovem morreu no dia seguinte à visita. O atestado de óbito apresentava “embolia pulmonar” como causa da morte. A Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC), de Pernambuco, conseguiu, na 12ª Vara de Família e Registro Civil da Comarca da Capital, retificar o documento e inseriu como causa da morte, “homicídio por lesões corporais múltiplas decorrentes de atos de tortura”.
Manoel Moraes classifica a atuação de Mércia nesse caso como “heroica”. “Ela criou rotas de fuga, muitas pessoas sobreviveram graças a essas rotas. Em uma época onde a finalidade não era o dinheiro em si, mas a causa. A atuação de Mércia merecia um filme”, relatou.
Em outro momento, a advogada foi chamada à sede de Recife do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para libertar o irmão, Sandino, que foi preso em um protesto ao lado de outros manifestantes. Ao chegar no local, viu que um líder das Ligas Camponesas estava detido e, possivelmente, ainda não havia sido identificado pela polícia política. Ela prefere libertar a liderança, deixá-lo seguro para, só então, retornar para libertar o irmão.
O líder em questão era Francisco Julião, um dos fundadores das Ligas Camponesas, que viria a ser deputado federal constituinte anos depois. Ele era considerado uma forte ameaça ao regime, o que fica nítido pelo volume do seu prontuário no DOPS, que possui 725 páginas.

Mércia visita o Monumento Tortura Nunca Mais, com placas em homenagem aos presos, torturados e peserguidos pela Ditadura
Acervo DHNet
Estrategista, Mércia usava roupas sempre em tons de azul e cultivava contatos e respeito entre agentes do DOPS. O azul remetia ao arquétipo de Nossa Senhora, que na doutrina católica exerce papel de intercessora. Seus contatos eram importantes para a defesa, que não se baseava em teorias, mas sim em argumentos com forte apelo emocional.
O Estado de exceção fez com que muitos advogados testassem diferentes estratégias de defesa e passassem a investir nelas à medida que tinham êxito. Segundo Moraes, inicialmente, eles recomendavam aos clientes não denunciar a tortura à qual tinham sido submetidos. Mais tarde, mudaram de ideia e pediram que dessem detalhes sobre a violência sofrida nos porões do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).
“Esses relatos passaram a ser usados como provas. Antes, os advogados não tinham como produzir essas provas, pois para o prisioneiro político, aquele que era considerado subversivo, o Estado relativizava todas as suas garantias. Tanto que ele podia ser torturado, mesmo sem nunca ter havido autorização para tortura no Brasil”, acrescenta Moraes.
Os processos contendo esses depoimentos de tortura foram copiados pelos advogados, que solicitavam os documentos sob a alegação de realizar instrução, produzir provas orais, mas, na verdade, eles realizaram cópias das inúmeras páginas. A estratégia posta em prática a partir da recomendação do arcebispo de São Paulo, Dom Evaristo Arns, deu origem ao Projeto Brasil Nunca Mais. Trata-se de uma das mais amplas pesquisas sobre tortura que o Brasil tem notícia.
Mércia foi presa 12 vezes. Em uma das emboscadas, ela fugiu da perseguição deixando o filho Aradin, recém-nascido, sozinho na gaveta de uma cômoda do apartamento onde morava, à espera de uma vizinha a quem apelou por ajuda. Com o fim do regime, a advogada seguiu atuando em casos de Direitos Humanos. Facilitou o acesso de ex-presos políticos a indenizações pagas pelo Estado de Pernambuco. Na Ouvidoria-Geral de Pernambuco, elaborou um parecer, com base na psicanálise, que instituiu o direito às visitas conjugais para homossexuais masculinos e femininos dentro do sistema prisional.

Mércia Albuquerque ficou conhecida como ‘a advogada dos mil casos’ por defender presos políticos no Nordeste
Acervo DHNet
A história da Lady Tempestade é contada no livro Diário 1973-1974 de Mércia Albuquerque, maior advogada de Presos Políticos do Nordeste, obra de José Geraldo Sousa e do Acervo Memorial DHnet.
A jornalista Eliane Aquino considera que a memória da advogada ainda não tem o devido reconhecimento. “Eu me culpo muito por nunca ter feito nada. Se Otávio não tivesse doado o acervo dela para o Memorial do Rio Grande do Norte, não tinha nada. O Governo do Estado pecou com a memória de Mércia. Não estou falando de nomes, estou falando do Estado”, conclui.
‘Uma distinta senhora’
A história das Ligas Camponesas, movimento que pautou, pela primeira vez, a Reforma Agrária no Brasil, é bastante associada à nomes como Francisco Julião, Gregório Bezerra e Davi Capistrano. Esses líderes, em fases distintas, foram porta-vozes da massa de trabalhadores camponeses que se manifestaram por terra e direitos sociais. Nos bastidores, Alexina Crespo, esposa de Francisco Julião, que para muitos era apenas “uma distinta senhora”, articulava o apoio de Fidel Castro, líder de Cuba, ao movimento.

Bisneto de Alexina, o bacharel em filosofia, Raul Calle, exibe foto dela com Fidel Castro, em Havana
Arquivo Pessoal
Bisneto orgulhoso, o bacharel em Filosofia, Raul Calle, de 31 anos, conta que “ela, intencionalmente, não deveria chamar atenção, atuava como uma espécie de embaixadora das Ligas Camponesas”. Alexina Lins Crêspo de Paula teve quatro filhos com Julião: Anatilde, Anatailde, Anatólio e Anacleto. Conciliou a maternidade com a militância em tempos áridos.
O rosto belo, de sorriso largo, olhos expressivos em tom castanho escuro emoldurava uma mente que sonhava com a revolução. No comando da Frente Feminina das Ligas Camponesas, primeiro movimento social que organizou as mulheres no campo, foi dela a iniciativa de adaptar o lema original “reforma agrária na lei ou na marra”, que passou a ser “reforma agrária, na marra ou na marra”. Alexina articulou vários apoios de Cuba para a causa camponesa, como, por exemplo, ao projeto de dar treinamento às mulheres do campo no uso de armas.
Era início dos anos 60, as Ligas cresceram e passaram a chamar atenção das forças anticomunistas, explica Raul. “As ofensivas contra às famílias do campo por parte dos latifundiários se intensificam e as mulheres aprendem a manejar armas para se defenderem quando estavam sozinhas em casa”, detalha.
Enquanto costurava o reforço que chegava de Cuba ao Brasil, Alexina convivia com Che Guevara, Célia Sanchez, Juan Almeida Bosque, integrantes da Revolução Cubana.
Em uma recepção ao presidente João Goulart, ela foi questionada sobre o seu envolvimento com a política. “A senhora Alexina se interessa por política?”, perguntou o presidente Goulart, na ocasião. A militante retrucou “olhe, presidente, eu respeito muito meu marido, mas essas coisas de política, eu não entendo nada, não quero saber, o meu negócio é minha casa, meus filhos, a igreja”, disfarçou.

Alexina Crespo, entre Francisco Julião (à esquerda) e Glauco Pinheiro, em atividade do Partido Socialista, em Pernambuco
Arquivo pessoal Raul Crespo
O trabalho na Frente Feminina das Ligas levou à demarcação do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, o primeiro assentamento de reforma agrária do Brasil. A conquista fez com que os militantes acreditassem que o “caminho, a mudança passava por uma Reforma do Estado e que era possível isso acontecer”, observa Raul Calle.
Com a Revolução Cubana, os Estados Unidos voltam as suas atenções para o Nordeste, explica Raul. “Eles começam a se preocupar que a região se torne a nova Cuba. A partir de 1962, o casal passa a receber ameaças de morte, através de cartas que diziam que quando acordassem, encontrariam as quatro filhas enforcadas no quintal”, recorda.
Diante das ameaças, Fidel convida as filhas de Alexina e Julião para estudar em Cuba.
Anos depois, a articuladora das Ligas deixou os quatro filhos sozinhos na ilha e retornou ao Brasil, onde se dedicou exclusivamente à luta armada no movimento de reforma agrária. Quando retornou à Cuba para rever os filhos, conheceu Mao Tse Tung, com quem conversa sobre política, armas e a militância no Brasil.

Alexina, ao lado das duas filhas, encontra o presidente Mao Tse Tung, na China
Arquivo Raul Crespo
Alexina chegou à Cuba no dia 30 de abril de 1964, um dia antes do Golpe Militar e, de lá, exilou-se no Chile e na Suécia, retornando ao Brasil em 1980. Nasceu em Recife em 1926. Morreu na mesma cidade, em 2013 – segundo o bisneto, Raul, ainda lúcida e com grande parte dos seus cabelos negros preservados. Francisco Julião, com quem já não tinha uma relação conjugal, exilou-se no México, em 1965.
Apesar da serenidade aparente, a senhora Crespo cultivava uma inquietação que a fez enveredar por vários caminhos políticos, além das Ligas. Ao lado do marido, filiou-se ao Partido Socialista, recém fundado em Pernambuco, atuando como Secretária de Finanças. Em 1955, organizou a Campanha dos Pratos Vazios contra a carestia de vida e a mortalidade infantil. Lotou o cinema da Caxangá com mulheres vindas das mais diversas partes do Recife. Esses movimentos chamaram a atenção dos Militares, que passaram a investigá-la. A partir daí, ela ganha um prontuário no DOPS.
Foi presidente da Federação de Mulheres de Pernambuco por três vezes. Quando o órgão foi invadido e destruído por Juscelino Kubitschek, veio à tona que a Federação estava ligada ao Partido Comunista, uma tentativa de manter os militantes mobilizados, uma vez que o partido havia sido declarado ilegal.
Segundo Raul, foi naquele momento que Alexina revelou sua autonomia política. “Ela escondeu, dentro de casa, documentos do Partido Comunista, sem que o próprio marido soubesse. Mantinha os documentos do Partido Socialista de forma pública e, internamente, colaborava com o Partido Comunista”, recorda.
‘Mulher buscadora’
Amparo Araújo é a única militante ainda viva com quem a reportagem do Opera Mundi conversou. Por isso, podemos dizer que, até hoje, 41 anos após o fim do Estado de exceção, ela continua lutando, agora, para que o Estado repare às famílias e à sociedade pelo crime contra os presos políticos. Tornou-se uma “mulher buscadora”, figura que lidera a busca por parentes desaparecidos, vítimas de guerras e conflitos armados.

Amparo Araújo nunca viu os restos mortais do irmão (foto na moldura) e ainda trava uma batalha judicial pela reparação
Arquivo pessoal
Há 20 anos, espera o desfecho de um processo contra o Estado brasileiro pela tortura que levou à morte de Luiz José da Cunha, o Comande Crioulo, pernambucano militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), em São Paulo. “O Estado alegou que ele morreu de um tiro, mas não, ele morreu porque foi torturado, o sangue dele se esvaziou, pois não o socorreram”, rebate Amparo Araújo.
O processo tramita na Corte Interamericana dos Direitos Humanos, foi para essa instância, após ser indeferido no Ministério Público Federal. Procedimento semelhante foi adotado no caso de Vladimir Herzog, pelo qual o Estado foi condenado, em 2018, pela “falta de investigação, julgamento e punição aos responsáveis pela tortura e assassinato do jornalista”.
Os caminhos de Amparo Araújo, nascida em Palmeiras dos Índios, Alagoas, em junho de 1950, se cruzaram com os da ALN, ainda na adolescência. As ruas pacatas da cidade onde morava amanheceram, no dia 1º de abril, ocupadas por tanques de guerra e soldados com armamentos pesados. O contexto repressivo não a impediu de participar de um protesto do Movimento Estudantil contra as frequentes faltas de energia na cidade. “O prefeito reagiu com truculência e vovó achou melhor me mandar estudar em um colégio de freiras no interior de São Paulo”, emenda Araújo.
Ficou apenas um ano e meio na escola de freiras, período que descreve como “um choque cultural muito grande”. Conheceu um padre líder do movimento “Juventude Universitária Católica”, que facilitou o seu ingresso em uma escola pública na capital, onde passa a viver com o irmão, através de quem ela ingressa na ALN.
Na guerrilha, Amparo exercia funções administrativas e de inteligência. “Produzia documentos frios usados na fuga dos militantes. Cuidava das armas de combate e fazia observação de locais de expropriação de dinheiro e de pessoas. Recebi treinamento com armas calibre 22 e 38”, recorda.
Também cabia a Amparo a tarefa de manter a aparente normalidade e agir rápido nos casos de fuga. No massacre do Restaurante Varella, na Mooca, quando os integrantes da ALN Yuri Xavier, Marcos Nonato e Ana Maria Nocinovic foram mortos, ela liderou a evacuação rápida do “aparelho”, como era chamada a residência dos militantes. Yuri estava no comando da ALN em São Paulo. Amparo estava grávida do militante Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, que veio a se tornar líder da ALN após a morte de Yuri Xavier. Ela estava na companhia de Antônio Carlos Bicalho Lana, único sobrevivente do tiroteio.
A versão do DOPS para a morte dos três militantes era de que eles haviam reagido à voz de prisão atirando contra os policiais. No entanto, a apostila “contra subversão” da Escola Nacional de Informações (EsNI), de 1974, contraria a tese dos agentes da ditadura e cita evidências de que os militantes foram executados e possivelmente torturados nas dependências do DOI-CODI, como consta na página Memórias da Ditadura.
Na fuga, ela teve um abordo espontâneo. “Eu atribuo ao fato de ter saído com uma bolsa pesada, cheia de armas. Fui socorrida pelo médico que ainda percebeu alguns batimentos cardíacos do bebê, recebi medicação, mas, ainda assim, perdi o feto”, explica. A militante conta que nesta época, “a expectativa de vida era de cinco minutos”. Em meio à tensão constante, a jovem militante amou.
Amparo casou-se três vezes com líderes da resistência armada. O primeiro foi Yuri Xavier. O segundo foi Luiz José da Cunha. O terceiro foi Thomaz Meirelles. Todos eles foram desaparecidos pelas mãos dos militares. “Eu fiquei viúva três vezes. Em uma ocasião, carregava na barriga um bebê que era do Luiz Cunha. Fui ao Rio de Janeiro executar uma missão e tive um encontro muito especial com Luiz. Logo depois, ele veio para uma reunião no aparelho de São Paulo e nós tivemos uma noite de amor, lembro-me bem daquele dia”, recorda emocionada.
Aqui, os dilemas de ser militante e mulher vividos por Mércia, Alexina e Amparo convergem. Em algum momento das suas trajetórias, elas tiveram que se distanciar dos filhos, em situações que ainda geraram críticas por contrariar valores que a sociedade convencionou ao papel de “boa mãe”.

Amparo, à esquerda, a mãe, ao centro, e o irmão Luiz Almeida Araújo, em São Paulo
Arquivo pessoal Amparo Araújo
Perguntada sobre se havia distinção entre militantes homens e mulheres na luta armada, ela diz não ter certeza. Lembra que, certa vez, foi à Avenida Paulista executar uma missão ao lado do cunhado, Alex Xavier, irmão de Yuri. Ambos caíram na tentação de assistir a um filme, o que era terminantemente proibido, pois poderia chamar atenção dos militares. “Quando eu cheguei em casa, contei ao Yuri sobre o cinema, fui punida, tendo que moer 10 quilos de permanganato de potássio. Já Alex leu vários textos teóricos. Não sei se eu tive uma punição mais pesada por ser mulher”, frisa.
O encontro com Mércia
Com o fim da ALN, em 1974, Amparo permaneceu em São Paulo, na clandestinidade, até 1977. Retornou às Alagoas, em seguida foi a Recife, onde continuou a sua luta pela anistia dos presos, torturados e desaparecidos políticos. Procurou ajuda de Mércia Albuquerque, na ouvidoria, ao ver seu nome numa lista de desaparecidos políticos. “Ela foi bem desconfiada, e estava certa. Ao final da conversa, recomendou ‘se livre do rabo, antes de voltar’. Pediu que eu desse várias voltas para não ser notada. Ela deu a mesma orientação que eu tinha nos treinamentos”, destaca.
Reconhecida como uma das maiores ativistas em defesa dos Direitos Humanos do Brasil, Amparo carrega na mente e no corpo marcas dos anos de chumbo. “Eu sobrevivi, sem nunca ter sido presa, porque era muito disciplinada. Até hoje, tenho um tipo de toque, tenho método para tudo. Outra sequela não consigo gravar a fisionomia de ninguém, apenas de pessoas com quem convivo, muito menos nome e endereço, fui treinada para isso”, detalha.
Para a ativista, o Estado precisa “punir os torturadores e preservar a memória da Ditadura Militar”. “O Estado sempre foi omisso em várias coisas. Temos que resgatar a memória do extermínio da população originária pelos capitães do mato, trazidos pelos portugueses. Chego a dizer que a nossa polícia, especialmente militar, são descendentes desses capitães do mato, têm em seu DNA a alma de exterminador. Esses crimes contra a humanidade precisam ser punidos para que o país seja nação”, conclui.
























