Comunidade judaica de SP se reúne pelo Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto
Ato na Congregação Israelita Paulista reuniu governador, cônsules e lideranças religiosas que homenagearam sobreviventes da Segunda Guerra Mundial radicados na cidade
A Congregação Israelita Paulista (CIP) sediou no domingo (25/01) o Ato em Memória às Vítimas do Holocausto, com participação ecumênica de lideranças religiosas de diversas tendências, entre rabinos, pastores, monges, xamãs, líderes espíritas, de umbanda e de candomblé e o cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo.
Também estiveram presentes cônsules de diversos países e autoridades civis, inclusive o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o secretário de Relações Institucionais do estado e presidente do PSD, Gilberto Kassab. A solenidade faz referência ao dia 27 de janeiro, declarado desde 2005 pela Assembleia Geral das Nações Unidas como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
O evento homenageou os sobreviventes do extermínio que vivem em São Paulo, representados em depoimento pela artista plástica e historiadora da arte Ruth Sprung Tarasantchi, de 92 anos. Ela resumiu sua história desde o nascimento num vilarejo na Iugoslávia até a chegada ao Brasil em 1947, aos 13 anos, após dois anos e meio prisioneira na Itália. “Em vez de nos mandarem para a Alemanha, nos mandaram para um campo de concentração no sul da Itália. Lá não se matava, mas foi uma época muito difícil”, disse.
A presidente da Congregação Israelita Paulista, Laura Feldman, evocou a Segunda Guerra Mundial e estabeleceu um paralelo com os dias atuais. “Isto precisa ser dito com clareza: sabia-se. Os sinais estavam ali, os discursos existiam, as intenções eram declaradas, e ainda assim não se acreditou. Engana-se quem pensa que isso ficou no passado. No século 21 voltamos a ver esse padrão se repetir”.
Feldman falou sobre a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), organização intergovernamental instituída em 1998 em prol da educação e pesquisa sobre o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, celebrou os governos de 12 estados brasileiros signatários do IHRA (entre eles o de São Paulo) e criticou o que chamou de “grave equívoco” do governo federal em retirar-se da aliança em 2025, no contexto do genocídio perpetrado por Israel contra os palestinos. Ela agradeceu a parceria do governador de São Paulo, prestando reconhecimento especial às forças de segurança do estado, “que nos permitem estar aqui hoje e todos os dias com tranquilidade”.
O cônsul-geral de Israel no Brasil, Rafael Erdreich, também comparou passado e presente: “as semelhanças são inquietantes. Assim como hoje, também no passado havia aqueles que, em nome de supostas virtudes morais de uma pretensa luta contra opressões, acabavam por oprimir minorias, em especial os judeus. Eram pessoas que acreditavam estar fazendo bem, enquanto pintavam estrelas de Davi em propriedades judaicas”.
Erdreich conceituou: “o antissemitismo é um vírus que permanece latente, à espera do momento certo para atacar. É acima de tudo um vírus da mentira e do ódio. Então, veio o 7 de outubro de 2023, o maior trauma da história de Israel. Naquele dia, 1.200 pessoas foram brutalmente massacradas, movidas pelo mais puro espírito do antissemitismo”. E complementou: “segundo a definição do IHRA, o antissionismo é uma forma de antissemitismo, por ser contra a expressão da autodeterminação do povo judeu e uma forma de eliminar seu direito de existir como nação”.
Presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), Célia Parnes foi mais uma a estabelecer paralelos entre o passado e o presente: “se o Holocausto estivesse começando hoje, saberíamos reconhecer os sinais? Ou estaríamos mais uma vez discutindo rótulos, relativizando fatos e buscando consenso? O Holocausto não aconteceu por ausência de alertas ou ingenuidade coletiva. Aconteceu porque o mundo se acostumou ao discurso de ódio, às exceções morais e à violência justificada. Foi o total colapso civilizatório”.

Tarcísio e Kassab acendem velas que simbolizam os milhões de judeus exterminados na Segunda Guerra Mundial
Parnes, como outros oradores do ato, criticou os governos do Irã e da Venezuela, vendo indícios presentes de que “as engrenagens que levaram ao Holocausto voltaram a se mover” no Brasil. Citou como exemplos pichações antissemitas, profanação de cemitérios judaicos, boicotes acadêmicos e culturais e notícias falsas: “As fake news, usando antissionismo como linguagem aceitável de antissemitismo, nos remete àquele personagem odioso que nem vou mencionar o nome, que afirmava que uma mentira repetida se torna verdade”.
Presidente da Confederação Israelita do Brasil, Cláudio Lottemberg foi na mesma direção: “o Holocausto não aconteceu de forma súbita. Foi construído passo a passo, em meio à normalização do ódio, à destruição de instituições democráticas e à indiferença de sociedades que preferiam, naquele momento, não enxergar. Durante muito tempo dizia-se que o mundo não sabia. Hoje ninguém pode dizer isso, pois é claro, sabiam e nada faziam”.
E continuou, valendo-se de termos como polarização e narrativas: “presenciamos de maneira direta a política das narrativas, que substituíram o multilateralismo e até mesmo o debate com fatos concretos. Mesmo assim seguimos relativizando o extremismo como se fosse apenas uma divergência de natureza ideológica legítima, um ‘nós contra eles’, onde a polarização tenta tirar o foco da discussão”. Por fim, classificando Israel como “farol para o mundo democrático” e “verdadeira democracia”, Lottemberg criticou o que chamou de relativismo: “há algo profundamente errado quando se fala em soberania do sentido etimológico e, jurídico, como se regimes autoritários funcionassem como verdadeiras democracias e sociedades governadas pelo medo pudessem expressar livremente a sua vontade. Esse relativismo não é inocente”.
Único a citar nominalmente a Faixa de Gaza, Tarcísio de Freitas afirmou concordar com a fala de Célia Parnes: “ela disse, ‘será que hoje nós estaríamos atentos aos sinais do holocausto?’. Naquele tempo, as lideranças não estavam. Hoje, talvez, não estamos. Não estamos prontos”.
Ele remeteu ao Holocausto do passado: “líderes de nações importantes não perceberam o que estava acontecendo, e aqueles que não perceberam sucumbiram, sucumbiram ao nazismo. Alguns acreditaram que seria possível dialogar com eles. E aqueles que acreditaram tiveram seus territórios violados e sucumbiram, foram derrotados, tiveram que se render”.
De volta ao presente, o governador afirmou: “a gente assiste estarrecido que hoje às vezes não se percebe o que está acontecendo. A gente nega o que está acontecendo. Nunca mais, nós não vamos aceitar o que aconteceu no passado. Só existe uma maneira da gente de fato homenagear as vítimas do Holocausto: é não permitir que aconteça novamente”. Além de Ruth Sprung Tarasantchi e demais sobreviventes, Tarcísio foi o único orador aplaudido de pé durante a solenidade.
























