Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
APOIE
Menu

Rússia e China anunciaram que irão publicar, ainda em 2026, a correspondência completa entre Josef Stalin e Mao Tsé-Tung, em um dos maiores projetos de desclassificação documental das últimas décadas. Serão cerca de 420 cartas, telegramas e anotações trocadas entre 1943 e 1953, mais de 250 delas inéditas para historiadores.

A iniciativa, conduzida em cooperação entre os arquivos federais russos (Rosarkhiv) e instituições chinesas, rompe décadas de sigilo e ocorre em um momento de forte reconfiguração geopolítica, marcado pelo aprofundamento do eixo Moscou–Pequim diante da pressão dos Estados Unidos e de aliados ocidentais.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Os bastidores da vitória comunista na China

Grande parte da correspondência remonta ao período decisivo do fim da Guerra Civil Chinesa e aos primeiros anos da República Popular da China, proclamada em 1949. Os documentos revelam Stalin atuando como conselheiro estratégico de Mao, discutindo desde táticas militares até organização do Estado, logística, epidemias, abastecimento de alimentos, ferrovias e companhias aéreas.

Longe de simples formalidades diplomáticas, as cartas indicam um diálogo intenso entre dois líderes que moldaram o mundo socialista do pós-guerra. Stalin, que usava o pseudônimo “Camarada Filippov” por razões de segurança, oferecia recomendações práticas e, em alguns casos, ajuda militar direta, como o fornecimento de armamentos antiaéreos.

Mais lidas

O líder soviético ofereceu recomendações práticas. “O projeto copia o modelo soviético de um centro administrativo-planejador e é muito complexo. Precisa ser simplificado e reduzido”, escreveu ele a Mao sobre a criação de órgãos governamentais. E em uma de suas mensagens, propôs diretamente: “Se você não tem medo de aceitar armas antiaéreas e canhões ao estilo russo, podemos fornecê-los.”

Em dezembro de 1949, Mao Tsé-Tung e Joseph Stalin estavam em Moscou
Reprodução/National Museum of China

Aliança e pragmatismo

Apesar da imagem posterior de unidade monolítica, a correspondência deve expor uma relação marcada por cautela mútua. Stalin manteve reservas, desde 1930, mesmo após a vitória comunista chinesa. Mao, por sua vez, buscava apoio soviético sem abrir mão de autonomia estratégica. Mas o tom da correspondência é surpreendente: nenhuma pressão ou imposição, apenas conselhos camaradas e respeito mútuo.

A Guerra da Coreia, iniciada em 1950, aproximou os dois países, consolidando a aliança formalizada no Tratado Sino-Soviético de Amizade, Aliança e Assistência Mútua. Ainda assim, os documentos sugerem que a cooperação coexistia com tensões latentes, que viriam à tona após a morte de Stalin, em 1953, e culminariam no rompimento sino-soviético das décadas seguintes.

Arquivos como instrumento político

O chefe do Rosarkhiv, Andrei Artizov, deixou claro que a política de cooperação arquivística da Rússia hoje se organiza em torno de países “amigáveis”, citando China, Índia, Vietnã e outros parceiros estratégicos. Nesse contexto, a abertura dos arquivos não é apenas um gesto acadêmico, mas também político.

A divulgação coordenada desses documentos pode funcionar como ferramenta de diplomacia histórica: reforça a narrativa de uma parceria profunda entre Moscou e Pequim, sinaliza alinhamento estratégico no presente e oferece à Rússia capital simbólico em negociações futuras, inclusive com o Ocidente.

Impacto para a história e para o presente

Para pesquisadores, a publicação promete redefinir a compreensão sobre a formação do bloco socialista asiático e o papel soviético na consolidação do regime chinês. Para a política internacional, o gesto carrega outra mensagem: a história, quando desclassificada no momento certo, pode ser usada como linguagem política e diplomática.

Ao abrir os arquivos de Stalin e Mao agora, Rússia e China não apenas revisitam o passado — reativam-no como elemento vetor na disputa de narrativas e na construção de alianças em um mundo novamente marcado por rivalidades sistêmicas.

No vídeo, o correspondente do canal de TV Zvezda toma contato com os originais em Moscou. A correspondência era feita por meio de telegramas criptografados, transmitidos por indivíduos de confiança: assessores soviéticos de Mao, serviços de entrega e representantes especiais. Muitos documentos foram escritos à mão por Stalin ou pelo próprio Vyacheslav Molotov, com edições de ambos os líderes — uma clara indicação de intervenção direta no texto. Não se tratava de burocracia árida, mas de um diálogo vivo entre dois arquitetos do mundo socialista.