A cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania recusou o prêmio de Melhor Filme do evento Cinema pela Paz, em Berlim, por considerar que a homenagem a um general israelense na mesma cerimônia tornava a premiação um ato de hipocrisia. Seu documentário A Voz de Hind Rajab – que também concorre ao Oscar de Filme Internacional – narra as últimas horas de uma criança palestina assassinada pelo exército israelense em Gaza.
“A paz não é uma fragrância aplicada sobre a violência para que os poderosos se sintam refinados e confortáveis”, disse Ben Hania à plateia. “O que aconteceu com Hind não é uma exceção; faz parte de um genocídio. E esta noite, em Berlim, há pessoas que dão cobertura política a este genocídio, reformulando o massacre de civis como legítima defesa, como ‘circunstâncias complexas’, e difamando aqueles que protestam”, acrescentou.
A cineasta afirmou que o cinema não dever ser usado como uma forma de “lavar a imagem”.
“Se falamos de paz, devemos falar de justiça. Não permitirei que as mortes deles sirvam de pano de fundo para uma conversa polida sobre a paz enquanto as estruturas que causaram essas mortes permanecerem intocadas. Portanto, não levarei este prêmio para casa esta noite. Deixarei aqui como lembrança. Quando a paz for reconhecida como uma obrigação legal e moral baseada no princípio da responsabilização pelo genocídio, voltarei e aceitarei este prêmio com alegria”, comentou.
A recusa de Ben Hania está ligada ao fato de que a cerimônia homenageou Noam Tibon, um ex-general israelense tema do documentário canadense A Estrada Entre Nós, que retrata o resgate de sua família durante os ataques de 7 de outubro de 2023. O filme também recebeu o prêmio de Mais Valioso, mas na categoria Justiça e Prêmios Honorários. O evento também contou com a presença da ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton.
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Em paralelo, o Festival de Berlim, considerado o mais político entre seus pares europeus, enfrenta críticas de artistas e ativistas por seu “silêncio institucional” e por seu suposto “envolvimento na censura de artistas que se opõem ao genocídio em curso cometido por Israel contra palestinos em Gaza”.
Ativistas denunciam que o evento não tomou posição sobre a Palestina, ao contrário do que fez em relação à guerra na Ucrânia e à situação no Irã.
Atores, diretores e outros profissionais do cinema assinaram uma carta denunciando o silêncio da Berlinale. A declaração foi divulgada após o presidente do júri, o diretor alemão Wim Wenders, responder a uma pergunta sobre a postura do governo alemão no conflito dizendo que o cinema deveria ficar “fora da política”.
A organização Film Workers for Palestine pede “maior pressão” sobre a Berlinale para que responda “às demandas de sua comunidade”, já que a direção do festival não abordou de forma significativa as preocupações expressas desde 2024.