Quinta-feira, 3 de setembro de 2026
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Foi Nelson Mandela quem disse a famosa frase: “A liberdade nunca é concedida voluntariamente pelo opressor; ela deve ser exigida pelos oprimidos”. Com isso em mente, homenageamos os sacrifícios e a resiliência dos presos palestinos que passaram anos atrás das grades.

Um desses presos, Sameeh Maher Salama al-Haddad, de 40 anos, conta sua experiência pessoal sobre o que significa ser um preso palestino. Sameeh, que passou 19 anos em prisões israelenses, foi libertado em 1º de fevereiro de 2025 como parte de um acordo de troca de prisioneiros.

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Sua experiência lança luz sobre as realidades brutais da vida nas prisões israelenses e o espírito inquebrantável dos presos palestinos.

Sameeh foi preso em 7 de março de 2006, quando tinha apenas 21 anos. Ele passou as duas décadas seguintes em prisões israelenses, enfrentando condições extremas e pressão psicológica.

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Apesar das dificuldades, a resiliência de Sameeh nunca vacilou. Sua libertação, inicialmente prevista para março de 2026, foi antecipada para fevereiro de 2025 devido ao acordo inesperado de troca de prisioneiros. No entanto, sua jornada rumo à liberdade não foi fácil.

Em 28 de janeiro de 2025, Sameeh foi transferido da prisão de Nafha para a prisão de Negev, em preparação para a segunda leva de um acordo para troca de prisioneiros. Ele recorda que que estava “algemado, com os olhos vendados, sujeito a condições severas” e que foi transportado “em um veículo de aço, sem saber para onde estavam me levando”.

“Eu tinha uma leve esperança de que seria libertado, mas também tinha medo de que as negociações pudessem fracassar”, relata.

Horas antes de sua libertação, um oficial do Shin Bet israelense se encontrou com Sameeh para um interrogatório. “Ele encerrou o interrogatório ameaçando minha vida, alegando que, se eu participasse de qualquer atividade política após minha libertação, seria alvo de um míssil com o meu nome”, lembra Sameeh.

Em seguida, o oficial mostrou a Sameeh e aos prisioneiros um documentário que incluía imagens da destruição de Gaza, e o oficial israelense disse a eles que o Hamas era quem havia destruído Gaza – e que iria matá-los e deixá-los morrer de fome também. “Apesar da destruição, nós, os prisioneiros, queríamos voltar para Gaza e morrer lá”, acrescenta.

Momento da liberdade

Quando Sameeh foi finalmente libertado, após 19 anos de prisão, mal conseguia acreditar que estava finalmente livre. Ele foi calorosamente recebido por sua família e vizinhos, que esperaram anos por esse momento. “Parecia um sonho, a ponto de eu não ter dormido nas três primeiras noites”, conta. Tinha medo de dormir porque sentia que acordaria cercado por ferro e algemas. Aos poucos, começou a se acalmar.

Sameeh ficou impressionado com as mudanças em Gaza após o ataque israelense. “A destruição na cidade é enorme. Gaza não é mais o mesmo lugar que era quando parti”, diz ele.

transição de volta à vida civil não tem sido fácil: reconectar-se com sua sociedade tem se mostrado particularmente difícil. “Não há um horizonte claro nem um caminho definido à frente”, comenta, e adiciona que “a guerra, a destruição e o cerco contínuo tornam difícil enxergar um caminho a seguir”.

Apesar dessa incerteza, Sameeh continua esperançoso. Ele está determinado a viver em Gaza, casar-se com a garota que ama, construir uma vida lá e criar uma família na terra que tanto ama: “não quero passar pelo exílio novamente. Quero viver e morrer aqui, em Gaza”.

Vida na prisão

Nos primeiros dias de detenção, Sameeh ficou confinado em uma cela de isolamento pequena e escura, sem janelas, equipada apenas com um colchão muito fino. Havia muito pouco espaço para se movimentar. “Eles nos trancavam em celas que tinham apenas 1,5 metro por 1,5 metro. Era uma forma de quebrar nosso ânimo. Depois, me transferiram para uma prisão maior”, frisa Sameeh. “Eu só tinha permissão para usar o banheiro uma vez por dia, e os policiais israelenses vinham nos contar três vezes por dia”.

Apesar dos abusos, Sameeh se recusou a se deixar abater. “Passava meu tempo lendo, rezando e praticando exercícios físicos para me manter forte mental e fisicamente”, afirma. Ele também estudou para obter o diploma do ensino médio e, mais tarde, formou-se em história pela Universidade de Al-Aqsa. “Cheguei até a concluir um mestrado em história política. A educação foi minha maneira de encontrar sentido na vida”, explica.

No entanto, as autoridades fizeram tudo o que podiam para sufocar essa tentativa de encontrar sentido. Sempre que os presos eram flagrados estudando ou recebendo materiais educacionais, as autoridades israelenses confiscavam os livros e, em seguida, realizavam revistas de surpresa. Para evitar serem descobertos, os presos disfarçavam os livros didáticos como romances, trocando suas capas para não levantar suspeitas durante as revistas.

A visão de Sameeh sobre a vida mudou gradualmente. “Quando entrei na prisão, comecei a ver as coisas à distância e sob uma perspectiva diferente, especialmente depois de conhecer pessoas de diferentes países”, diz ele. “Vi pessoas que estavam presas para o resto da vida, mas que permaneciam inabaláveis. Elas me lembram a mítica Fênix – renascendo das cinzas”.

Soldados israelenses reprimindo prisioneiros palestinos em centro de detenção de Nafha
X / @OnlinePalEng

No primeiro ano de prisão de Sameeh, ele recebia visitas regulares de sua família. No entanto, as autoridades israelenses proibiram as visitas por cinco anos, de 2007 a 2012, e somente após uma greve de fome em massa dos presos é que as visitas foram restabelecidas, mas com severas restrições. Ao longo dos anos, essas visitas esporádicas foram a única conexão que Sameeh teve com o mundo exterior.

O momento mais difícil de Sameeh durante sua experiência na prisão foi quando soube do falecimento de sua mãe, em setembro de 2023. “Recebi a notícia com grande choque”, recorda, com as mãos e a voz agora trêmulas.

O que Sameeh mais sentiu falta enquanto estava na prisão foram os encontros com sua família e seus pais. Apesar disso, Sameeh nunca perdeu a fé. “Minha crença em Deus e saber que minha sentença é de 20 anos e não prisão perpétua foram o que me deram esperança nos momentos mais sombrios”, diz ele.

Festa de tortura

O sobrevivente relata que “os prisioneiros palestinos enfrentavam abusos ininterruptos, incluindo espancamentos regulares, insultos, humilhações, uso de gás lacrimogêneo e abuso psicológico. A ocupação israelense torturava todos os prisioneiros”.

Eles chegavam até a praticar um método de espancamento coletivo, que chamavam de “festa de quebrar costelas”. Sameeh menciona que, em uma ocasião, sua unha se soltou devido a uma descarga de alta voltagem – e o sangue jorrou. Ele conta que sua mão permaneceu dormente por um mês. As amarras de plástico e as algemas também causavam dormência nas mãos dos presos o tempo todo.

Sameeh lembra que, em janeiro de 2025, dois de seus companheiros de prisão chegaram a morrer: um de sarna e o outro de fome. Sameeh conta que algemavam as mãos dos prisioneiros mesmo quando eles já estavam mortos.

Ele relembra outro caso de tortura: havia um homem e seus dois filhos que estavam algemados nas mãos e nos pés e cercados por muitos policiais israelenses. O policial israelense pegou água fervente e a derramou na cabeça e nas costas do homem na frente de seus filhos, causando queimaduras graves no couro cabeludo e nas costas.

Ele acrescenta que, em dezembro de 2024, a polícia israelense tirou as roupas dos prisioneiros e arrastou um grupo de jovens pelas mãos, empilhando seus corpos nus uns sobre os outros, formando uma montanha humana. Em seguida, eles os fotografaram, uma réplica do que os americanos fizeram de forma infame aos prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.

O tratamento ficou ainda mais repugnante. Em uma ocasião, a polícia israelense trouxe dois jovens nus e algemados e os forçou a beijar o pênis de um cachorro. Em seguida, foram obrigados a lamber a saliva do cachorro do chão. Um dos jovens se recusou, então o espancaram violentamente na cabeça até que fosse forçado a fazê-lo. Essa tortura tinha como objetivo quebrar o ânimo dos prisioneiros, mas Sameeh, de alguma forma, encontrou maneiras de sobreviver.

O número de prisioneiros e detidos palestinos nas prisões da ocupação ultrapassa 9.500, incluindo mais de 350 crianças e 21 detidas. O número dos chamados “detidos administrativos” – prisioneiros mantidos em custódia sem acusação formal – é de 3.405.