Quarta-feira, 4 de março de 2026
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Pelo segundo ano consecutivo, Israel matou mais jornalistas do que qualquer outro país, de acordo com o relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) divulgado nesta quarta-feira (25/02). Segundo o documento, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) foram responsáveis pelo assassinato de 86 profissionais de mídia, ou seja, dois terços de um total de 129 mortos em 2025. E consequentemente, 2025 foi o ano mais mortal para a imprensa desde que a organização começou a monitorar os dados, em 1992.

“Jornalistas estão sendo mortos em números recordes em um momento em que o acesso à informação é mais importante do que nunca”, disse Jodie Ginsberg, diretora executiva do comitê. “Ataques à mídia são o principal indicador de ataques a outras liberdades, e muito mais precisa ser feito para prevenir esses assassinatos e punir os autores. Todos nós estamos em risco quando jornalistas são mortos por reportar as notícias”.

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De acordo com o relatório, a grande maioria dos jornalistas morreu após o 7 de outubro de 2023, durante o genocídio de Israel na Palestina, o que especialistas entendem ser indiscriminado ou um alvo direto de jornalistas palestinos. A maioria dos 86 mortos pelas IDF eram “palestinos reportando de Gaza”, afirmou a ONG.

Em agosto passado, a imprensa internacional repercutiu amplamente a morte do jornalista Anas Al-Sharif, da emissora catari Al Jazeera, em um ataque aéreo israelense que atingiu diretamente uma tenda de mídia em frente ao Hospital Al-Shifa. A ofensiva ocorreu após uma série de acusações infundadas feitas por Israel, incluindo pelo porta-voz das IDF, Avichay Aderee, de que Al-Sharif era supostamente um agente do Hamas, grupo de resistência considerado pelo regime sionista como “terrorista”. 

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Antes de seu assassinato, o CPJ emitiu uma declaração pedindo sua proteção e enfatizando que as alegações das IDF não eram comprovadas. As forças israelenses também incriminaram outros jornalistas como “terroristas”, incluindo outros funcionários da Al Jazeera que logo foram assassinados: Hamza Al Dahdouh, Ismail Al Ghoul, Rami Al Refee e Hossam Shabat.

“O CPJ classifica esses casos como assassinato”, afirmou a ONG.

Ao jornal israelense Haaretz, o diretor de programas do comitê, Carlos Martínez de la Serna, disse que a conclusão do estudo indica um ambiente crescente de impunidade para aqueles que miram na imprensa, e em parte se atribui à contínua proibição israelense à atuação da mídia estrangeira em Gaza. Além disso, uma tendência crescente do uso de tecnologia para matar jornalistas. 

O relatório aponta para o uso crescente de drones por parte das IDF, identificando 39 casos do tipo, sendo 28 pelo Exército israelense em Gaza e cinco pelas Forças Paramilitares de Apoio Rápido no Sudão, e um por um suposto ataque turco no Iraque.

“Há uma necessidade urgente de acesso independente, e nenhuma situação excepcional justifica essa proibição, especialmente agora durante o cessar-fogo”, disse de la Serna.

Governo de Israel matou mais jornalistas do que qualquer outro país em 2025
Mohamed Hinnawi/ UNRWA – Wikimedia Commons

Um incidente notável mencionado pelo documento é o ataque ao Hospital Nasser, no sul de Gaza, que matou pelo menos 20 pessoas, incluindo profissionais médicos e jornalistas. Na ocasião, as IDF dispararam um drone militar contra uma varanda do hospital localizado em Khan Younis, após mirar no que alegou ser uma “câmera do Hamas”.

Na realidade, o equipamento pertencia ao cinegrafista da agência Reuters, Hussam al-Masri. E enquanto a equipe médica tentava socorrer os feridos do ataque inicial, um tanque israelense disparou na mesma área.

O episódio deixou cinco jornalistas mortos: Mariam Dagga, Moaz Abu Taha, Al-Masri, Mohammad Salama e Ahmed Abu Aziz. Os profissionais trabalhavam para veículos como Associated Press, Reuters e Al Jazeera. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu chamou o incidente de “trágico acidente” e disse que “lamenta profundamente”.

O número de mortos na Palestina contribuiu para mais de três quartos das mortes totais da imprensa em 2025, em contextos de conflito. Na Ucrânia, quatro jornalistas foram mortos por drones militares russos. Em 2022, foram 15. Já no México, o CPJ registrou pelo menos seis jornalistas mortos no ano passado. Nas Filipinas, três jornalistas foram mortos. 

Em fevereiro, o comitê também divulgou um relatório detalhando abusos e torturas sistemáticos contra jornalistas palestinos mantidos em prisões israelenses desde 7 de outubro. O órgão ouviu 59 vítimas, e informou que elas foram submetidas a choques elétricos, enforcamento, negligência médica, abuso sexual e agressões severas.