Quarta-feira, 7 de outubro de 2026
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Em um terraço escuro em Tel Aviv, na capital de Israel, oficiais da inteligência do país, de forma anônima, contam como ajudaram a desenvolver uma ferramenta de mapeamento por IA que rastreava sinais de celular e recomendava prédios residenciais em Gaza como alvos de bombardeio. “Eles vão me colocar na prisão pelo o que vou expor”, disse um deles.

Todos os testemunhos fazem parte do documentário Naza, dirigido pelos jornalistas investigativos e cineastas israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham e que estreia nesta quinta-feira (01/10) no Brasil. A obra refuta qualquer tipo de negação sobre o genocídio perpetrado pelo governo de extrema direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

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Produzido pelo jornal britânico Guardian e JW Films, ao longo de 80 minutos, os oficiais, que tiveram suas vozes alteradas por inteligência artificial para dificultar a identificação dos agentes falam sobre a utilização de IA para matar palestinos. Em um determinado momento, um oficial afirma que “quem a gente decide matar era considerado terrorista”. Em outro, um dos entrevistados descreveu as ações como “incrivelmente divertidas”, declarando que era como jogar um “videogame”.

A obra é o resultado de uma investigação de quase três anos sobre a guerra genocida de Israel contra Gaza, e a apuração é respaldada por detalhes ao descreverem as tecnologias capazes de monitorar prédios por semanas, ouvir choros de bebês e outras vozes.

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Os 24 militares confirmam que sabiam da presença de um grande número de civis e, ainda assim, autorizaram ataques que mataram dezenas de pessoas por um único alvo, quase sempre acusado de ser um combatente de baixa patente do Hamas. Naza mostra que a morte de um palestino nunca é acidental para o Estado de Israel, mas sempre planejada.

A provocação do título refere-se a uma sigla em hebraico para “Nezek Agavi”, que significa “dano colateral”. Trata-se de um termo utilizado pelo serviço de inteligência para indicar quantos civis se espera que morram em um ataque aéreo em Gaza.

“Tem diferença entre criança e adulto?”, questiona Abraham, que recebe um “não” como resposta. “Um Naza é igual a uma pessoa?”. “Sim”, responde um dos militares. Em outro trecho, um oficial afirma que “Gaza virou uma fábrica de alvos”.

Indiretamente, alguns admitem que são responsáveis por milhares de mortes, mas nunca se manifestaram. “Tudo o que posso dizer é que estão cumprindo uma missão”, tenta justificar um deles. Outro declara que “meu papel é técnico”. “Sou apenas uma pequena engrenagem”, diz um terceiro.

Um dos sistemas de IA apresentados no documentário é o Lavender, que, segundo os oficiais anônimos, era usado para identificar alvos de assassinato. Israel supervisiona um sistema de vigilância em massa em Gaza, monitorando ligações telefônicas, movimentos e interações das pessoas. Segundo os entrevistados, esse software usa esses dados para decidir quem assassinar, e acredita-se que a taxa de erro seja de até 10%. Segundo outro entrevistado, o ataque foi aprovado mesmo sabendo-se que até 500 civis poderiam ser mortos.

“Primeiro bombardeia o prédio e depois verifica se há algum membro do Hamas”, disse um. Outro explica que eles sabem quando é uma casa familiar e que não há fabricação de armas. “Se eu lanço uma bomba e só há feridos, eu lanço outra”.

Filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, o filme revela em detalhes os sistemas por trás do assassinato em massa, calculado, de civis palestinos em Gaza por Israel.
Filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, o filme revela em detalhes os sistemas por trás do assassinato em massa, calculado, de civis palestinos em Gaza por Israel
Foto: Divulgação

Desde 7 de outubro de 2023, o Exército de Israel realiza ataques diários contra a Faixa de Gaza, ao menos 74.023 palestinos foram mortos, em sua maioria mulheres e crianças, e ferindo outros 175.980.

“Destruir casa somente por destruir era uma rotina”, disse um oficial. Outro deseja “boa sorte” para os palestinos que não conseguem evacuar, seja por medo ou por alguma deficiência que dificulta um deslocamento forçado.

Apesar de um cessar-fogo estar em vigor desde 11 de outubro de 2025, a ofensiva continua: Tel Aviv matou 1.422 palestinos e feriu outros 4.996 nesse período. Os corpos de 834 palestinos mortos foram recuperados durante este um ano.

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“Estratégia deliberada. Atos homicidas e políticos baseados na total desumanização dos palestinos. Os oficiais da inteligência israelense com quem conversamos nos explicaram como esse massacre é sistêmico”, disse Abraham ao receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. O filme quebrou o recorde de mais longa ovação do evento, com 25 minutos de palmas ininterruptas, superando A Voz de Hind Rajab, filme sobre a morte de Hind Rajab, uma garota de seis anos de idade que foi alvo ao tentar fugir junto à sua família.

Após os militares relatarem como utilizam a Inteligência Artificial, entre outros softwares, para bombardear prédios, o documentário termina com um pai palestino em busca do seu filho mais novo, no meio dos escombros. De acordo com os dados do Ministério da Saúde de Gaza, pelo menos 10.000 pessoas estão desaparecidas, presumivelmente mortas sob os escombros de suas casas.

O cineasta israelense Yuval Abraham, que codirigiu o documentário, anunciou em sua conta no X que a obra será disponibilizada gratuitamente a partir de novembro no site do Guardian. “Sei que existe uma enorme demanda para ver o filme e espero que, desta forma, todos possam vê-lo em breve: seja nos cinemas ou online, dentro de algumas semanas”, disse.

“Fizemos o filme para provocar uma discussão pública sobre as ações do governo [israelense] em Gaza, o assassinato de mais de 73.000 pessoas, a maioria civis, a normalização de uma guerra de extermínio, da noção de que ‘não há inocentes'”, acrescentou.

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