‘Placa era protesto contra agressão no Irã e genocídio em Gaza’, diz dono de bar multado no Rio
Thiago Braga Vieira afirma que Bar Partisan, na Lapa, não discrimina clientes e promove debates sobre lutas contra a opressão
O Bar Partisan, localizado na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, foi multado em R$ 9.520 pelo Procon Carioca no sábado (04/04) após instalar, do lado exterior do estabelecimento, uma placa em inglês dizendo que “cidadãos dos Estados Unidos e de Israel não são bem-vindos”. O órgão justificou que, nas conformidades do Código de Defesa do Consumidor, é proibido “qualquer forma de recusa de atendimento sem justificativa legítima, bem como práticas que coloquem o consumidor em situação de constrangimento ou discriminação”.
A Opera Mundi, Thiago Braga Vieira, proprietário do bar, ressaltou que o “Complexo Partisan/Pavunão da Lapa” se trata de um aparelho político dedicado ao fortalecimento de pautas progressistas, por onde se realizam plenárias, debates, palestras e atividades da esquerda organizada. Explica também que o espaço serve um leque de movimentos, coletivos e partidos, e que as decorações instaladas no local fazem referência da luta dos povos contra a opressão.
“Bandeiras, camisetas e broches com a estampa da Palestina estão espalhados por toda parte. Não é um ambiente que agradaria aos sionistas”, explica. “Nunca nos recusamos a atender ninguém. Não houve tal fato. A placa é uma manifestação artística com tema político, como todo o resto da decoração. Expressão simbólica do repúdio à agressão militar ao Irã e ao genocídio dos palestinos em Gaza”.
Em nota publicada pelas redes sociais, o Bar Partisan afirmou que “o episódio em questão deve ser compreendido exclusivamente como uma manifestação de ordem política e simbólica e desprovida de qualquer força normativa ou impedimento físico, de crítica a políticas de guerra e não deve ser vista como prática discriminatória ou de restrição de acesso”.

Placa no lado exterior do Bar Partisan na Lapa, no Rio de Janeiro, expressa: ‘Cidadãos dos Estados unidos e de Israel não são bem-vindos’
Redes sociais/Bar Partisan
“Trata-se de expressão de protesto diante das graves violações de direitos humanos e do direito internacional atribuídas a potências nucleares e a seus aliados, em diferentes contextos no cenário internacional”, explica o comunicado. “A ação simbólica do Partisan Bar reflete a indignação diante da situação enfrentada por diferentes povos do Oriente Médio, incluindo palestinos, libaneses e iranianos, impactados por ações militares, ocupações, bombardeios e outras formas de violência que atingem diretamente populações civis”.
O estabelecimento também expressa repúdio a “qualquer forma de xenofobia, racismo ou antissemitismo” e que suas manifestações críticas se dirigem a práticas e políticas estatais, “não a povos, religiões ou identidades”. “Essa distinção é central e inegociável”, reitera.
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Da mesma forma, parte da comunidade judaica também se posicionou contra as penalidades impostas pelo Procon. A Opera Mundi, a Articulação Judaica de Esquerda (AJE) afirmou que o caso se associa à tentativa mais ampla de criminalizar pessoas e manifestações críticas de Israel em meio aos três anos de genocídio. O órgão explica que se trata de um “truque que o lobby israelense tem utilizado no mundo todo, com efeitos desastrosos pra comunidade judaica”.
“Alguns de nós conhecem e já frequentaram esse bar normalmente. Não existe nenhum registro de que alguém tenha jamais sido impedido de entrar lá, muito menos em função de origem étnica ou nacionalidade”, reforçou.
De acordo com a AJE, “a percepção cada vez maior entre o senso comum de que existem leis excepcionais e atípicas para proteger Israel tem aumentado o antissemitismo”. A associação reiterou que “a ideia que antissionismo é o antissemitismo é absurda”, reforçando que o sionismo é uma corrente política, não podendo ser confundido com credo ou etnia.
“E também não é garantia de autodeterminação, pois não existe autodeterminação com práticas colonialista. Sionismo foi criado no contexto dos nacionalismos conservadores do século XIX”, acrescentou.
Ao noticiar o caso, no sábado, o jornal O Globo intitulou a matéria “Dois casos de intolerância contra judeus são registrados no Rio durante o Pessach” e a divulgou em suas redes sociais. Pela plataforma X, a AJE rebateu a publicação denunciando a tentativa do veículo de “blindar Israel de críticas” por meio do uso da comunidade judaica.
“Parem com esse jogo sujo de confundir a nossa comunidade judaica com Israel. Somos judeus e JAMAIS tivemos problema para frequentar esse bar. É nojento como vocês tentam blindar Israel de críticas usando a nossa identidade”, escreveu.
Parem com esse jogo sujo de confundir a nossa comunidade judaica com Israel. Somos judeus e JAMAIS tivemos problema para frequentar esse bar. É nojento como vocês tentam blindar Israel de críticas usando a nossa identidade.https://t.co/Z1BqrGeAGU
— Articulação Judaica de Esquerda (@AJEOficial) April 5, 2026
Apesar da multa, à reportagem, Vieira reafirmou o compromisso de continuar denunciando “a agressão ilegal dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a Palestina e demais povos do Oriente Médio”. No próximo sábado (11/04), o estabelecimento sediará um ato da esquerda unificada contra o sionismo e o imperialismo. “E de quebra repudiar as novas iniciativas legislativas que buscam censurar as vozes contra o genocidio. O lobby a favor da guerra não pode silenciar a verdade”, destacou o proprietário.
Pelas redes sociais, o Bar Partisan também abriu uma vaquinha para cobrir a penalidade imposta pelo Procon, os custos judiciais e o ciclo de eventos de pautas anti-imperialistas a serem abordadas no local.
PARTISAN RESISTE CONTRA A CENSURA
Vaquinha para pagar multa, custos judiciais e ciclo de eventos sobre Oriente Médio e Imperialismo.
Chave Pix e e-mail para contato: partisandalapa@gmail.com pic.twitter.com/7CqyTIjbMM
— Partisan da Lapa (@Partisandalapa) April 6, 2026
























