Alvo de protestos e boicote, seminário do Itamaraty sobre antissemitismo expõe divisão entre grupos judaicos
Manifestação contra presença de lideranças sionistas e ausência de ativistas pró-Palestina ocorreram durante evento em Brasília
O seminário “Enfrentamento ao antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional”, realizado nesta quarta-feira (16/04) no prédio do Itamaraty, em Brasília, teve como um de seus pontos centrais o debate sobre a definição do que é antissemitismo.
O evento foi marcado pela presença majoritária de lideranças sionistas entre os convidados, incluindo os principais dirigentes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), com a participação de seu presidente, Cláudio Lottenberg. Já as entidades Árabes e Judeus pela Democracia, Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação denunciaram que foram impedidas de se pronunciar durante o seminário e optaram por não participar.
Alguns palestrantes defenderam que o governo brasileiro adote a definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), como o professor George Legmann, sobrevivente do Holocausto e que discursou na abertura do seminário; Sofia Débora Levy, representante da Stand With Us; e o próprio Lottenberg.
A definição da IHRA ganhou força recente no debate público com o projeto de lei apresentado pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que busca caracterizar o antissemitismo a partir da definição da aliança internacional. Nessa formulação, críticas ao Estado de Israel podem ser equiparadas a antissemitismo. O governo Lula se retirou da posição de membro-observador da IHRA em 2025, pouco antes de se juntar formalmente à ação da África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça.
Para a embaixadora e uma das organizadoras do seminário, Maria Laura, o Brasil “não quer fazer parte de nenhum grupo restrito”, o que motivou a saída da aliança. “Enquanto observadores, o exercício era interessante. A partir do momento em que era preciso virar sócio, a gente não queria”, disse em seu discurso.
A Opera Mundi Maria Laura afirmou que o país já possui legislação que equipara o antissemitismo ao racismo, o que tornaria uma nova lei ou definição desnecessária. “O que não se pode é tentar confundir as coisas, fazendo parecer que antissemitismo é quem nega o Estado de Israel”, disse.
Nesse sentido, segundo a embaixadora, a ideia do encontro foi avançar no entendimento sobre o tema no âmbito do governo, de onde políticas públicas podem ser desenvolvidas. Em sua fala no seminário, ela afirmou que “crimes de guerra de Israel alimentam o antissemitismo no mundo”.
“Os crimes de guerra que vêm sendo cometidos pelo governo de Israel já resultaram na morte de milhares de civis inocentes, inclusive crianças, na Palestina, no Líbano e no Irã, produzindo reações que alimentam o antissemitismo em diferentes regiões do mundo”.
Uma das vozes dissidentes presentes, a professora da USP Arlene Clemesha afirmou que a criação de uma política de combate ao antissemitismo deve ocorrer “em conjunto com políticas de combate ao preconceito antiárabe e à islamofobia”.

Protestos em repúdio ao seminário ocorreram antes e durante o evento em Brasília
“Falta ser instituído o dia de lembrança da Nakba (‘catástrofe’, em árabe). […] As maiores chances de que a memória do Holocausto seja honrada estão na prevenção de novos genocídios”, disse.
Clemesha afirmou ainda que tratar o Holocausto como algo “excepcional” foi importante para o Ocidente “preservar a autoimagem como portador exclusivo da democratização, da secularização e do progresso”. “No entanto, para honrar essa memória, é necessário reconhecer que o Holocausto não constitui uma anomalia na história”, afirmou, acrescentando que o perigo da “excepcionalização” é sua “instrumentalização”, como feito pelo Estado de Israel, “que busca se blindar de críticas diante dos crescentes ataques à população palestina confinada na Faixa de Gaza”.
Para Benjamin Seroussi, da Casa do Povo, não há evidência de que definições sobre o que é antissemitismo — como a da IHRA ou outras, como as da Jewish Democratic Initiative e do Projeto Nexus — combatam efetivamente o preconceito.
Seroussi citou como exemplo a Alemanha, que adota a definição da IHRA e tem, como consequência, políticas “desastrosas”. “Vai contra a liberdade de expressão de judeus e judeus israelenses, além de muçulmanos. […] Precisamos de mediação, educação, prevenção e processos restaurativos para evitar a instrumentalização do antissemitismo”, afirmou.
Brasil na IHRA
As falas de Clemesha e Seroussi foram na contramão da maioria dos presentes. O professor George Legmann defendeu a “urgência fundamental” do retorno do Brasil como “membro pleno” da aliança internacional.
Segundo o professor, a “definição prática da IHRA é hoje a mais aceita e abrangente, dentro e fora da comunidade judaica, justamente porque oferece um instrumento prático, aplicável em contextos educacionais, institucionais e de monitoramento, sem caráter jurídico, mas com enorme valor orientador”.
Assim como Legmann, Sofia Débora Levy e Cláudio Lottenberg também defenderam o retorno à aliança como forma de “alinhamento internacional no combate ao antissemitismo”.
Por sua vez, o professor Michel Gherman (UFRJ) afirmou que um dos problemas das definições da IHRA é que funcionam “como um quadro na parede”, por não darem conta “do filme que são as contradições históricas”.
“Precisamos de uma definição sobre antissemitismo que dialogue com um país que luta contra o racismo, que enfrenta a morte de pessoas negras no cotidiano e que utilize o debate sobre antissemitismo para colaborar com essa luta — e não disputar com ela”.

Embaixadora Maria Laura e a professora Arlene Clemesha no seminário sobre antissemitismo no Itamaraty
Mateus Oliveira/MRE
Boicote e manifestação contra o seminário
O seminário no Itamaraty foi marcado por protestos antes e durante o evento. A manifestação ocorreu em oposição à presença de lideranças sionistas nas mesas de debate. Um grupo de manifestantes exibiu bandeiras da Palestina e uma faixa com a frase “o sionismo é o mesmo que nazismo”.
“A realização de um seminário dentro do Itamaraty que sustenta uma postura denunciada em todo o mundo — diante do genocídio contra o povo palestino em Gaza e dos crimes cometidos por Israel — mostra o equívoco profundo do governo brasileiro”, afirmou o manifestante Pedro Batista, do Comitê Anti-imperialista Abreu e Lima.
Já os coletivos Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação, embora convidados, decidiram boicotar o evento.
Débora Abramant, da Articulação Judaica de Esquerda, afirmou à reportagem que não havia judeus ou judias não sionistas entre os participantes. Segundo ela, embora a embaixadora Maria Laura tenha demonstrado abertura para incluir uma fala de representantes desses grupos, a proposta foi vetada pela assessora da Presidência, Clara Ant.
Em nota conjunta, as organizações afirmaram que tiveram o “direito à fala boicotado pela coordenação do evento, mesmo integrando o grupo de trabalho sobre antissemitismo instituído pelo Governo Federal”.
As entidades relataram ainda que, em reunião realizada na terça-feira (14/04), a proposta de garantir ao menos dez minutos de fala foi “desconsiderada pela coordenação geral, por meio de Clara Ant”.
O seminário fez parte das comemorações do Dia Nacional da Lembrança do Holocausto e foi organizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em parceria com a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, no âmbito do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do Governo Federal.
























