Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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O governo de Israel está financiando uma campanha digital destinada a influenciar as respostas produzidas por ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Perplexity, Claude e Gemini. A informação é do britânico The Guardian.

Em reportagem publicada nesta quarta-feira (26/08), o jornal afirma que um think tank falso, intitulado Hanover Institute for Public Policy (Instituto Hanover de Políticas Públicas), publicou mais de meio milhão de palavras, em apenas nove dias, com mensagens pró-Israel para serem encontradas e utilizadas por chatbots de IA.

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The Guardian investigou o instituto e afirma que ele não existe como entidade jurídica em nenhuma jurisdição, não possui endereço físico, tampouco funcionários identificados ou autores assinando seus relatórios.

O site é operado pela nova-iorquina Piro Inc. e foi registrado junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos como material produzido para o governo israelense, conforme determina a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA).

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‘Não faz sentido’

De acordo com a reportagem, entre 6 e 14 de agosto, o site publicou 124 relatórios, somando mais de 560 mil palavras, uma média de aproximadamente 4,5 mil palavras por texto. Apenas nos dias 12 e 13 de agosto foram publicados 73 relatórios, com quase 354 mil palavras.

Das 124 manchetes analisadas pelo jornal, 123 começam com perguntas semelhantes às que usuários fariam a ferramentas de inteligência artificial, como “o antissionismo é antissemitismo?”, “Israel expulsou palestinos de suas terras?” e “Israel está cometendo genocídio em Gaza?”.

Entrevistado pelo jornal britânico, o pesquisador Nick Cleveland-Stout, do Quincy Institute, afirmou que os conteúdos são formulados de maneira a amenizar críticas a Israel.

“Ele consegue se passar por algo muito acadêmico – o design do site, os logotipos, tudo parece ótimo. Mas quanto mais você lê, mais percebe que muita coisa não faz sentido”, avaliou.

A investigação também constatou que um estudo de 2022 sobre comentários antissemitas em páginas de veículos de comunicação europeus no Facebook foi citado 454 vezes em 88 dos 124 relatórios do instituto.

A referência aparece inclusive em conteúdos sobre temas distintos, como o número de mortos em Gaza, as expulsões de palestinos em 1948, o bloqueio de Gaza ou a influência do lobby pró-Israel AIPAC na cobertura da imprensa norte-americana, aponta a reportagem.

Ministério das Relações Exteriores de Israel
Almog / Wikimedia Commons

IA

A reportagem também identifica indícios de que o material tenha sido construído especificamente para aumentar sua presença nas respostas produzidas por inteligências artificiais.

Cleveland-Stout explica que existem duas formas principais de influenciar os chatbots: publicar conteúdos esperando que sejam encontrados e citados pelas ferramentas ou, fazer com que o material seja incorporado a grandes repositórios usados no treinamento dos modelos de IA, como o Common Crawl.

A reportagem informa que, inicialmente, o site utilizava um arquivo associado ao padrão Res, “uma plataforma de conteúdo nativa de IA que ajuda equipes B2B a serem citadas pelo ChatGPT, Perplexity, Claude e Gemini”. Depois, esse arquivo foi substituído por uma versão personalizada escrita para leitores da máquina.

O fundador da Res, Hai Tran, também se registrou no Departamento de Justiça dos EUA como subcontratado da Piro na conta israelense, descrevendo-se como “estrategista digital”.

Segundo a reportagem, o falso think tank faz parte de um esforço mais amplo do governo israelense, canalizado por terceiros, incluindo o grupo de publicidade europeu Havas Media, para programar chatbots a fim de defender os argumentos de Israel.

A Piro possui contrato de US$ 1 milhão para duas ordens de serviço, e atua, juntamente com a Clock Tower X, como subcontratada da Havas Media Germany.

Resposta de Israel

A reportagem destaca que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, destinou US$ 181,6 milhões à diplomacia pública internacional ao assumir o cargo, além de outros US$ 666,3 milhões previstos para 2026 e 2027.

Ao jornal, a chancelaria israelense afirmou que o Estado não realiza “operações de influência” nos Estados Unidos e que segue rigorosamente a legislação norte-americana.

Já Daniel Rosenberg, cofundador da Piro, declarou que a empresa foi contratada para “inserir fatos precisos e comprovados no registro público” e combater  as desinformações sobre o país.