Após dinossauros, Terra vive sexta extinção em massa de espécies

Grupo de especialistas trabalhou durante três anos em um relatório de 1.800 páginas; documento deve se tornar a referência científica sobre os seres vivos que habitam o planeta

Lúcia Müzell

RFI RFI

Paris (França)

Paris é palco nesta semana de uma conferência mundial das Nações Unidas sobre a biodiversidade, que vai divulgar na próxima semana um aguardado relatório sobre o estado da destruição da natureza. Cientistas e diplomatas de mais de 130 países elaboram a primeira avaliação mundial dos ecossistemas em 15 anos.

Uma das informações alarmantes que constam no rascunho do documento é que a Terra vive a sexta extinção em massa de espécies, no espaço de apenas algumas décadas. A última vez que isso tinha ocorrido foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros desapareceram.

O grupo de especialistas trabalhou durante três anos em um relatório de 1.800 páginas. O documento deve se tornar a referência científica sobre os seres vivos que habitam o planeta.

Um dos pontos a serem esclarecidos é o papel humano no desaparecimento de espécies. Na abertura do evento, na segunda-feira (29/04), o presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), Robert Watson, destacou que a destruição da natureza ameaça o bem-estar do homem "ao menos tanto quanto” as mudanças climáticas. Por isso, ele defende que o tema merece mais atenção da sociedade.

O relatório vai apresentar uma série de recomendações aos governos e entidades internacionais, baseadas em seis cenários possíveis nos próximos 30 anos, conforme uma maior ou menor atuação dos países para combater o problema. Paula Drummond de Castro, bióloga que representa a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPES), prefere ver o copo meio cheio.

“Eu sou uma pessoa otimista. A gente precisa ter uma mudança e eu acredito que a gente está caminhando, a passos lentos”, comenta. “Talvez eu esteja contaminada pelos ares franceses. É muito inspirador ver um governo que acredita em compatibilizar o meio ambiente e o desenvolvimento.”

Agricultura e gestão das cidades

No Brasil, os ecossistemas são ameaçados principalmente pela expansão da agricultura e a gestão das cidades. Para protegê-los, as políticas de desenvolvimento sustentável deveriam ser uma prioridade – no entanto, sob o governo de Jair Bolsonaro, essa preocupação parece estar cada vez mais em segundo plano.

“Eu acho que não está tendo o protagonismo necessário a essa agenda. O desenvolvimento deveria ser repensado, colocando o vetor da conservação ambiental não só na agricultura, mas em todas as formas de desenvolvimento”, argumenta a pesquisadora.

O uso indiscriminado de agrotóxicos, por exemplo, contribui para a destruição da biodiversidade e é apontado como uma das principais causas para o desaparecimento de pássaros e insetos polinizadores, como as abelhas. Há mais de 10 anos, o Brasil lidera o ranking dos países que mais usam produtos químicos na agricultura no mundo.

O país caminha para se consolidar ainda mais nessa posição: em dois meses de governo, Bolsonaro liberou a utilização de mais 74 produtos, além do recorde de 450 que já eram autorizados no governo de Michel de Temer. Na contramão, a União Europeia avalia a proibição do glifosato, o agrotóxico mais usado na agricultura.

“A plataforma brasileira lançou um relatório temático em polinização e produção de alimentos, que aponta os riscos do uso intensivo e errado dos agrotóxicos, afinal não é só a quantidade, mas também a forma como eles são aplicados que pode ser prejudicial. Mostramos tudo isso, mas parece que não ecoou muito junto aos tomadores de decisões”, lamenta Paula.

A bióloga ressalta que setores do agronegócio brasileiro tentam se adaptar à uma agricultura mais sustentável – foi a própria bancada agrícola no Congresso que brigou para a manutenção do Ministério do Meio Ambiente, que por pouco não foi extinto. “Não podemos desistir. O cenário está um pouco desfavorável, mas não pode deixar apagar.”

Extinções tendem a se acelerar

Na conferência do IPBES, que acontece na sede da Unesco, na capital francesa, o Brasil é representado por um jovem diplomata do Ministério das Relações Exteriores, além dos pesquisadores e cientistas participantes. O chanceler Ernesto Araújo não acredita nas mudanças climáticas. 

O relatório da plataforma da ONU será publicado em 6 de maio. Um resumo preliminar do documento obtido pela agência AFP indica que quase nenhuma das 20 metas previamente estabelecidas para 2020 será alcançada até 2050, como se esperava.

O texto menciona que um quarto das 100 mil espécies avaliadas já estão sob ameaça de extinção, devido à agricultura, a pesca, a caça ou às mudanças climáticas. A extinção, escrevem os especialistas no rascunho, tende a se acelerar:  entre 500 mil e 1 milhão de espécies devem ficar em risco, "muitas já nas próximas décadas".

Reprodução/ISSD
Grupo de especialistas trabalhou durante três anos em um relatório de 1.800 páginas

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