Rede sueca de supermercado contesta reação do governo brasileiro e quer ampliar boicote a produtos

Houve uma troca pública de correspondências entre a missão diplomática e o presidente do grupo sueco - que também anunciou a criação de um site para ampliar sua campanha e incentivar outras redes de alimentação a se juntarem ao boicote

Claudia Wallin

RFI RFI

Estocolmo (Suécia)

A decisão da rede sueca de supermercados Paradiset de boicotar produtos brasileiros, em consequência da liberação recorde de novos agrotóxicos pelo governo brasileiro, provocou a reação da embaixada do Brasil na Suécia.

Houve uma troca pública de correspondências entre a missão diplomática e o presidente do grupo sueco - que também anunciou a criação de um site para ampliar sua campanha e incentivar outras redes de alimentação a se juntarem ao boicote.

Em entrevista à RFI nesta quarta-feira (12/06), o presidente e fundador da Paradiset, Johannes Cullberg, afirmou ainda que a Coop - uma das maiores redes de supermercados da Suécia - estaria considerando aderir ao boicote contra os produtos do Brasil. Nenhuma decisão por parte da Coop foi anunciada oficialmente.

Diante da carta pública publicada por Cullberg nesta quarta-feira em resposta à manifestação da missão diplomática brasileira, a embaixada do Brasil em Estocolmo afirmou que “não há mais nada a acrescentar”:

“A resposta é institucional, e já foi dada ao interlocutor. Não queremos polemizar. Apenas apresentamos argumentações para esclarecer o tema”, disse à RFI um representante da embaixada.

Governo e exportadores surpresos

O boicote da rede Paradiset aos produtos brasileiros foi anunciado no último dia 5. Em carta aberta dirigida na segunda-feira (10/06) ao presidente da Paradiset, a embaixada do Brasil afirma que a decisão sobre o boicote surpreendeu o governo brasileiro e também muitos exportadores do país.

Na carta, a embaixada aponta que, apesar de ser uma potência agrícola, o Brasil não é o maior usuário de pesticidas. “O país ocupa o quinto ou o sétimo lugar no ranking mundial, segundo parâmetros aplicáveis em estudos globais sobre o uso de pesticidas”, diz o documento.

“É preocupante que, embora muitos outros países tenham uma taxa mais alta de uso de pesticidas, apenas o Brasil tenha sido mencionado nos meios de comunicação. Nesse sentido, como você sabe, o noticiário jornalístico é em muitos casos baseado em opiniões marcadas por agendas políticas e de outra natureza, e acreditamos que tais fontes de informação não são um substituto imparcial de estudos e dados técnicos. Levar em consideração apenas opiniões generalizadas para apoiar conclusões pode dar origem a decisões injustas, uma vez que elas não refletem todos os dados disponíveis e confiáveis, e nem as situações reais”, afirma a carta da embaixada.

"Possível primeiro lugar em 2019"

Em sua resposta pública, divulgada nesta quarta-feira, o presidente do grupo Paradiset agradece à embaixada por pontuar que o Brasil não é ‘o’ maior usuário de agrotóxicos do mundo, e destaca:

“Eu saúdo vocês pela quinta posição (do Brasil) em 2017 no ranking dos países que mais utilizam agrotóxicos, mas ao que parece o país poderá na verdade ganhar o primeiro lugar em 2019”, escreve Johannes Cullberg.

O presidente da Paradiset anunciou ainda a criação de um site para ampliar o boicote aos produtos brasileiros. Com a hashtag #BoycottBrazilianFood, o site pretende incentivar outras redes de supermercado a se juntarem à campanha iniciada pelo fundador da rede sueca.

Apelo por boicote

“Como pai de três filhos e fundador da rede Paradiset de produtos naturais e orgânicos, decidi boicotar os produtos brasileiros e retirá-los de minhas lojas. Encorajo outras redes de supermercados e compradores de alimentos a parar de comprar produtos do Brasil, até que haja uma mudança na forma de produção de alimentos e que o rápido desmatamento da floresta amazônica seja interrompido”, diz a mensagem de Johannes Cullberg no novo site.

Até agora, a plataforma obteve apoio de quase 900 pessoas.

“Criamos este site para fazer um alerta ambiental ao senhor Bolsonaro, e as pessoas podem apoiar nossa campanha simplesmente apertando um botão de ‘concordo’”, disse Cullberg à RFI.

“Será difícil convencer as grandes corporações a aderir ao boicote já, mas penso que o caminho é atuar de baixo para cima, como fizeram pessoas como (a ativista ambiental sueca) Greta Thunberg”, acrescentou ele.

Reprodução
Johannes Cullberg, presidente e fundador da rede Paradiset, criou um site para ampliar o boicote aos produtos brasileiros.

Riscos à saúde e ao meio ambiente

Do total de 197 agrotóxicos já autorizados este ano pelo ministério da Agricultura, 26% são proibidos na União Europeia, em razão dos riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

Maior rede de produtos orgânicos da Escandinávia, e vencedora em 2018 do prêmio de Exemplo de Sustentabilidade do setor de alimentos da Suécia, a Paradiset retirou de suas prateleiras quatro diferentes tipos de melão, melancia, papaia, limão, manga, água de côco e duas marcas de café, além de uma barra de chocolate que contém 76% de cacau brasileiro em sua composição.

Em sua carta ao presidente da Paradiset, a embaixada do Brasil aponta que, apesar de ser o segundo maior produtor de alimentos do mundo, o Brasil apresenta uma taxa de uso de agrotóxicos inferior à de outras economias agrícolas.

“Há estatísticas que você pode encontrar na internet, como por exemplo os dados oficiais da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação”, indica o documento, que fornece diversos links sobre dados e estudos relacionados ao Brasil.

Com relação ao número de agrotóxicos recentemente autorizados no Brasil, a carta da embaixada afirma que isso não significa necessariamente que todos os produtos serão usados em larga escala a curto ou médio prazo.

“É o mercado e a eficácia dos produtos pesticidas em controlar pestes e insetos nocivos que irão determinar se eles serão utilizados em larga escala. Portanto, a autorização não significa o uso efetivo, e, mais uma vez, gostaríamos de destacar que há muitos outros países que usam maiores volumes do que o Brasil, mesmo que tenham menor quantidade de pesticidas autorizados. Portanto, não há uma correlação direta entre autorizações e o volume total”, diz a carta.

Ambiente tropical

O documento ressalta ainda que outro fator a ser levado em consideração, a respeito do uso de pesticidas, é o ambiente tropical do Brasil, “onde pragas, insetos, bactérias e fungos existem em maior variedade e em uma escala muito maior de proliferação do que ocorre na Europa e em outras regiões de clima mais ameno”:

“Em países tropicais, claramente, pesticidas devem ser usados em proporção à dimensão dos desafios do ambiente biológico local, de maneira a combater os elementos que ameaçam a produção agrícola. Embora desejável, a produção de alimentos orgânicos e livres de produtos químicos é uma tarefa muito maior e mais desafiadora em determinados climas, e além disso é necessário usar pesticidas na produção em larga escala”, acrescenta a carta.

O texto diz ainda que a agricultura tropical pode produzir mais de uma colheita por ano, o que pode dobrar a quantidade absoluta anual de pesticidas utilizados.

“Também é interessante notar que, em alguns casos, a agricultura brasileira é capaz de produzir até três colheitas por ano. Assim, enquanto um agricultor de um país de clima mais ameno usa produtos específicos apenas uma vez por ano, no Brasil, um agricultor necessita investir muito mais em produtos como fertilizantes e pesticidas para cada colheita. Mesmo que os fatores mencionados acima possam ser uma razão para consumir mais pesticidas, o Brasil está longe de ser o maior usuário do mundo”, ressalta a carta da embaixada.

Em sua resposta, Johannes Cullberg explica por que acredita que um boicote aos produtos brasileiros é necessário:

“Os senhores argumentam que o clima tropical do Brasil demanda um uso maciço de agrotóxicos. De acordo com aEuropean Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility (Rede Europeia de Cientistas pela Responsabilidade Social e Ambiental), apenas em 2016, o Brasil registrou 4.208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes provocadas por produtos químicos agrícolas. Na minha opinião, estes números estão longe de serem aceitáveis por qualquer pessoa, disse Cullberg nesta quarta-feira em sua carta aberta à embaixada.

Desmatamento acelerado

“Como se isso não fosse suficiente, a Amazônia perdeu 739 km² de florestas somente em maio de 2019, em consequência do desmatamento agressivo. Isto representa a perda de uma área equivalente a dois campos de futebol por minuto. E estes são dados dos satélites do próprio governo brasileiro. Juntamente com a meta declarada de Bolsonaro de extrair metais preciosos da floresta amazônica através de atividades de mineração, esse continuará a ser o pior desmatamento já visto na história moderna”, acrescentou Cullberg.

O presidente da Paradiset diz que agora, mais do que nunca, é o momento de proteger o planeta, “e não acelerar na direção contrária, como o senhor Bolsonaro está fazendo”.

“Isto é totalmente incompreensível para mim, considerando-se que, como presidente, ele deveria ser um exemplo e o embaixador de todo o país”, escreveu Cullberg na carta aberta.

“Por isso, mesmo que o seu supermercado local escolher não boicotar produtos brasileiros, você pode. Toda ação, mesmo que pequena, faz diferença. Por favor junte-se a mim nesta luta pela sobrevivência de nosso planeta. Nós não teremos uma segunda chance”, concluiu o presidente da Paradiset.

Em anexo à carta endereçada a Johannes Cullberg, a embaixada do Brasil enviou ao fundador da Paradiset informações adicionais do governo brasileiro, assim como estatísticas científicas a respeito do tema.

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