Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

O turismo no Caribe costuma refletir uma imagem de marcada por cenários paradisíacos e vida de luxo. Porém essa impressão é contrastada quando se observa de um prisma mais próximo que o dos navios de cruzeiro e é possível enxergar um estado complexo e sombrio.

As ilhas estão marcadas pelos 400 anos de colonialismo e ainda sofrem com a ameaça existencial da devastação climática, situação que busca ser apagada para atender o mercado.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

A violência fundadora da plantation açucareira em Barbados, território insular descrito pelo historiador Hilary Beckles como o “berço da sociedade escravista britânica”, exemplifica o custo deste sistema. Entre 1640 e 1807, cerca de 387 mil africanos foram traficados para a ilha, tendo suas vidas reguladas por um regime de terror, onde amputações eram comuns e a expectativa de vida era  de 29 anos.

Famílias acumulavam fortunas anuais, equivalentes a centenas de milhares de libras atuais, a política imperial garantia que dois terços do valor da indústria açucareira fluíssem para a Grã- Bretanha. O fluxo enriqueceu comerciantes, consolidando o poder financeiro da metrópole.

Mais lidas

Em 1833, com o fim da escravidão os proprietários dos escravos receberam uma indenização colossal, enquanto os libertos foram negados a terem acesso á terra, sendo condenados a continuar como força de trabalho barata nas mesmas plantações.

Segundo a historiadora e artista, Fiona Compton, o Caribe atual como uma “economia de plantation repaginada”, agora centrada no lazer e no açúcar. Embora o setor turístico seja vendido como motor de desenvolvimento,  sua estrutura reproduz padrões coloniais: a propriedade é majoritariamente estrangeira, de redes hoteleiras a companhias de cruzeiro, e cerca de 80% de cada dólar gasto por turistas deixa a região por meio da repatriação de lucros.

O turismo do Caribe deverá ressignificar as pousadas comunitárias e iniciativas culturais
pixabay

O modelo escancara que terras de povos indígenas e negadas aos descendentes de escravizados são privatizadas e tranformadas em commodities de luxo, enfatizando o que Compton chama de “desapropriação cultural e econômica em tempo real”.

Logo, a pressão sobre ecossistemas frágeis é enorme, sendo que  um único navio produz toneladas de lixo e grandes volumes de esgoto e águas oleosas, enquanto resorts consomem quantidades exorbitantes de água e energia em regiões já marcadas pelo estresse hídrico.

O Caribe é frequentemente prejudicado por esse modelo turístico, é também uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas, apesar de contribuir com apenas 0,3% das emissões históricas de gases de efeito estufa.

A região que  enfrenta frequentes empréstimos feitos para construir portos e aeroportos, ou para reconstruir após desastre consome recursos que equivalem a quantia que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima necessário para o financiamento climático do Caribe.

Diante dessa realidade, o debate sobre essas reparações passa a ser uma necessidade para o futuro da região. Envolvendo perdão ou reestruturação da dívida, financiamento climático,  fortalecimento de modelos econômicos alternativos.

No campo do  turismo, devemos ressignificar as  pousadas comunitárias e iniciativas culturais,  além de exigir que multinacionais paguem impostos adequados e integrem produtores e trabalhadores locais às suas cadeias.

(*) Com informações do The Guardian