Caribe: um turismo ainda marcado pelo colonialismo
Séculos após a escravidão, a ilha segue submetida a desigualdades, exploração estrangeira e vulnerabilidade climática
O turismo no Caribe costuma refletir uma imagem de marcada por cenários paradisíacos e vida de luxo. Porém essa impressão é contrastada quando se observa de um prisma mais próximo que o dos navios de cruzeiro e é possível enxergar um estado complexo e sombrio.
As ilhas estão marcadas pelos 400 anos de colonialismo e ainda sofrem com a ameaça existencial da devastação climática, situação que busca ser apagada para atender o mercado.
A violência fundadora da plantation açucareira em Barbados, território insular descrito pelo historiador Hilary Beckles como o “berço da sociedade escravista britânica”, exemplifica o custo deste sistema. Entre 1640 e 1807, cerca de 387 mil africanos foram traficados para a ilha, tendo suas vidas reguladas por um regime de terror, onde amputações eram comuns e a expectativa de vida era de 29 anos.
Famílias acumulavam fortunas anuais, equivalentes a centenas de milhares de libras atuais, a política imperial garantia que dois terços do valor da indústria açucareira fluíssem para a Grã- Bretanha. O fluxo enriqueceu comerciantes, consolidando o poder financeiro da metrópole.
Em 1833, com o fim da escravidão os proprietários dos escravos receberam uma indenização colossal, enquanto os libertos foram negados a terem acesso á terra, sendo condenados a continuar como força de trabalho barata nas mesmas plantações.
Segundo a historiadora e artista, Fiona Compton, o Caribe atual como uma “economia de plantation repaginada”, agora centrada no lazer e no açúcar. Embora o setor turístico seja vendido como motor de desenvolvimento, sua estrutura reproduz padrões coloniais: a propriedade é majoritariamente estrangeira, de redes hoteleiras a companhias de cruzeiro, e cerca de 80% de cada dólar gasto por turistas deixa a região por meio da repatriação de lucros.

O turismo do Caribe deverá ressignificar as pousadas comunitárias e iniciativas culturais
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O modelo escancara que terras de povos indígenas e negadas aos descendentes de escravizados são privatizadas e tranformadas em commodities de luxo, enfatizando o que Compton chama de “desapropriação cultural e econômica em tempo real”.
Logo, a pressão sobre ecossistemas frágeis é enorme, sendo que um único navio produz toneladas de lixo e grandes volumes de esgoto e águas oleosas, enquanto resorts consomem quantidades exorbitantes de água e energia em regiões já marcadas pelo estresse hídrico.
O Caribe é frequentemente prejudicado por esse modelo turístico, é também uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas, apesar de contribuir com apenas 0,3% das emissões históricas de gases de efeito estufa.
A região que enfrenta frequentes empréstimos feitos para construir portos e aeroportos, ou para reconstruir após desastre consome recursos que equivalem a quantia que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima necessário para o financiamento climático do Caribe.
Diante dessa realidade, o debate sobre essas reparações passa a ser uma necessidade para o futuro da região. Envolvendo perdão ou reestruturação da dívida, financiamento climático, fortalecimento de modelos econômicos alternativos.
No campo do turismo, devemos ressignificar as pousadas comunitárias e iniciativas culturais, além de exigir que multinacionais paguem impostos adequados e integrem produtores e trabalhadores locais às suas cadeias.
(*) Com informações do The Guardian























