Libertação: o jornal da luta clandestina da AP (Ação Popular) contra a ditadura

Publicação saiu mensalmente durante sete anos e nunca foi apreendida pelo regime militar; distribuição seguia padrões rígidos impostos pela clandestinidade

Lucas Estanislau

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Atualizada em 20/02/2018 às 14:00

A vida na clandestinidade durante a ditadura civil-militar brasileira era cheia de privações e compromissos. Militantes de várias organizações se escondiam das forças de repressão e se ocupavam com atividades e estratégias para organizar a resistência. Jornais eram impressos em mimeógrafos, em gráficas clandestinas, em endereços anônimos e distribuídos em esquemas cuidadosamente elaborados para escapar dos olhos da repressão. Foi assim que surgiu, em 1968, o jornal Libertação, órgão oficial de comunicação da organização Ação Popular (AP), que se propunha a combater o regime com matérias que denunciavam seu caráter opressor e prejudicial ao Brasil. 

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Criada em 1962, a Ação Popular surge da união entre duas organizações católicas do movimento estudantil, a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC), ambas ligadas à Associação Católica Brasileira. Em meados dos anos 1960, a JUC passa por um processo de aproximação às teorias marxistas e elege alguns de seus membros para cargos importantes como a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). À medida que a linha ideológica dessas organizações se afastava da hierarquia tradicional da Igreja Católica, seus militantes necessitavam de autonomia e, em um congresso relizado em 1962, a AP foi foi fundada.

Condenada pela cúpula da Igreja Católica no Brasil, a AP definia sua linha ideológica por uma "perspectiva do socialismo como humanismo", segundo o Documento Base da organização lançado em 1963. Nesse período pré-1964, a AP teve grande influência no movimento estudantil e defendeu com veemência as Reformas de Base propostas pelo então presidente João Goulart, que foi deposto pelos militares.

Após o golpe de 1964, quando muitos de seus militantes foram presos ou exilados, a AP passa por uma reestruturação ideológica e um grande debate é levantado dentro da organização sobre a melhor maneira de enfrentar o regime militar recém-instaurado. Das discussões e divergências teóricas, parte expressiva da AP se aproxima do pensamento maoísta, enquanto um grupo dissidente, inspirado pela ideia de criação de focos guerrilheiros, forma o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). A partir desse momento, a AP se aproxima de comunidades camponesas para dar início a um trabalho de "conscientização revolucionária", levados pela teoria chinesa da "guerra popular prolongada".

Clandestinidade

Jornalista já experiente e então repórter da revista Realidade, da Editora Abril, Carlos Azevedo foi um dos profissionais da comunicação que largaram seus empregos estáveis em veículos da mídia hegemônica para se dedicar à imprensa independente e à militância. Em 1968, após se afastar da Abril, Azevedo partiu para a clandestinidade e passou a ser o redator-chefe do jornal Libertação, lançado no dia 1º de maio daquele mesmo ano. 

"Em geral, eu tinha mais experiência de texto, então eu era uma espécie de editor do jornal e passava as matérias para os dirigentes avaliarem, para depois voltarem e a gente enfim fazia a impressão. Agora, tudo isso na clandestinidade, ninguém sabia onde morava a outra pessoa", conta o jornalista, que viveu de forma clandestina com a família durante 10 anos em uma casa na cidade de Campinas, interior de São Paulo.

Segundo Azevedo, o jornal era impresso em mimeógrafos (elétricos ou manuais), integrando um processo muito difícil na produção e redação de um periódico. "Tínhamos encontros semanais, discutíamos como seria a próxima edição, levantávamos informações necessárias para fazer a matéria. Depois de feita, nos encontrávamos e trocávamos as matérias para fazer as avaliações e correções possíveis, passávamos para os dirigentes que também faziam suas avaliações, só então elas voltavam para a impressão. Tudo isso em encontros clandestinos", explica o jornalista.

As condições de trabalho eram limitadas pela repressão e, de acordo com Azevedo, reuniões de pauta eram feitas na rua - muitas vezes, caminhando com um dirigente ou um companheiro jornalista. "Desenvolvi um sistema chamado Lapa-Penha, que consistia em uma caminhada da Lapa até a Penha e a volta. Essse trajeto nos proporcionava uma reunião de duas horas. Era uma reunião boa", brinca o jornalista.

O jornal era totalmente financiado pela organização da qual fazia parte, a AP. Segundo Azevedo, a organização recebia muitas doações de "camadas médias da sociedade", que simpatizavam com as propostas da Ação Popular. 

Olhos vendados

Após anos sendo impresso em mimeógrafos, a AP consegue comprar uma impressora off-set, foi instalada em um sítio afastado na região de Embu das Artes, São Paulo. O jornal Libertação ganha mais qualidade e velociade na impressão, aumentando sua tiragem e facilitando o trabalho dos jornalistas. "Eu e Narciso Kalili, companheiro da AP que trabalhava comigo na Realidade, pedimos demissão juntos e usamos o dinheiro da recisão para comprarmos uma impressora off-set, que só foi usada anos depois", conta Azevedo.

O jornal saía do sítio e os exemplares eram levados para distribuição em veículos cheios de legumes e verduras. "O casal responsável pela gráfica vinha de Santa Catarina e tinha experiência com agricultura, então plantavam legumes e produziam as impressões. Por fim, juntavam os legumes que eles plantavam e os jornais impressos dentro de um Kombi e levavam até a cidade", diz Azevedo.

Renato Rabelo, um dos dirigentes da AP à época, afirma que o porceso de troca de informações na clandestinidade era complicado, o que exigia uma estrutura bem planejada. "Existia um aparato para imprimir o jornal. Foi escolhida e definida uma casa para isso, inteira clandestina. Só quem conhecia a casa era o pessoal que trabalhava lá, mais ninguém. As matérias eram encaminhadas em pontos, ou seja, não existia essa história de você ir na casa de um e de outro. Qando você tinha que ir à casa de alguém, ia de olhos vendados, e, quando saía, era também de olhos vendados e você era deixado em um lugar determinado. Existiam, como a gente chamava, 'fusíveis' pelo caminho. Se caíssem, rompia-se a sequência das coisas", explica Rabelo.

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"Sem essa comunicação, a ampliação da resistência era muito difícil", diz Rabelo

Rachas e fim do Libertação

Além de imprimir o jornal Libertação, a AP também publicou o Livro Negro da Ditadura Militar, que continha os nomes dos envolvidos nas torturas e na Operação Bandeirantes (OBAN), responsável por perseguir, prender, torturar e assassinar opositores do regime. Em 1972, após reunião ampliada entre seus membros, a organização passa a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista (APML). No mesmo ano, parte expressiva dos militantes que vinham se aproximando gradualmente do PCdoB, entram por completo no partido. Os membros que continuaram na organização ainda lançaram alguns números de ourtro jornal também denominado Libertação, que durou apenas alguns números. Aos poucos, os remanescentes foram desarticulados por violenta repressão dos militares.

Em 1975, após circular ininterruptamente por sete anos, todos os mês, o Libertação parou de ser publicado. Jornalistas responsáveis pelo periódico, como Azevedo, passaram a atuar na redação e distribuição do Classe Operária, jornal clandestino do PCdoB, que já era publicado pelo partido.

Para Rabelo, jornais alternativos como o Libertação trouxeram mais vigor à luta contra a ditadura. "Sem essa comunicação, a ampliação da resistência era muito difícil. À medida em que esses jornais passaram a existir e ter uma certa influência, isso abriu caminho", diz o ex-dirigente da AP, que hoje preside a fundação Maurício Grabois, do PCdoB.

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