Movimento: grandes reportagens, financiamento coletivo e muita censura

Modelo de jornal administrado pelos próprios jornalistas levou a redação do Movimento a adotar práticas democráticas, como longas discussões sobre as pautas do jornal

Lucas Estanislau

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Os desentendimentos com o empresário Fernando Gasparian e a pressão da censura levaram a redação do jornal Opinião a se demitir em massa em meados de 1975. De volta a São Paulo, os jornalistas Tonico Ferreira e Raimundo Pereira começaram a concretizar a ideia de um periódico sem patrão e de oposição aberta à ditadura civil-militar. Financiado por acionistas interessados na luta democrática, o jornal Movimento foi lançado no dia 7 de julho de 1975 e se tornou um dos maiores jornais alternativos do Brasil.

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Com uma experiência de financiamento inovadora para a época, o modo como o Movimento foi criado deu ao periódico a força e a credibilidade necessárias para conquistar seu lugar na imprensa brasileira da época. “Nós criamos uma sociedade de acionistas onde cada um contribuiu com um montante de dinheiro e comprou uma parte do jornal”, explica Tonico Ferreira, secretário de redação e acionista do Movimento.

A ideia de uma publicação sem patrão, feita por jornalistas que trabalhassem e apoiassem o jornal, foi essencial para o sucesso do Movimento. “Com uns 40 deputados do grupo autêntico do MDB, mais figuras de grande representação para o país como Chico Buarque de Hollanda, Fernando Henrique Cardoso, Orlando Villas-Bôas, Audálio Dantas, construímos um conselho editorial que representava um sentimento nacional de resistência para tentar avançar aproveitando a abertura”, conta Raimundo Pereira, editor-chefe do jornal.

O modelo de um jornal administrado pelos próprios jornalistas levou a redação a adotar práticas democráticas, como longas discussões sobre as pautas do jornal e que envolviam a participação de todos. Ferreira conta que “as reuniões de pauta duravam horas e tudo era discutido, desde a capa até uma charge na página 3 do jornal”.

O projeto gráfico do Movimento era encabeçado pelo artista plástico Elifas Andreato, colega de Pereira e Ferreira no Opinião. Para o desenhista, “o convívio com esse grupo de jornalistas me deu um pouco a noção do tamanho da encrenca em que vivíamos com o regime militar e a censura”.

Bombas, rachas e censura

Antes mesmo de seu lançamento, o Movimento sofreu com a censura prévia e a primeira edição de 20 mil exemplares já chegou às bancas censurada. “Nós tivemos um problema muito grave porque desde o primeiro número ele foi censurado previamente. Quando nós saímos com o número zero a Polícia Federal já apareceu e mandou a gente enviar o jornal pra Brasília para ser censurado”, diz Ferreira.

Uma série de reportagens especiais sobre o Brasil chamada “Cena Brasileira” foi censurada desde o seu lançamento até a última matéria. “Depois eu soube que o Chico Mendes [líder sindical seringueiro] dizia que quando o Movimento chegava lá no Acre é que ele ficava sabendo das coisas que aconteciam no Brasil. Enfim, eles cortaram tudo”, relembra Ferreira.

Outro fator extremamente prejudicial para a publicação foram os atentados a bancas de jornal executados por grupos de extrema-direita. No ano de 1980, três bancas foram incendiadas por bombas de grupos terroristas que visavam a interrupção da venda de periódicos alternativos de esquerda, como o Movimento. “Depois eu fiquei sabendo que era um grupo muito pequeno lá do Rio de Janeiro, mas eles fizeram um estrago tremendo porque as bancas não queriam mais receber o nosso jornal, pois eles ficavam com medo de sofrer atentados”, conta Ferreira.

Para o jornalista, além da censura e dos atentados da direita a bancas de jornal, as discussões internas de cunho político entre os trabalhadores do Movimento contribuíram para enfraquecer a publicação, pois levou à saída de muitos jornalistas e dificultou o trabalho. “O meu sonho era que esse jornal tivesse se tronado um diário e sobrevivesse à ditadura, se tornando uma alternativa de centro-esquerda na imprensa brasileira”, afirma Tonico Ferreira.

Reprodução

“O convívio com esse grupo de jornalistas me deu um pouco a noção do tamanho da encrenca em que vivíamos com o regime militar e a censura”, conta Elifas Andreato

“No final, quando o jornal fechou, estava vendendo 10 mil exemplares entre assinaturas e venda em banca. Com o fim da censura, a esquerda que vendia o Movimento unida se dividiu e cada grupo foi fazer o seu jornal”, conta Pereira.

Segundo o jornalista, o fim da censura ao Movimento em 1978 aqueceu as vendas do periódico e levantou o jornal que vinha sobrevivendo com dificuldades por conta da censura. Porém, com os rachas internos e os atentados a bancas, o periódico que, em sua melhor época vendia cerca de 40 mil exemplares, não resistiu e encerrou as atividades em novembro de 1981.

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