Marcelo Yuka: 'Eu estava sempre com uma câmera na mão, e ele já nem notava'

Em depoimento, a cineasta Daniela Broitman conta como se tornou amiga do músico Marcelo Yuka, morto na noite da última sexta-feira (18/01)

Escrever qualquer coisa nesse momento sobre o Marcelo é muito difícil. Muita tristeza misturada com tantas lembranças, tantas histórias, tantas anedotas... é mais árduo que ter que editar novamente as 180 horas de material para fazer Marcelo Yuka no Caminho das Setas. Por outro lado, também é muito difícil guardar tantas memórias, tantas imagens, tantos sentimentos só pra mim. Hoje, suas ideias já pertencem ao mundo, e pra ele devem ir.

Eu havia me mudado do Brasil antes do Rappa estourar. Numa das minhas visitas de volta ao país, em 1998, acabei entrando na Livraria Travessa no Rio de Janeiro pra comprar uns CDs de música brasileira para presentear os amigos gringos. Peguei o CD Rappa Mundi na mão e não larguei mais. Levei logo dois, um pra mim e um pra dar de presente. Eu não conseguia parar de ouvir aquele CD.

Pouco tempo depois, eu li na internet a notícia sobre o que tinha acontecido com Marcelo Yuka. Por algum motivo, aquela tragédia me tocou demais. E eu nem tinha ideia de quem era Marcelo Yuka.

Logo depois voltei pro Brasil, comecei a trabalhar num projeto com alguns amigos e que acabou resultando no meu primeiro longa, um documentário sobre líderes comunitários de favelas do Rio. Quando o filme foi exibido no CCBB, comecei a ouvir que eu tinha que mostrá-lo pro Marcelo Yuka, que ele ia gostar e que tínhamos muito em comum. Esse nome surgia em quase todas as conversas que eu tinha com artistas e músicos da cidade.

Um belo dia me liga a querida Diva M Moreira que trabalhava no PNUD/ONU e diz que precisava da minha ajuda pra achar um artista pra encomendar uma música que tratasse sobre racismo. Eu falei com o Lenza, que me falou pra conversar com o Bernardo Negron, que numa rápida conversa me falou que eu precisava conhecer o Marcelo Yuka. E ali aquele nome surgia novamente.

Finalmente liguei pro tal Marcelo Yuka, e por um milagre (os amigos vão entender), ele atendeu de primeira. Marcelo relutou no início, com aquele jeitão sempre desconfiado, dizendo que não sabia se ele era a melhor pessoa pra falar disso.

Cheguei lá na casa dele com a Diva a tiracolo e minha câmera na mão. Garnizé e a Daniela estavam lá com ele, gravando o primeiro álbum do F.UR.T.O. Enquanto conversávamos, Marcelo ia pedindo ao Garnizé pra tocar as músicas, de acordo com o tema do papo. Eu estava boquiaberta com as ideias do cara, a genialidade das letras e a qualidade do som. Logo perguntei se podia ligar minha câmera e comecei a filmar. Sem eu saber ainda, ali se apresentava a primeira sequência de “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, enquanto ele falava sobre as 9 balas que o atingiram.

Saí dali atordoada com tanta informação e embriagada pelas músicas, pelos livros e pelo papo. Dali em diante, as minhas visitas à casa de Marcelo iam ficando cada vez mais frequentes e as conversas cada vez mais longas e mais profundas. A nossa maior sintonia era a necessidade que tínhamos de lutar por justiça social -- hoje já entendo que tem que ser uma busca e não uma luta. Daí, em especial, veio nossa amizade, nossa parceria, nossa admiração mútua. Seguidas pelo interesse por projetos sociais, cinema, música e política. Eu podia chegar na casa dele às 21h, às 18h, às 15h, não importava a hora, eu só saía quando o dia clareasse. Não por falta de muitas tentativas de ir embora num horário razoável, mas porque era impossível ir embora do estúdio de Marcelo Yuka. Ele fazia de tudo pra que seus amigos mais próximos ficassem lá com ele, e comigo não era diferente.

Eu estava sempre com uma câmera na mão, e o Marcelo já nem notava. Ele compartilhava tudo, sua comida, sua música, seu afeto, suas dores, sua teimosia, suas inseguranças, sua genialidade, suas pirações, seu sarcasmo, suas palhaçadas... Abria seu coração e me deixava mergulhar sem a menor cerimônia. Ele era assim, na sua insana generosidade, capaz de nos fazer sentir próximos, íntimos, queridos, especiais.

Por mais de uma década da minha vida tive o prazer e a honra de conviver intensamente com a pessoa mais genial e mais geniosa que eu poderia ter conhecido nessa dimensão.

Essa é uma história de muitos capítulos, talvez um dia eu consiga contá-la da forma que merece ser contada. Por enquanto, ficam minha gratidão e a saudade eterna.

Arquivo pessoal - Daniela Broitman
Em depoimento, a cineasta Daniela Broitman conta como se tornou amiga do músico Marcelo Yuka, morto na noite da última sexta-feira (18/01)

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