Fiat do Brasil manteve aparato repressor em conjunto com ditadura militar contra movimento operário

Documentos revelados pelo site The Intercept Brasil indicam que aparato repressor contava com mais de 140 funcionários, incluindo agentes duplos do Dops

Redação

São Paulo (Brasil)

Documentos do arquivo histórico da montadora italiana Fiat e do Arquivo Público Mineiro, além do depoimento de testemunhas, revelam que a empresa, que inaugurou a primeira sede no Brasil na cidade de Betim (MG), em 1974, contava, em conjunto com a ditadura civil-militar, com um complexo aparato para reprimir o movimento sindical operário que se formava entre seus trabalhadores.

Reportagem publicada pelo site The Intercept Brasil mostra documentos que comprovam que a empresa italiana possuía em sua folha de pagamento 145 funcionários que trabalhavam como espiões, além de agentes duplos que eram membros do Dops.

Segundo ex-trabalhadores ouvidos pelas reportagens, alguns operários se fingiam amigos dos sindicalistas para obter informações e passá-las aos patrões, agindo sob uma promessa de promoção ou anistia.

Outros temidos pelos funcionários eram os trabalhadores que circulavam pela planta da fábrica com o macacão limpo, o que demonstrava que não trabalhavam e simplesmente andavam pelos setores para colher informações e descobrir operários sindicalistas.

De acordo com a reportagem, a Fiat espionava os trabalhadores em suas fábricas italianas há muito tempo, especialmente por conta da força do Partido Comunista e o movimento sindical italianos. 

Rafael Guariniello, ex-procurador da cidade italiana de Turim, onde fica a sede da montadora, disse ao Intercept Brasil que "o esquema de espionagem, corrupção e colaboração que envolvia policiais, juízes e ex-militares havia sido idealizado por um ex-militar pertencente ao serviço secreto".

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O italiano se refere ao coronel brasileiro Joffre Mario Klein, que comandou o aparto repressor na Fiat do Brasil, batizado como "Segurança e Informações". O objetivo do setor era espionar os funcionários, fichar os considerados subversivos e negociar o destino desses com o governo militar.

Em entrevista ao site brasileiro, a viúva do coronel Klein, Maria Antonieta Klein, afirma que seu marido foi indicado para o posto na Fiat pelo próprio SNI (Serviço Nacional de Informações), que o órgão do governo federal de espionagem. 

Segundo documento encontrado no arquivo da Fiat, dentro do setor de repressão comando por Klein, existia um cargo destinado a "investigações". Elas estavam sob controle direto do ex-coronel. No documento, ainda há a informação de que 145 pessoas trabalhavam para o setor de espionagem e repressão.

Entre as táticas utilizadas pelo aparato estavam grampos telefônicos, inclusive do único telefone público que havia no pátio da empresa, intimidações, prisões, promessas de promoção para quem traísse o movimento sindical e pedir para funcionários fiéis aos patrões para que indicassem outros funcionários.

Os documentos levantados pelo Intercept Brasil ainda apontam para o conhecimento da empresa italiana sobre prisões ilegais realizadas pelo Dops de operários da Fiat. Muitos trabalhadores ficaram presos de forma ilegal na prisão de Lagoinha, onde existia desde os anos 1950 uma carceragem para presos provisórios.

Segundo o Intercept Brasil, a Fiat do Brasil foi procurada pelo site duas vezes. Ela disse que foram consultadas "várias fontes da empresa", mas que "realmente não havia memória de tais fatos".

Leia a reportagem completa aqui.

Reprodução
Fiat espionava os trabalhadores em suas fábricas italianas há muito tempo

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