Lula em 2011: Combate à fome é a verdadeira guerra que os governantes precisam travar

"Ela [a fome] não mata inimigos, ela não mata terroristas. Ela mata crianças, e às vezes, no útero da própria mãe", disse, ao receber prêmio internacional de combate à fome

Em 2011, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou o World Food Prize, prêmio concedido a personalidades que atuam no combate à fome e no aumento da produção de alimentos. Em seu discurso, o petista afirmou lutar contra a fome é a “verdadeira guerra” que os governantes precisam travar.

"Ela [a fome] não mata inimigos, ela não mata terroristas. Ela mata crianças, e às vezes, no útero da própria mãe, que não teve direito de comer as calorias necessárias ao nascimento de uma criança", disse.

As declarações de Lula contrastam com as do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), que negou, em entrevista a correspondentes estrangeiros, que houvesse fome no país.  Segundo ele, o Brasil é "rico para praticamente qualquer plantio" e que por isso "passar fome no Brasil é uma grande mentira". "Passa-se mal, não come bem, aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético, como a gente vê em alguns outros países do mundo". Com a repercussão negativa, o presidente voltou atrás e disse que “uma pequena parte passa fome”.

Dados da ONU, divulgados no ano passado, mostravam que 5,2 milhões de brasileiros estavam em estado de subnutrição no período entre 2015 e 2017.

Wikimedia Commons
Lula recebeu World Food Prize em 2011

Veja a íntegra do discurso de Lula, em 2011:


Leia na íntegra o discurso:

Eu fico muito feliz de estar recebendo um prêmio mundial da alimentação, em um Estado em que as estátuas que eu vi na rua não são de heróis de guerra, mas de heróis de combate à fome. 

E essa é a verdadeira guerra que todos os governantes precisam aprender a fazer: lutar pela vida e não pela morte. Porque a fome é uma arma de destruição em massa mais poderosa e mais perigosa que qualquer outra arma que o homem já inventou. 

A fome, ela não mata soldados em um campo de batalha, ela não mata inimigos, ela não mata terroristas, ela mata crianças. E às vezes, no útero da própria mãe que não teve o direito de comer as calorias e as proteínas necessárias ao nascimento de uma criança com saúde. E eu sempre sonhei de que era possível transformar a fome, de um problema social estatístico para um problema político. 

E hoje, eu estou tendo essa consagração junto com meu amigo Kufuor. Recebendo um prêmio que até então era dado para técnicos, cientistas e para pesquisadores. Estamos recebendo como políticos que priorizamos o combate à fome como instrumento de desenvolvimento econômico, como instrumento de desenvolvimento científico-tecnológico, como instrumento de democratização dos nossos países. Por que as pessoas precisam aprender, democracia não é apenas a gente gritar que está com fome, democracia é a gente comer de manhã, de tarde e a noite. 

E foi meu compromisso de posse, no dia 1º de janeiro de 2003, quando eu afirmei que se ao terminar o meu mandato, cada brasileiro estivesse tomando café de manhã, almoçando e jantando, eu já teria cumprido com meu compromisso de vida. Hoje, eu posso dizer embaixador Quinn, meu amigo Kufuor, e amigas e amigos, nós fizemos mais do que isso. 

No Brasil, nós conseguimos fazer o maior processo de mobilização social da história do nosso país, 40 milhões de brasileiros ascenderam de classe social, 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema com política de transferência de renda, com política de crédito e não apenas crédito para o grande, mas para o pequeno. 

Eu lembro presidente Kufuor que quando criamos o programa Bolsa Família disseram que eu ia dar esmola aos pobres brasileiros e que eu ia criar o exército de pessoas que não iam querer trabalhar. E nós criamos um programa e decidimos que quem iam receber o dinheiro era mulher, porque a mulher é muito mais responsável para levar comida para casa do que o homem, muito mais responsável.

E condicionamos que para receber o dinheiro as crianças em idade escolar tinham que estar na escola. As crianças tinham que tomar todas as vacinas, e as mulheres gestantes tinham que fazer todos os exames que o pré-natal exige que faça. Com isso, terminamos em dezembro de 2010, atendendo 13 milhões de famílias, 52 milhões de pessoas. E aqueles que diziam que eu estava dando esmola para os pobres, certamente, eram aqueles que davam as mesmas quantias que eu dava para o pobres de gorjeta depois de tomar um uísque em um bom restaurante. E as pessoas, que não conhecem a pobreza não tem noção do que uma mãe é capaz de fazer com 50 dólares, com 60 dólares ou com 70 dólares. 

As pessoas não têm noção do que pode movimentar a economia quando a gente consegue distribuir dinheiro para as pessoas, e elas vão na padaria, vão em um supermercado e vão comprar, e no supermercado precisa de mais produtos, vai encomendar para a agricultura, que tem que produzir mais arroz, mais trigo, mais soja, mais milho, mais feijão, mais fruta. Por que as pessoas precisam aprender que os pobres gostam de comer bem, pobre não gosta de miséria. 

Nós aprendemos de que ao pobre tem que sofrer na terra para ganhar o reino do céu quando morrer. Não, nós aprendemos que nós queremos viver bem aqui, enquanto a gente pode, e não queremos nada mais do que o mínimo necessário para recuperar nossa dignidade. Portanto, o que nós fizemos no Brasil, o que esse homem fez em Gana, é possível ser feito em qualquer país do mundo. 

O que é importante, é que os governantes  do mundo percebem que não é possível governar um país apenas com o conhecimento da Universidade, é preciso governar um país também com um sentimento no coração. É preciso que um governante tenha um olhar de mãe, porque não tem nada mais justo que uma mãe. Uma mãe se tiver 10 filhos, ela vai garantir que cada um tenha um pedaço de carne, ou um copo de leite. Não adianta ser bonito, não adianta ser mais forte ou chorar, todos vão ganhar igual. Se tiver um doente ou debilitado, é para aquele que a mãe vai dar um copo de leite a mais ou um pedaço de carne a mais.

É com esse sentimento, que nós governantes precisamos governar os nossos países. Lembrando que por de trás de cada número tem uma criança, tem uma mulher ou um tem um velho precisando que a gente lute por eles. Porque a fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão. E quem tem que ajudar os famintos não são os famintos, somos nós que tomamos café de manhã, de tarde e a noite.

Somos nós que temos refeições, que comemos as calorias e as proteínas, que precisamos com muita humildade estender a mão para ajudar àqueles que não tem força se quer para gritar que está com fome. 

Muito obrigado!

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