Como fazer crítica de cinema na ditadura? Livro conta como jornais 'driblavam' censura da época

Margarida Adamatti analisou todo o material da seção de cinema do Opinião para entender as 'estratégias' dos editores em relação aos censores

Fernanda Forgerini

São Paulo (Brasil)

Como falar de cinema em plena ditadura? Na base do "drible". Esta é a conclusão do livro Crítica de cinema e repressão - Estética e política no jornal alternativo Opinião (Alameda, R$ 68), da pesquisadora e professora da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Margarida Adamatti, que pesquisou como o jornal Opinião conseguia publicar textos de críticas cinematográficas em um ambiente de forte repressão dos censores do regime.

Adamatti, entrevistada por Opera Mundi, diz que analisou todo o material da seção de cinema do semanário para entender quais eram as "estratégias" para que os textos pudessem passar. 

"Me interessava saber como o projeto editorial fazia denúncias contra o autoritarismo e comentava sobre os filmes censurados brasileiros. [..] O Sérgio Augusto, por exemplo, pegava o nome do Ferreira Gullar e colocava outro nome. Na gráfica, ele colocava de novo o nome do Gullar", disse Adamatti. 


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A pesquisadora ainda afirmou que, em algumas ocasiões, o jornal era censurado e os editores deixavam um quadro em branco (no local onde o texto deveria estar) com os dizeres "Leia-se em Opinião". 

O livro, que foi lançado em outubro deste ano, foi o resultado da pesquisa de doutorado de Adamatti. No entanto, a professora disse que se "espantou" ao publicar seu trabalho. "[Temos] avaliações da Ancine (Agência Nacional do Cinema) que relacionam se tem partido político e se tem religião, isso é retrocesso. E esse retrocesso também está dentro das redações de jornais", diz

Reprodução
Margarida Adamatti analisou todo o material do semanário e de como era a relação do jornal com os censores do regime

Assista à entrevista:


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