Eleitores russos vão às ruas e mostram divisão em manifestações

Nos protestos, enquanto uns protestavam contra Putin, outros o apoiavam

Sandro Fernandes

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A apenas um mês das eleições presidenciais, os russos foram mais uma vez às ruas neste sábado (04/02) numa jornada marcada pela onda de frio siberiano que congelou a capital -- os termômetros de Moscou chegaram a marcar -18°C -- e por uma multidão estimada em 200 mil pessoas que se dividiu em duas manifestações. Uma de apoio ao primeiro-ministro e candidato à presidência Vladimir Putin e outra contestando a legitimidade das eleições legislativas do último dia 4 de dezembro, marcadas por inúmeros casos de fraude e corrupção.

A manifestação de apoio ao Kremlin, apelidada de “protesto anti-Laranja” (em referência à Revolução Laranja da Ucrânia) esteve cercada de polêmicas. Durante toda a semana, meios de comunicação independentes denunciaram a pressão exercida pelo governo para que todos os funcionários públicos participassem da manifestação. Foi criado até mesmo um disque-denúncia, para que cidadãos pudessem informar de maneira anônima às autoridades qualquer abuso de poder. Neste sábado, o partido governista, Rússia Unida, foi acusado de pagar entre 500 e 5000 rublos (de 28 a 280 reais) para cada pessoa que participasse da manifestação de apoio a Vladimir Putin.

Efe

Manifestantes dividiram-se em protestos a favor e contra Putin

Na manifestação de oposição, os participantes continuaram exigindo a anulação das eleições de dezembro, a demissão do presidente do Comitê Eleitoral, Vladimir Churov, e a legalização dos partidos de oposição. Muitos militantes do Partido Iábloko pediam através de cartazes ou em discursos improvisados que o partido pudesse concorrer nas presidenciais de março. Grigory  Yavlinski, líder do Iábloko, teve sua candidatura impugnada na última semana. Segundo o Comitê Eleitoral, 25% das assinaturas recolhidas pelo partido apresentaram algum tipo de irregularidade. O Comitê exige dois milhões de assinaturas para aprovar uma candidatura.

A proximidade das eleições trouxe também à tona a principal dúvida do eleitor russo: “Se não votarmos em Putin, em quem votaremos?”. São quatro as alternativas: Guennadi Ziuganov, pelo Partido Comunista; Sergey Mironov, pelo Causa Justa, Vladimir Jirinovsky, pelo Partido Liberal-Democrata da Rússia e Mikhail Prokhorov, como candidato independente. 

Pesquisas

O instituto estatal VTsIOM divulgou na última sexta-feira (03) que Vladimir Putin conta com 52% de intenções de voto, seguido de longe pelo comunista Ziuganov e o nacionalista Jirinovsky, cada um amargando 8% de intenções. Sergei Mironov e Mikhail Prokhorov apresentam 4% cada. Em comparação com a pesquisa divulgada na semana anterior, Putin subiu três pontos percentuais, enquanto Ziuganov perdeu os mesmos três pontos. Nas eleições de dezembro para a Câmara dos Deputados, o Partido Comunista obteve 19,16% dos votos.

Sandro Fernandes

Manifestante carrega cartaz no qual questiona se Putin ficará mais 12 anos no poder

A queda vertiginosa do apoio ao Partido Comunista é compreensível. O voto em dezembro a favor de Ziuganov foi um voto contra Putin e seu partido, Rússia Unida. Os eleitores viram no candidato comunista a única oposição real e consistente ao governo de Putin, mas agora veêm-se entre a faca e a espada, entre a falta de opção e a opção ruim.

Expectativas

Quando perguntados sobre o que esperam do novo presidente, 57% afirmam que desejam que a Rússia recupere o seu status de potência e de país influente. E este é provavelmente o ponto mais elogiado do governo Putin, inclusive pela oposição. O atual primeiro-ministro contará com esta vantagem na corrida eleitoral. A política externa russa na era Putin buscou recuperar o papel de líder regional do país, além de ter colocado a Rússia outra vez no mapa da política mundial. Apenas 34% dizem que o presidente “deve se preocupar mais com temas sociais que protejam o cidadão”.

O candidato Mikhail Prokhorov, em entrevista à revista alemã Der Spiegel na última semana, disse que ele defende uma Rússia com Putin, mas também uma Rússia com Boris Akunin (famoso escritor) e Aleksey Navalny (blogueiro conhecido pela luta anti-corrupção), ambos importantes líderes da oposição. Prokhorov, que já havia dito que “a Rússia não precisa de uma revolução, mas de uma evolução”, afirmou desta vez que se os partidos de oposição não chegarem a um consenso, o país pode enfrentar uma guerra civil. 

Efe

Mulher segura uma foto do premiê russo em apoio a Putin

O medo de uma revolução é um temor presente no discurso de muitos russos. Segundo eles, a estabilidade conseguida nos últimos dez anos, por mais imperfeita que seja, é melhor do que o caos social da década de 90. “Antes de Putin, o Estado não tinha controle nenhum. As máfias faziam o que queriam, dormíamos e acordávamos com medo. Agora pelo menos temos tranquilidade. Sem Putin, o que vai acontecer? Precisamos de uma pessoa que assuma a responsabilidade e hoje não temos ninguém na Rússia capaz de fazer isso melhor do que Putin”, explica Roman, 26 anos.

Segundo pesquisas, 43% dos russos apóiam as manifestações, mas 78% afirmam que não participariam dos protestos caso estes sigam por alguns meses depois das presidenciais de março. “Os manifestantes de oposição estão cedendo à influência americana. Como sempre, os Estados Unidos querendo dizer o que devemos fazer”, conclui o jovem.

Num artigo publicado no jornal Novaya Gazeta, o ex-presidente, Mikhail Gorbachev, que é um dos donos do jornal, sugeriu que fosse feito um referendo sobre uma possível reforma constitucional que conferisse menos poder ao presidente. Aleksey Makarkin, analista do Centro de Tecnologias Políticas, afirmou à agência Interfax que “apesar de ser uma idéia legítima, um referendo desestabilizaria a política russa”.

Debates

Durante todo o mês de fevereiro, 25 debates com os presidenciáveis serão exibidos em quatro diferentes canais russos. O formato será sempre o mesmo - um candidato contra o outro, nunca os cinco juntos. Dos quatro canais que exibirão os debates, três são controlados pelo Estado e um pela prefeitura de Moscou. Vladimir Putin, através do seu porta-voz, informou que não participará de nenhum debate porque “atrapalharia as suas responsabilidades como primeiro-ministro”, mas prometeu enviar representantes. O primeiro debate acontecerá no Canal 1 nesta segunda-feira (06), entre o comunista Ziuganov e o bilionário Prokhorov.

A oposição russa continua fragmentada entre nacionalistas, liberais e comunistas. Durante dois meses, os três segmentos protestaram juntos contra as fraudes eleitorais. No entanto, com as eleições presidenciais a apenas um mês, os diferentes grupos da sociedade vão pouco a pouco buscando uma coerência ideológica que parece cada vez mais fictícia. Toda a oposição concorda com o slogan “Nenhum voto a Putin”. Mas e no caso de um segundo-turno? O único cenário possível ainda parece ser Putin contra o comunista Ziuganov. Mas os russos conseguirão votar no Partido Comunista depois de 20 anos do fim da União Soviética?

Esta fragmentação da oposição favorece uma vitória de Vladimir Putin já no primeiro-turno e para o eleitor russo, parece que as manifestações destes meses já são um castigo à aparente onipotência do atual primeiro-ministro. A Rússia vai às urnas no primeiro domingo da primavera (para os russos, a primavera começa no dia 1º de março).

No entanto, na “primavera russa”, a derrota política do partido governista é improvável. Segundo a maioria dos especialistas, a perda da maioria constitucional na Câmara dos Deputados nas eleições de dezembro (o partido Rússia Unida conseguiu apenas 49,30% dos votos) e o intenso ativismo político de uma população que parecia satisfeita com toda e qualquer decisão do Kremlin, já são uma grande revolução num país marcado por uma década de apatia política.

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