Imigração árabe recente trouxe mais muçulmanos ao Brasil, diz sociólogo

De acordo com Osvaldo Truzzi, os muçulmanos, assim como os cristãos, procuraram o Brasil para ganhar dinheiro

Isaura Daniel

Todos os posts do autor

Quando se fala em imigração árabe no Brasil, a lembrança é do final do século XIX e começo do século XX, quando navios do Oriente aportaram no país lotados de pessoas ansiosas por refazer suas vidas longe do Império Otomano. Essa foi, de fato, a grande onda migratória, composta principalmente por cristãos em busca de uma vida melhor. Mas, a partir dos anos 1970, outro movimento forte trouxe mais árabes ao Brasil, incluindo muitos muçulmanos.

"Desde a Guerra Civil do Líbano se tem a tendência a receber árabes de crença muçulmana no Brasil, em particular em São Paulo”, diz Osvaldo Truzzi, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro Patrícios – Sírios e Libaneses em São Paulo. A Guerra Civil Libanesa durou até 1990 e foi marcada por enfrentamento de várias correntes políticas e religiosas do Líbano, incluindo cristãos maronitas e muçulmanos. Em 1976, um massacre de mil pessoas, pelas forças cristãs, causou êxodo maciço do país. 

Nem todos os que imigraram mais recentemente, porém, são libaneses. Vieram também muitos sírios e palestinos.

De acordo com Truzzi, os muçulmanos, assim como os cristãos, procuraram o Brasil para ganhar dinheiro. “Eles encaram o Brasil como um país propício para ganhar dinheiro”, afirma ele. Mas, diferente dos primeiros, muitos dos que chegaram depois vieram ancorados por parentes que já estavam por aqui. Para completar o cenário de possibilidade de crescimento econômico, a questão social também ajudou. “No Brasil eles não têm os problemas de discriminação como em outros lugares, na Europa, Estados Unidos”, lembra Truzzi.

A tendência entre esses novos imigrantes foi se aglomerar em regiões onde havia uma comunidade islâmica ou árabe formada, como em São Bernardo do Campo, onde funciona uma mesquita, ou mesmo nas proximidades da Oriente, rua de comércio árabe, no Brás, na capital paulista. A maioria teve ajuda da comunidade já instalada. “Havia uma rede já constituída que pôde providenciar emprego, escola, mercadoria adiantada para comercializar”, conta Truzzi.

Apesar da sua expressão, o sociólogo lembra que essa migração foi de um porte muito menor do que a cristã. No final do século XIX, os imigrantes viam a saída das suas terras como forma de escapar do domínio dos turcos, que então dominavam a região e eram islâmicos. Com problemas econômicos crescendo na região no começo do século XX, o volume de pessoas que migraram só aumentou.

Diferente dos europeus, no entanto, os árabes chegaram ao Brasil dispostos a virarem comerciantes. A maioria começou como mascate e depois foi se estabelecendo em lojas. Vários se tornaram grandes empresários. Tanto que uma das maiores ruas do comércio do País, a rua 25 de Março, foi formada por eles. Vinte e cinco de março, aliás, também virou data de comemoração da imigração árabe no Brasil.

Comentários