Apenas 30% dos moradores das Malvinas se consideram britânicos, diz censo

População tem dificuldade para crescer e envelheceu significativamente nos últimos cinco anos

João Novaes (*)

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O último censo populacional realizado no arquipélago das Malvinas mostrou que menos de um terço de sua população se considera genuinamente “britânica”. De acordo com o levantamento, realizado em abril e divulgado nesta quinta-feira (13/09), 59% de seus cidadãos se identificam nacionalmente como “Falkland Islanders”, mais comumente conhecidos pelo apelido de “kelpers”, enquanto 29% se consideram mais ligados à metrópole.

Os jornais britânicos divulgaram o resultado como se ele representasse uma prévia do referendo marcado para março de 2013 sobre a soberania das ilhas, ocupadas desde o século XIX pelo Reino Unido e reivindicadas pela Argentina. O Daily Telegraph afirmou que o censo dá um golpe direto nos argentinos, devido à "forte identificação nacional" da população.

Outro dado significativo sobre o território localizado no Atlântico Sul é que a já pequena população praticamente não cresceu desde o último levantamento, realizado em 2006: são apenas 2.563 habitantes, excluindo militares britânicos, funcionários de empreiteiras e seus dependentes. Três quartos da população vivem no centro urbano da única cidade, Port Stanley, enquanto os demais se espalham pelas fazendas.

Os kelpers também envelheceram significativamente. O percentual de pessoas acima da faixa de 65 anos cresceu 14% desde 2006. Já os menores de 15 anos são apenas 16,5% da população, número similar ao censo anterior.
 

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Dois moradores das ilhas Malvinas;maioriada população se identifica mais como residente local do que como britânicos

Enquanto o governo local estuda meios para aumentar a população de maneira sustentável, também enfrenta o dilema de perder o controle sobre ela. O medo das autoridades é que, se não houver uma forte regulação, os argentinos poderão se mudar para o arquipélago, tornarem-se a maioria da população e devolverem a soberania ao país sul-americano.

Por essa razão, o arquipélago possui uma política de imigração das mais restritas do mundo: os recém-chegados para habitar o local não podem reivindicar o status de cidadão até completarem sete anos de residência. Para isso ocorrer, o contrato de trabalho precisa ser renovado constantemente, mas apenas 40 pessoas podem requerí-lo anualmente – e nem todos os pedidos são aceitos.

Economia

O censo mostra que o desemprego atinge 1% da população, enquanto um quinto dos residentes adultos possui mais de um trabalho. A maior parte deles é de funcionários públicos (28%), seguidos por agricultura (11%) e turismo (11%). A promissora atividade petrolífera emprega, até o momento, somente 26 trabalhadores residentes nas ilhas. Há muitas vagas de empregos recém-criadas, mas não há gente suficiente para preenchê-las.

A renda per capita dos kelpers, de 32.213 dólares por ano, é três vezes maior à da Argentina, de 9.620 dólares. A vida dos residentes melhorou muito desde a guerra das Malvinas, em 1982, quando, no momento da invasão argentina, a população se encontrava em crise devido à queda do preço de seu principal produto de exportação, o algodão. Desde então, receberam mais apoio do governo britânico e passaram a receber dividendos da pesca, turismo e exploração de petróleo.
 

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Segundo o censo, 1.973 pessoas, ou 70% da população residente, são cidadãos das Malvinas (Islander, ou kelper) ou têm esse status. Apenas 4,3% (121pessoas) têm visto de residência fixa que os qualifica a requerer esse status.

A curto prazo, a força de trabalho nas Malvinas é preenchida com residentes da ilha de Santa Helena (também uma possessão britânica no Atlântico Sul) ou da América do Sul – exceto argentinos (cerca de 6% da população é de origem chilena).

Na pergunta sobre identidade do censo, entre os demais moradores, 9,8% se identificam como residentes da ilha de Santa Helena, enquanto 5,4% se consideram chilenos.

No entanto, parte da população duvida se o governo britânico vai continuar mostrando interesse em defender esse território. Apesar das promessas do governo britânico em construir um porto permanente, o projeto também prevê um novo sistema de água potável e novos moinhos para gerar mais energia eólica, responsável por 30% pelo fornecimento da eletricidade local. 

Histórico

As ilhas Malvinas fazem parte de um arquipélago afastado do Atlântico Sul, composto por 200 ilhotas. Foi batizada com esse nome por pescadores de Saint-Malo que passavam por lá no século XVII.

Antes de se tornar colônia britânica e assumir o nome de Ilhas Falkland, em 1833, a localidade pertenceu à Espanha e, depois, à Argentina. Desde então, Buenos Aires nunca deixou de reivindicar seus direitos sobre a região.

Em 19 de março de 1982, a junta militar que governava a Argentina com mãos de ferro decidiu buscar apoio popular colocando em prática uma velha reivindicação nacional sobre o Arquipélago das Malvinas. Diante de tropas melhor equipadas e treinadas, os argentinos logo capitularam.

As perdas humanas foram enormes: 712 mortos e dois mil feridos e desaparecidos do lado argentinos; além de 293 mortos do lado britânico. Para a ditadura militar argentina, esse foi o golpe de misericórdia. Seu chefe, o general Leopoldo Galtieri é destituído do poder em 29 de junho de 1982 e um regime constitucional e democrático é instalado.

(*) com agências de notícias internacionais
 

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