Após 8 anos de Morales, Bolívia é elogiada pelo FMI, mas ainda precisa superar pobreza extrema

País melhorou índices sociais e econômicos, mas fim completo da pobreza e melhoria da infraestrutura seguem como desafios para próximo presidente

Vanessa Martina Silva

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“A Bolívia é o país que mais crescerá na América Latina, junto com a Colômbia”, diz o informe mais recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), publicado nesta terça-feira (07/10). Apesar da economia em expansão, o maior desafio do país nos próximos anos será superar totalmente a pobreza extrema, que, segundo a ONU atinge 25,4% da população. Questões econômicas, infraestrutura e os desafios sociais que persistem no país estão entre os pontos centrais das eleições, que serão realizadas neste domingo (12/10) para escolher presidente, vice-presidente, senadores e deputados no país.

Candidato à segunda reeleição, o presidente Evo Morales desponta como favorito nas pesquisas de intenção de voto para vencer no primeiro turno.

Agência Efe

Ato de encerramento da campanha reuniu milhares de apoiadores do presidente Evo Morales em El Alto

Em termos econômicos, o país resistiu melhor que grandes economias latino-americanas à crise financeira internacional iniciada em 2008. O movimento de combate aos efeitos da crise foi feito pela forte presença de empresas públicas, que foram ampliadas, em todos os estados do país de forma descentralizada e contribuíram para fortalecer o mercado interno.

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"Há vários anos, o desempenho macroeconômico da Bolívia tem sido muito bom. Essa performance, ativamente apoiada em políticas sociais, ajudou a aumentar em quase três vezes a renda média da população e reduziu a pobreza e a desigualdade", disse a economista do FMI Ana Corbacho, em coletiva de imprensa concedida no começo do ano. Para 2014, a estimativa do organismo é de que o país cresça 6,4%.

Para entender o cenário econômico boliviano e os desafios que deverá ser enfrentado pelo novo governo, Opera Mundi conversou com o economista, diretor do Celag (Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) e professor de pós-graduação da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), Alfredo Serrano, que está em La Paz para acompanhar o processo eleitoral no país andino.

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O informe do Celag sobre as eleições bolivianas, publicado no último mês, avalia que o desafio para o próximo mandato presidencial será manter o crescimento sustentável, diminuir o desemprego, superar a pobreza e a pobreza extrema, melhorar os índices de saneamento e expandir a infraestrutura com a criação de estradas e o fornecimento de gás para o interior do país.

Agência Efe

Samuel Doria Medina é o opositor mais bem colocado nas pesquisas, com cerca de 20% de intenção de voto

Para Serrano, a avaliação positiva do FMI com relação à Bolívia é consequência de um rompimento das políticas econômicas pós-neoliberais recomendadas por organismos internacionais como o próprio Fundo e o Banco Mundial. "[Isso] Gerou efeitos e resultados que não são os defendidos fundamentalmente pelo FMI”, avalia o economista.

Após nacionalizar setores estratégicos, o país ordenou as contas, redistribuiu excedentes econômicos com políticas sociais e isso “teve um efeito dominó no consumo interno, além de satisfazer necessidades básicas, que antes eram insatisfeitas. Além disso, o modelo adotado hoje permite ao país acumular uma reserva que se encontra acima da média regional em termos do PIB, o que aplaude o FMI”, avalia Serrano.

Crise econômica

Os números positivos se devem também à particularidade da economia boliviana. “Apesar de Brasil e Argentina terem grandes ‘translatinas’ [empresas que operam na América Latina e no Caribe], dependem muito do capital financeiro internacional. Os modelos produtivos também são estruturas concentradas em poucas mãos. Já a Bolívia tem a vantagem de ter um modelo econômico arraigado na produção comunitária pré-capitalista com certa logica de intercâmbio capitalista”, esclarece Serrano. A economia boliviana é, portanto, pouco dolarizada. Nos últimos anos, inclusive, a tendência é de que a moeda nacional cresça, fortalecendo ainda mais a economia, observa.

Apesar dos avanços obtidos no país, Serrano considera que não é possível falar, ainda, em uma entrada massiva de pessoas na classe média, embora “seja certo que as pessoas estão em condição melhor do que antes”. Para o especialista, o grande desafio para o futuro da Bolívia é modificar a matriz produtiva do país para satisfazer, de forma sustentável, a nova demanda interna e assim “não depender fundamentalmente das importações, como sucede em outros países da América Latina”.

Integração regional

A integração latino-americana é outro ponto importante dentro desse processo, aponta o professor. “A Bolívia entendeu que qualquer mudança interna exige uma fórmula diferente nas relações exteriores. O governo entende que a recuperação da soberania é a única maneira de transformar o modelo econômico interno de forma virtuosa e entende que só se pode resistir ao capital transnacional a partir de uma grande aliança regional. Isso é uma das coisas que Bolívia levou a cabo com muito afinco”.

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No âmbito regional, a integração é o caminho para se proteger de certas ofensivas a partir de alianças com Estados como Brasil, Argentina, Venezuela e Equador, avalia o economista. “É fundamental assumir um papel protagonista na região e considero oportuno participar do Mercosul diferente da era neoliberal, com rosto mais humano”. Ele conclui que a aproximação com o G-77 + China “mostra como a Bolívia deixou de ser um país isolado, satélite dos países capitalistas mundiais, para ser parte ativa das novas transições geopolíticas no âmbito mundial”.

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