Corte holandesa adia decisão sobre racismo em personagem natalino

Juiz considerou que há pouca atenção para alegações de ativistas anti-racismo; nova audiência foi marcada para 12 de novembro

Carolina de Assis

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O Conselho de Estado Holandês se reuniu em Haia nesta quinta-feira (16/10) para julgar o recurso apresentado pelo prefeito de Amsterdã, Eberhard van der Laan, em prol da realização da parada anual de Sinterklaas, ou São Nicolau, tradicional evento natalino na cidade. Após três horas de deliberação, o Conselho marcou nova audiência para o dia 12 de novembro, quando pretende dar o veredito final sobre a questão.

O recurso foi apresentado após o Juizado Administrativo de Amsterdã concluir, no início de julho, que a figura de Zwarte Piet, ou “Pedro Preto”, um dos personagens centrais do desfile, é “ofensiva” e “perpetuadora de estereótipos racistas”. O prefeito argumentou ao Conselho que a discussão sobre o personagem deve acontecer na sociedade, não na Justiça. Já o juiz afirmou que não tem sido dada atenção suficiente às preocupações de ativistas antirracismo do país, que acreditam que o personagem é um resgate de símbolos da época da escravidão. 

Imagem via Zwarte Piet Niet

Ativista anti-racismo diante de manifestantes a favor do personagem: "O primeiro estágio da tomada de consciência é a negação"  

De acordo com o folclore natalino holandês, os Pedros Pretos são os ajudantes de São Nicolau, figura análoga ao Papai Noel, e auxiliam o bom velhinho na entrega dos presentes às crianças na noite de 5 de dezembro, véspera do dia do santo. O personagem é representado como uma espécie de bobo da corte negro, e defensores da tradição argumentam que o preto da pele dos Pedros é devido à fuligem das chaminés por que eles passam para levar os presentes às crianças. Os Pedros Pretos são invariavelmente encarnados por pessoas brancas, que fazem uso de “blackface”, maquiagem que cobre o rosto de negro, batom vermelho que realça os lábios, perucas de cabelos crespos e brincos de argola dourados. A questão levantada por opositores da tradição é que o Pedro Preto é uma caricatura racista que evidencia a malresolvida relação da Holanda com seu passado colonial e escravista.

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Floris Looijesteijn / Flickr

Holandesas fantasiadas de Pedros Pretos na parada de São Nicolau na cidade de Haarlem, em 2012
 
Amsterdã realiza todos os anos a maior parada de São Nicolau no país, quando é encenada a chegada do santo e dos Pedros Pretos à Holanda. Segundo a tradição, eles partem de Madri, na Espanha, e chegam ao país pelo mar, desfilando de barco pelos canais que cortam a cidade. O prefeito van der Laan declarou que a figura do Pedro Preto passará por uma “transformação gradual” ao longo dos próximos quatro anos para que deixe de representar um estereótipo racista. A transformação já teria começado na parada de 2013, quando os Pedros Pretos de Amsterdã desfilaram sem os brincos de argolas douradas. No entanto, em estudo realizado na primeira semana de outubro pelo instituto de pesquisas holandês Een Vandaag, 83% das 27 mil pessoas entrevistadas declararam ser contra as mudanças na aparência do Pedro Preto. Apenas 23% compreendem que pessoas negras considerem o personagem como elemento de discriminação e apenas 8% concordam que o personagem seja um estereótipo negativo.
 

Roterdã

Na última terça-feira (14/10), centenas de bonecos representando Pedro Preto foram espalhados por Roterdã pelo comitê local do Leefbar Rotterdam, partido de direita que governa a cidade. Os bonecos foram amarrados a postes com os dizeres "Queremos ficar", como um protesto contra as mudanças propostas por ativistas para eliminar elementos considerados racistas na aparência do personagem. "Esta discussão sobre uma inocente festa para crianças tem que acabar", declarou Anton Molenaar, porta-voz do partido. "Algumas pessoas hiperpoliticamente corretas devem estar um pouco confusas, pois elas parecem ter esquecido que 15 milhões de pessoas holandesas querem apenas festejar com São Nicolau e Pedro Preto", finalizou.

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