Empresários paulistas tentaram convencer ONG internacional de juristas de que golpe de 64 era legítimo

Diretor do Ipês enviou carta ao filho que morava em Genebra — José Roberto Whitaker Penteado Jr, hoje presidente da ESPM — pedindo-lhe que levasse cópia de reportagem elogiosa da revista 'Fortune' para mudar opinião da CIJ

Felipe Amorim e Rodolfo Machado

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Uma das primeiras manifestações internacionais de repúdio ao golpe de 1º de abril de 1964, a declaração da CIJ (Comissão Internacional de Juristas) sobre a deposição do presidente João Goulart — classificando-a de “inconstitucional, ilegal e injustificável” — incomodou fortemente os patrocinadores do novo governo.

O Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), organização que reunia a elite empresarial brasileira e teve papel notável na desestabilização do governo Jango, enviou à sede da comissão, na Suíça, artigo publicado em uma revista norte-americana em tom elogioso à chamada “Revolução” e também um “embaixador” para tentar convencer a CIJ a mudar de posição.

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Documento obtido por Opera Mundi mostra que José Roberto Whitaker Penteado — um dos diretores do Ipês, empresário do ramo de relações públicas e criador em 1968 da AERP (Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República), órgão que cuidava do setor de comunicação e propaganda governamental — enviou carta ao filho, que à época morava em Genebra, pedindo-lhe que visitasse pessoalmente a sede da CIJ e entregasse “ao diretor ou à pessoa de mais graduação com quem entrar em contato” um pacote com documentos.

“Apresente-se, naturalmente, como meu filho, sabendo que seu pai está perfeitamente integrado na luta democrática que se trava em nosso país”, explica o ipesiano na carta datada de 9 de setembro de 1964 e cedida pelo CPDOC da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que localizou o documento em seu Acervo Paulo Ayres Filho, responsável por reunir também outros relatórios importantes do instituto no período. No rodapé da carta, enviada com cópia para o próprio Paulo Ayres Filho e também para o presidente do Ipês paulista, a assinatura: “Papai”.

Para responder às acusações da CIJ, a ferramenta utilizada pelo Ipês foi um artigo jornalístico da revista norte-americana Fortune, publicado também em setembro de 1964. Em tom apologético, a matéria estampava no título: “Quando executivos viraram revolucionários — Uma história ainda não contada: como os empresários de São Paulo conspiraram para derrubar o governo infectado de comunistas do Brasil” [clique aqui para entender como a Fortune revelou o elo dos empresários paulistas com a embaixada dos EUA para dar o golpe]. Ao enviá-la à CIJ, o objetivo do Ipês era usar a reportagem norte-americana como uma espécie de panfleto e convencer os juristas de que estavam equivocados.

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Reprodução

Whitaker pai e filho, em fotografia tirada em 1953 no escritório da agência de publicidade J.Walter Thompson, em Detroit, nos EUA

O "embaixador" do Ipês

O “embaixador” dos empresários paulistas articulados com a ditadura civil-militar era José Roberto Whitaker Penteado Júnior, jornalista, atual presidente da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e filho do ipesiano. Em entrevista a Opera Mundi, Penteado Júnior leu a carta endereçada a ele e confirmou a tarefa: “Coisa que fiz, sem dúvida nenhuma”. Quanto aos pormenores da visita à sede da CIJ feita há 50 anos, o então jovem jornalista—que também afirma que não compartilhava das posições políticas do pai — tem convicção de que entregou o pacote de documentos, mas diz não ter debatido o assunto com os juristas: “Fui, entreguei e acabou aí”, lembra.

O hoje presidente da ESPM explica que morava em Genebra desde 1962, quando começou a trabalhar em um banco suíço. Em 1964, enquanto seu pai estava engajado com a ditadura civil-militar, Penteado Júnior, então com 23 anos de idade, transferia-se para um emprego na IBM ao mesmo tempo em que se ocupava com os preparativos de seu casamento com uma moça alemã que havia conhecido. “Querido filho, tenho uma missão bastante importante para você, embora saiba que você deva estar com a cabeça cheia devido ao seu casamento”, desculpa-se o pai ao iniciar a carta.

“Eu sei que meu pai apoiava [o golpe]. E sei que eu, como pessoa, era contra”, frisa. Antes de chegar à Europa, Penteado Júnior havia passado alguns anos trabalhando e morando nos Estados Unidos. Na época, no auge da Guerra Fria e início das hostilidades contra o líder cubano Fidel Castro, o jornalista fez parte de uma organização pró-governo cubano chamada Fair Play For Cuba Committee, que, em Nova York, congregava nomes de peso como Truman Capote, Jean-Paul Sartre e Allen Ginsberg.

Crítico ao governo dos Estados Unidos, Penteado Júnior, que à época de sua estadia em Nova York identificava-se como “totalmente da esquerda socialista”, aproximou-se de dois importantes nomes do esquerdismo norte-americano, o economista Paul Sweezy e o jornalista e autor de História da riqueza do homem, Leo Huberman, criadores de uma publicação independente chamada Montlhy Reviewem circulação até hoje.

O "não-artigo" na revista Monthly Review

Em função da afinidade de ideias, o jovem jornalista foi convidado a escrever um artigo em inglês para o periódico, explicando o intrincado cenário político brasileiro no governo Jânio Quadros, que estampara, pouco antes, a capa da revista norte-americana TIME. Enquanto reunia material para produzir o texto, veio a surpresa da renúncia do presidente, em agosto de 1961.

“Derrubou a minha matéria. Não escrevi e nunca foi publicada”, lamenta Penteado Júnior, falando, com descontração, sobre a “frustação jornalística” de seus tempos de esquerdismo. Anos depois, já na Europa, “mudaria” de lado ao visitar em 1963 Hungria e Thecoslováquia  e “ver de perto o outro lado da cortina de ferro”.

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