'Sobrevivemos como condenados da Terra', diz Adlène Hicheur sobre vida de muçulmanos na França

Físico franco-argelino e professor da UFRJ deportado do Brasil em julho fala sobre cotidiano dos muçulmanos sob o estado de emergência na França

Florência Costa

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O ar na França está envenenado. O país que persegue mulheres muçulmanas de burquíni nas praias – em alguns casos obrigando-as a despirem parte de suas roupas diante dos filhos – joga areia em qualquer projeto de reconciliação e de integração de suas minorias. As tentativas de autoridades de cidades costeiras da França de determinar a vestimenta de mulheres muçulmanas nas praias estão embrulhadas no contexto histórico da dominação da França em suas ex-colônias: o desvelamento das mulheres muçulmanas era uma “tarefa” à qual as autoridades francesas se dedicaram com afinco no Norte da África.

– travada, segundo eles, em nome da “ordem pública” e por “preocupações com a segurança” – desvela o DNA opressivo da política antiterror francesa (cujas origens remontam a meados dos anos 1950).

Os recentes ataques de jihadistas no país (em janeiro e novembro de 2015 e em julho deste ano) acenderam a chama do pavor coletivo. Os franceses – de todas as religiões – estão com medo. Mas a reação da França é álcool na fogueira: castigos coletivos e aleatórios aos muçulmanos enterram a ideia de reconciliação, como apontam relatórios das principais entidades de defesa dos direitos humanos.
 

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A poderosa imagem de quatro policiais franceses obrigando uma mulher muçulmana a despir sua túnica de manga comprida serviu como excelente propaganda para os extremistas islâmicos: facilitou enormemente o trabalho de cooptação de jovens revoltados com a discriminação.

Recentemente um político chegou a sugerir que os muçulmanos na França adotem a “discrição” em público. Os abusos do estado de emergência (decretado após os ataques de novembro de 2015 em Paris e arredores, que mataram 130 pessoas) são denunciados por entidades de defesa dos direitos humanos.

Dave Collier / Flickr CC

Mulher muçulmana em Marselha; político francês chegou a sugerir que os muçulmanos no país adotem a 'discrição' em público 

São centenas de prisões domiciliares sem explicação e invasões de residências no meio da noite. As vítimas destes abusos contam que a polícia entra em suas casas, restaurantes e mesquitas, quebram seus pertences e aterrorizam crianças. Muitos têm a sua liberdade de ir e vir restrita ao extremo, o que os impedem de manter empregos. As consequências são desastrosas para as famílias.

Neste ponto, Adlène Hicheur tem sua própria experiência para contar. Ele tem sentido dificuldade de se concentrar sobre qualquer atividade devido à pressão permanente de estar presente nos três horários das assinaturas [na delegacia]: de manhã, de tarde e de noite. “Estou tentando participar de reuniões e discussões virtuais com colegas. Estou tentando progredir nas novas linhas de pesquisa que eu planejei quando estava no Rio, mas as exigências da prisão domiciliar e o estresse desta situação odiosa me impedem de focar”, comentou o físico, que ainda colabora, mesmo de casa, com a UFRJ e com o CERN (Organização Europeia para Pesquisa Nuclear). Mesmo estando no olho do furacão, ele conseguiu enviar, há um mês, um artigo sobre um estudo que fez pela UFRJ em colaboração com o CERN para uma das mais importantes revistas acadêmicas de física do mundo (ilustração do diagrama com a legenda explicativa).

“A exigência de três assinaturas por dia é um assassinato sócio-profissional maquiavélico”, concluiu. “Há casos de famílias inteiras que não tem como se sustentar devido à prisão domiciliar do marido, por exemplo, que perdeu o seu trabalho”, lembrou.

“A França tem a responsabilidade de promover a segurança pública e tentar evitar novos ataques, mas a polícia tem usado os poderes do estado de emergência de uma forma abusiva, discriminatória e injustificada”, diz Izza Leghtas, da Human Rights Watch, entidade que divulgou um relatório sobre o assunto. “Os abusos traumatizam famílias e mancham reputações, fazendo com que se sintam cidadãos de segunda categoria”, completou. As pessoas entrevistadas para a realização deste estudo expressaram um forte sentido de injustiça, abandono, raiva e desconfiança em relação às autoridades francesas. O resultado desta política antiterrorista é a alienação e estigmatização de pessoas que poderiam desempenhar um papel importante de prevenção da radicalização, alertam os especialistas em direitos humanos.

“Tenho lido notícias de casos horríveis de prisão domiciliar. Há o exemplo de uma pessoa cega que recebeu esta punição durante meses. Houve também o caso de outra pessoa cujo endereço de prisão domiciliar não era o da sua casa. Esta pessoa teve que dormir no carro durante meses”, contou Hicheur.

Ele conhece pessoalmente o caso de uma mãe muçulmana que ouviu de responsáveis da escola de suas duas filhas que elas não teriam mais a opção vegetariana na merenda. Os muçulmanos devotos não comem porco e carne que não seja halal (os animais são abatidos de forma específica, como manda a tradição).

“Se uma criança fala algo tido como contrário à cultura dominante, pode ser alvo de um relatório que terá como destino final a polícia, os serviços sociais e serviços do Ministério do Interior. A família desta criança passa a ser vigiada e medidas podem ser tomadas contra ela. Houve vários casos de crianças tiradas à força das famílias e colocadas em centros especializados ou ‘famílias de acolhimento’”, relatou o cientista. O chamado “risco de radicalização”, apontado para justificar estas medidas, é muito vago, segundo Hicheur. “As mães estão quase loucas agora. Você pode ser julgado ‘praticante demais’ e cair no inferno”, contou.

Frantz Fanon (Wikimedia Commons)

Há muitas famílias que chegaram à conclusão de que não é mais possível viver nesse ambiente e se preparam para uma vida em outro país. Mas na véspera da migração, os serviços pegam os documentos e impedem a saída de algumas delas do território francês, relata ele. “Qual é o objetivo dessa histeria? O meu caso segue esta lógica. Eles dizem: ‘Não queremos que você encontre a felicidade em nenhum lugar do mundo’.”

“Não é a presença da pessoa no território que é um problema, é a pessoa em si que é o objeto da destruição. Aqui o muçulmano não tem sentimentos, sonhos, amores. Ele é tratado como um sub-homem”, protestou, usando o termo que Jean-Paul Sartre empregou no prefácio que escreveu para o livro “Os Condenados da Terra”, de Fanon. Sartre se referia à desumanização do colonizado durante a guerra da Argélia e à criação de um sub-homem pelo sistema colonial.

Iman Amrani, uma jornalista argelina-britânica que vive em Londres, conta que ela é frequentemente lembrada de que o histórico colonial da França na Argélia não é mais relevante e que as coisas evoluíram. “Mas a minha própria experiência me diz o contrário”, conta ela em um artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian. Em uma festa em Paris, um rapaz perguntou a ela sua origem. Quando a jornalista respondeu, ele reagiu: “Não se esqueça de que nós fomos os donos de seu país”. Ela ouviu também de uma outra pessoa que se a França não tivesse colonizado a Argélia sua família estaria até hoje sentada no chão e comendo com as mãos.

Adlène Hicheur lembra que a origem das ideologias racistas do colonialismo do século 19 é francesa: o pensamento de Conde de Gobineau (1816-1882) sobre as “desigualdades das raças humanas". Ele foi uma inspiração para os nazistas alemães. Hicheur cita o poeta Aimé Césaire (1913-2008), para exemplificar esta dominação. Em seu “Discours sur le Colonialisme” (1950), Césaire disse: "Estou falando de milhões de homens a quem foram ensinados inteligentemente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a submissão, o desespero".

Desastre do método francês

O sociólogo e antropólogo Didier Fassin, diretor na Escola dos Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, Paris), explicou em sua obra “La force de l'ordre. Une anthropologie de la police des quartiers” (2011) como ocorre a perseguição das pessoas de origem norte-africana ou árabe pelas forças de segurança da França. “Ele descreveu, já em 2011, as noções de castigo aleatório e punição coletiva aplicados pelo poder francês contra os muçulmanos”, resume Hicheur.

“Etiquetado como ‘cliente’ potencialmente perigoso, ele se torna propriedade da polícia, sujeito ao uso discricionário das práticas coercitivas físicas, sendo preso, algemado e despido”, escreveu Fassin, que procura revelar o viés racista da sociedade e do Estado francês. Ele também é um crítico da lei que implantou o estado de emergência. “As pessoas sob prisão domiciliar raramente sabem por que estão sendo castigadas”, diz o antropólogo. É exatamente o caso de Adlène Hicheur.

As injustiças diárias experimentadas pelas minorias – enquanto a maioria permanece silenciosa – vão dar margem a um crescente ressentimento, explica Fassin. Segundo ele, por décadas a França tem rejeitado os imigrantes e seus filhos, especialmente os que vieram das ex-colônias do Norte da África, discriminados no mercado de trabalho e estigmatizados por políticos. Estes jovens não rejeitam os valores republicanos, mas exigem que esses sejam estendidos a eles, explica o estudioso. Para eles, o Estado é opressor e injusto.

“Na França a gente sobrevive como ‘condenados da Terra’”, lamentou Hicheur. Frantz Fanon disse que cada geração tem a sua missão. Eu pergunto ao físico: “que missão caberia à sua geração?” Ele diz que é difícil responder essa questão no contexto da globalização dos meios da opressão. “Pouca gente entende que estamos num período bem mais violento do que na chamada época da colonização”, afirma. Antigamente, segundo ele, era possível achar um refúgio para viver em paz: “Hoje em dia, o mundo inteiro se tornou um campo de batalha”. O veneno foi globalizado.

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