Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Em uma casa simples no centro da cidade de Qom, no sul de Teerã, a reportagem de Opera Mundi foi recebida pelo xeique Mohammad Haji Abolghasem Dulabi. Em meio a livros e tapetes persas, o clérigo de 51 anos, especialista no Alcorão, falou sobre a guerra travada por Washington e Tel Aviv, a questão nuclear e a força do povo iraniano.

A trajetória de Haji Abolghasem revela uma figura de profunda erudição e influência no cenário religioso e político do Irã.

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Com graduação em Seminários de Nível 4 e um doutoramento em Ciências Corânicas, acumulou posições de destaque, como representante na Assembleia de Peritos da província de Zanjan, órgão crucial para a escolha e supervisão do líder supremo, e chefe do Centro de Relações entre Governo e Clero.

Sua formação, que transita entre estudos religiosos e acadêmicos, e o seu contato direto com o aiatolá Ali Khamenei, evidenciam uma autoridade que permeia entre o conhecimento teológico e a prática política, tornando-o uma voz singular para discutir a complexa relação entre percepção, mídia e identidade nacional.

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Em sua explanação, Abolghasem recorre à filosofia da interpretação para demonstrar como a compreensão dos fenômenos é moldada pela percepção cultural e midiática de cada indivíduo. Ao contrastar a visão ocidental distorcida sobre o Irã com a realidade vivida pelos iranianos, ele denuncia a atmosfera negativa criada pela mídia estrangeira, que, segundo ele, frequentemente retrata o povo como “atrasado” ou “terrorista”.

Leia a entrevista completa:

Opera Mundi: Depois de uma onda de protestos no início do ano, como descreve o momento que o Irã vive face às pressões dos Estados Unidos e de Israel?

Haji Abolghasem Dulabi: tudo depende da visão de quem observa. Quem está sob a influência da mídia ocidental cria uma interpretação sobre o povo iraniano. Mas quem vive aqui tem uma realidade completamente diferente. Nós sabemos que existe uma atmosfera extremamente negativa contra nós no Ocidente.

Muitas vezes nos apresentam como um povo atrasado, terrorista e selvagem. Mas o que o povo iraniano realmente diz é: “queremos apenas alcançar os nossos direitos. Não queremos cometer injustiça contra ninguém, e também não permitiremos que ninguém seja injusto conosco”.

Você menciona a influência da mídia. Pode nos dar um exemplo concreto de como a percepção difere da realidade?

A mentalidade da pessoa influencia profundamente a maneira como ela compreende os fenômenos. Um dos fatores que mais influenciam nossa compreensão é o ambiente criado pelos meios de comunicação, que moldam e dominam nossa forma de pensar.  Está vendo essa pedra? (Pega uma pequena pedra usada pelos muçulmanos durante as orações).

Para alguém que vem da Europa, isso é apenas um pedaço de terra endurecida. Mas para um xiita apaixonado pelo imã Hussein (neto do profeta Maomé), esse pedaço de terra é solo retirado do túmulo dele. Essa é a diferença.

A questão nuclear é um dos pivôs do conflito. O Irã busca a bomba atômica, como acusam os Estados Unidos e Israel?

Acreditamos que a energia nuclear é benéfica para todos. Mas a bomba atômica não é boa para ninguém. Os Estados Unidos dizem: “nós podemos ter bombas atômicas e energia nuclear. O Irã não pode ter nem bombas nem energia nuclear”. Nós dizemos que isso não é justiça. Acreditamos que todos os seres humanos são iguais. Além disso, nosso líder, o aiatolá Ali Khamenei, sempre acreditou que não precisamos de bomba atômica. Existe uma coisa mais forte que a bomba atômica no nosso país: o povo.

Você foi membro da Assembleia dos Peritos e conviveu com o líder supremo. Como descreve a liderança do aiatolá Ali Khamenei?

Durante oito anos fui membro da Assembleia. Tive muitos encontros com ele. O líder supremo sempre procurou promover as virtudes morais entre o povo com muita honestidade e coragem, focando sempre na ajuda aos mais necessitados. Ao longo dos cinquenta anos após a Revolução (de 1979), sempre que países vizinhos precisaram de ajuda, o povo iraniano enviou auxílio.

Quando houve enchentes no Paquistão, enviamos ajuda. Quando Israel atacou Gaza e destruiu as casas dos palestinos, nosso líder pediu que toda a população ajudasse aquele povo que estava sob ataque. Se o nosso país lançou mísseis contra Israel, foi para defender o povo oprimido de Gaza.

Xeique Mohammad Haji Abolghasem Dulabi durante entrevista em sua casa, na cidade de Qom, no sul do Irã
Stefani Costa / Opera Mundi

Sobre a proposta do líder supremo Ali Khamenei, e agora de seu sucessor, Mojtaba Khamenei, para o conflito entre Palestina e Israel?

Nosso Líder apresentou uma proposta clara: todos os habitantes originais da Palestina, muçulmanos, cristãos, judeus ou seguidores de qualquer outra religião, deveriam votar juntos para decidir qual governo desejam. Essa ideia foi extraída do Alcorão. Deus ordena ao Profeta que pratique a justiça. Todas as leis do Islã existem para estabelecer a justiça entre homens e mulheres, entre diferentes religiões e diferentes povos.

Há divergências internas no Irã sobre a negociação com os Estados Unidos. Você concorda com a posição do novo líder supremo, que rejeitou o acordo, mas permitiu que o presidente Masoud Pezeshkian negociasse?

No nosso país existe liberdade e as pessoas podem dar suas opiniões. Existem dois grupos: um que diz que não se deve negociar diretamente com os Estados Unidos e Israel, por acreditar que não há resultado, e outro que acredita na diplomacia para que o Irã consiga restabelecer os seus direitos, como os ativos congelados e o fim dos embargos.

Naturalmente, nosso líder foi contrário às negociações nucleares, mas o presidente disse que era possível chegar a um acordo. Por isso, nosso líder deu a permissão. É natural que existam diferenças de ideias, mas o líder supremo permite que o presidente atue, e veremos o resultado. Acima de tudo, existe uma unidade nacional.

Mencionou o não cumprimento do acordo. Como o Irã vê a situação no Líbano?

O Irã está tentando chegar a um resultado, mas os Estados Unidos não respeitam o acordo. Por isso, o nosso país também se vê no direito de não cumprir o que foi assinado. Nós tentamos fazer com que os Estados Unidos voltassem para a mesa de negociação.

Mesmo que muitos aqui não confiem nos Estados Unidos há outros que entendem ser possível restabelecer os direitos do povo iraniano através da diplomacia. O nosso propósito é único, mas há várias maneiras de se chegar até a solução.

Sobre o não cumprimento do acordo, especialmente na questão libanesa, a República Islâmica do Irã decidiu atacar várias bases militares dos Estados Unidos em diferentes países, como Bahrein, Omã, Kuwait e Jordânia.

O principal objetivo dos Estados Unidos com os ataques e sanções era provocar uma mudança de regime e acabar com a Revolução Islâmica. Por que você acha que o sistema conseguiu resistir?

A causa da nossa resistência é que não podemos aceitar a opressão. Na nossa cultura e visão islâmica, não podemos ficar em silêncio contra os inimigos. O imã Hussein é um exemplo para nós e para as pessoas livres no mundo. Ele e seus 72 companheiros lutaram contra 30 mil pessoas (Batalha de Karbala).

Nosso povo aprende todos os dias com ele que tem que resistir. Nosso sistema foi criado com a ajuda do povo, e eles têm voz na sociedade. Os Estados Unidos não são capazes de quebrar esse sistema. Não existe nenhuma força como a força do povo. Vocês viram: há quatro meses, perdemos nosso líder, e milhões de pessoas tomaram as ruas para se despedir.

Os Estados Unidos não podem chegar a uma vitória com mísseis ou bombas, assim como Israel não pode vencer bombardeando os povos da Palestina. Temos certeza de que vamos chegar a uma vitória.