Terça-feira, 3 de março de 2026
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Fundada por imigrantes judeus progressistas em 1946, a Casa do Povo, localizada no Bom Retiro, bairro tradicional do centro de São Paulo, carrega décadas de história de resistência política e de acolhimento às mais diversas comunidades instaladas na cidade. A instituição abriu oficialmente as suas portas em 1953, após uma campanha de arrecadação de fundos, e definiu como dois de seus objetivos iniciais reunir as associações judaicas antifascistas do Brasil e homenagear as vítimas do Holocausto. 

“(A Casa) nasceu para ser monumento vivo: um lugar onde lembrar dos mortos é cuidar dos vivos”, declarou o diretos Benjamin Seroussi a Opera MundiSegundo ele, desde então, a instituição promove atividades com base nesse princípio.

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Seroussi aponta que o trabalho da entidade vai “da luta antifascista à resistência a ditadura, do apoio às vanguardas artísticas à solidariedade com movimentos sociais (secundaristas, MST, movimento passe livre, etc.) passando pela defesa da diversidade do bairro e outras tantas frentes de atuação que sempre têm a cultura como cerne”.

O diretor também comentou sobre um dos temas mais urgentes no âmbito global: o genocídio promovido pelo Estado de Israel na Palestina.

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Segundo ele, a Casa do Povo surgiu de uma frente antifascista que pretendia unir diversas correntes, incluindo as antissionistas, não sionistas e até as chamadas “sionistas de esquerda”. Entretanto, no decorrer dos anos, a organização se afastou do sionismo. “A Guerra Fria embaralhou o jogo e ideologias mudaram de lado político, revelando facetas até então abafadas”, explicou Seroussi, para logo citar, entre essas facetas, “a dimensão colonial do sionismo”.

“Sabemos que as lutas e as formas de opressão estão articuladas em si: não podemos falar do roubo de terras indígenas no Brasil sem falar da ocupação da Palestina; da violência policial nas quebradas sem falar da atuação dos colonos na Cisjordânia com o apoio do exército; do extrema direita de lá, sem falar da de cá”, disse.

O posicionamento da Casa do Povo tornou-se mais evidente após o dia 7 de outubro de 2023, com a intensificação dos ataques israelenses à Faixa de Gaza. Para Seroussi, foi mais um momento para “atualizar sua história” e mostrar solidariedade à luta palestina, sem ignorar as divisões internas na comunidade judaica

“O que nos mobiliza hoje é trabalhar para que a Casa do Povo seja uma ponte entre a comunidade judaica e movimentos palestinos”, declarou, e logo enfatizou: “nunca mais é nunca mais para nenhum povo”.

A instituição também tem sua história marcada pela resistência à ditadura militar, e ela se mantém viva por meio de atividades promovidas no local, tais como treinos de boxe, práticas de coral, atendimentos de psicanálise, entre muitas outras.

Atualmente, a Casa do Povo conta com 134 associados – majoritariamente judeus –, 19 grupos residentes e atrai um público diverso, incluindo imigrantes bolivianos, coreanos e ativistas de movimentos sociais.

A principal contribuição da Casa do Povo hoje, segundo Seroussi, é demonstrar que identidades específicas, como a judaica, podem ser pontos de partida para alianças amplas e usar a memória não como culto ao passado, mas como alavanca para a solidariedade no presente. 

Entre coletivos artísticos, movimentos autônomos, iniciativas comunitárias e associações do Bom Retiro, a Casa do Povo reúne projetos que fazem uso do espaço e participam de seu funcionamento
Reprodução/Casa do Povo

Leia a entrevista na íntegra:

Opera Mundi: A Casa do Povo foi inaugurada em 1953 por uma comunidade judaica progressista. Quem fazia parte desse grupo e como essa origem específica – imigrante, judaica e de esquerda – moldou a missão inicial do lugar?

Benjamin Seroussi: A Casa do Povo foi fundada em 1946, no fim da Segunda Guerra Mundial, pela comunidade judaica chamada de “progressista”. Eram conhecidos como os “roite” (em ídiche, língua falada por este grupo de migrante), o que significa “os vermelhos”, apontando para o fato que reuniam comunistas, anarquistas, socialistas e social-democratas.

O objetivo inicial da Casa do Povo era duplo: por um lado, reunir as associações judaicas antifascistas existentes; por outro, homenagear as vítimas do genocídio nazista. A Casa do Povo foi criada para contemplar essas duas necessidades. Nasceu para ser monumento vivo: um lugar onde lembrar dos mortos é cuidar dos vivos. O edifício abriu em 1953 depois de uma grande campanha de arrecadação.

Desde então, a Casa do Povo tem atuado para manter viva e atualizar essa sua missão inicial, a nível local, regional e internacional: da luta antifascista à resistência a ditadura, do apoio às vanguardas artísticas à solidariedade com movimentos sociais (secundaristas, MST, movimento passe livre, etc.) passando pela defesa da diversidade do bairro e outras tantas frentes de atuação que sempre tem a cultura como cerne.

Hoje, quem faz parte da Casa do Povo?

Depende do que significa “fazer parte”. Hoje a Casa do Povo é uma comunidade relativamente ampla e diversa. São 134 associados e associadas, 300 amigos e amigas, 19 grupos residentes, dezenas de usos espontâneos por ano e 25 mil visitas anuais. Se as pessoas associadas são na sua maioria da comunidade judaica, as demais pessoas e os demais grupos, não. A Casa do Povo é hoje habitada por pessoas do território (em particular, imigrantes ligados às comunidades boliviana, peruana, coreana), iniciativas no campo das artes (dança, performance, design gráfico) e grupos de ativistas (direito à cidade, luta pela moradia, entre outras).

Durante a ditadura militar, a Casa do Povo foi um ponto de resistência. Como essa história de luta é preservada e manifestada nos dias de hoje?

A história da Casa do Povo durante a ditadura é mais um momento em que a missão original da instituição foi ativada e atualizada com bastante coerência ética e política. Portanto, esta época é lembrada na Casa do Povo dentro de uma perspectiva maior. O que importa é que as indagações seguem as mesmas: como promover uma cultura emancipatória hoje? Como garantir que a arte seja um ferramenta de transformação social? Quais alianças tecer para seguir adiante? Como manter viva a tradição judaica revolucionária?

De forma concreta, o relançamento da revista Nossa Voz, em 2014 – publicação que funcionou próxima da Casa do Povo de 1947 a 1964, quando foi fechada pela ditadura – é um bom exemplo de retomada dessa memória. Da mesma forma, a reforma do teatro TAIB, que foi palco de muitas peças ligadas à luta contra a ditadura, é também um bom exemplo de como renovar esta história.

De forma geral, acredito que o fato da atuação da Casa do Povo seguir em sintonia com seus valores seminais é a melhor forma de honrar o seu passado e sonhar com outros mundos possíveis.

No site da Casa do Povo, se diz que a “instituição sobreviveu aos anos de chumbo mas, a partir dos anos 80, enfrentou uma crise institucional que acompanhou o relativo declínio da região central de São Paulo”. O que aconteceu?

Nos anos 80, a Casa do Povo perdeu o inimigo contra o qual ela se definia: a ditadura. Paralelamente, a relação com o partido comunista e com as macro-ideologias da esquerda foram se esgarçando, o que levou a um enfraquecimento da sua capacidade de articulação política. Por fim, muitas pessoas da comunidade judaica que estavam ligados à Casa do Povo mudaram de bairro, o que isolou ainda mais a instituição, levando-a a uma crise institucional profunda.

De forma geral, nos anos 80, 90 e 2000, poucas pessoas queriam saber de um espaço que tinha se tornado um lugar de memória da luta contra a ditadura. Mas isso muda nos anos 2010, com o memorial da resistência, a Comissão da Verdade, as manifestações de junho… As mesmas razões que tinham tornado a Casa do Povo anacrônica, as tornam contemporânea novamente.

Como foi o processo de reestruturação?

Foi longo e ainda está em curso. Tivemos que reconstruir a base associativas, retomar o capital social e simbólico da instituição, atualizar a sua missão, criar novos canais de captação e de comunicação, retomar relações com a comunidade judaica, com movimentos sociais e com a cena cultural, profissionalizar a sua equipe, redefinir sua governança, atualizar sua infraestrutura.

O que me parece mais interessante é que este trabalho de reestruturação aconteceu enquanto a Casa do Povo funcionava, garantindo a sua utilidade social. Portanto, foram anos em que conseguimos simultaneamente manter as portas abertas e reinventar o que isso significava. É como se estivéssemos testando em escala real e de forma contínua a Casa do Povo que queríamos ter. Neste sentido, somos um eterno protótipo. Acredito que a nossa história nos pede para ser isso: o que o arquiteto húngaro Yona Friedman chamava de “utopia realizável”.

Como a Casa do Povo passou a se posicionar a partir de 7 de outubro de 2023, quando Israel intensificou seus ataques e genocídio contra os palestinos? E como a comunidade judaica que ocupa esse espaço recebeu ou lidou com esse posicionamento?

Para te responder, é importante contar mais sobre a relação da Casa do Povo com o sionismo. Como muitos dizem, isso não começou no dia 7 de outubro.

A Casa do Povo nasceu de uma frente antifascista que pretendia unir correntes diversas. Na época, o sionismo não era uma linha de corte tão relevante. Basta lembrar que a União Soviética apoiou a criação do Estado de Israel. Era possível, então, reunir correntes antissionistas, não sionistas e sionistas de esquerda. Os fundadores da Casa do Povo queriam justamente juntar pessoas. A linha de corte relevante era ser antifascista e de esquerda. Hoje, poucas pessoas sabem que havia um sionismo de esquerda muito forte na base de Israel. A Guerra Fria embaralhou o jogo e ideologias mudaram de lado político, revelando facetas até então abafadas, entre as quais a dimensão colonial do sionismo.

Neste sentido, com o passar dos anos, a Casa do Povo foi se afastando do sionismo – e nem estou falando da sua versão messiância, que domina o cenário político hoje em Israel. Mesmo assim, esta questão nunca esteve no centro de atuação da instituição. A Casa do Povo sempre focou nas lutas brasileiras locais: da luta contra a ditadura às lutas contemporâneas. Porém, sabemos que as lutas e as formas de opressão estão articuladas em si. Não podemos falar do roubo de terras indígenas no Brasil sem falar da ocupação da Palestina; da violência policial nas quebradas sem falar da atuação dos colonos na Cisjordânia com o apoio do exército. Não podemos falar da extrema direita de lá sem falar da de cá.

Posso dar um exemplo bem conhecido, mas existem muitos outros. Em 1982, realizamos um ato de denúncia de Sabra e Chatila, o massacre realizado por milícias cristãs libanesas com a cumplicidade ativa de Israel. Em 2023, foi mais uma ocasião de atualizar nossa história e mostrar nossa solidariedade às lutas palestinas, sem abafar as divisões que existem na nossa comunidade no que diz respeito ao que Israel representa.

Queremos gerar transformações reais na nossa comunidade. Para isso, é importante saber que estamos lidando com pessoas de diversas gerações, com uma herança complexa, traumática e recente. É complexo, mas não é complicado: nunca mais é nunca mais para nenhum povo! Já fizemos atos públicos neste sentido, participamos de diversas manifestações, organizamos um seminário relacionado a essa questão, tivemos encontros com representantes do poder público e publicamos uma série de artigos para adensar o pensamento crítico no que diz respeito a isso. Mas tudo parece insuficiente perante a violência descomunal em Gaza.

Em resumo, tem sido mais um momento de transformação da Casa do Povo e da sua comunidade. O que nos mobiliza hoje é trabalhar para que a Casa seja uma ponte entre a comunidade judaica e movimentos palestinos. Tem muito ainda para ser feito neste sentido.

Nos últimos anos, o bairro do Bom Retiro passou por muitas transformações. Como a Casa do Povo se relaciona com o bairro atual, que é composto por novos moradores, comércios coreanos e bolivianos, entre outros detalhes, mantendo seu vínculo com a história?

Entendemos que o que chamamos de “Povo da Casa” nunca foi apenas o “povo judaico”. Ao contrário, se judeus e judias eram os outros na Europa nos séculos passados, uma casa judaica tem que ser aberta à alteridade radical. Há um devir nordestino, coreano, andino da Casa do Povo, para citar alguns dos grupos migratórios que moram no bairro. De forma concreta, a Casa do Povo acolhe iniciativas desses grupos.

Como tudo, isso não vem sem tensões e conflitos. Vale citar, por exemplo, o projeto de transformação do bairro em um k-town desenvolvido pelo Consulado da República da Coreia (do Sul). Este projeto foi lido pela Casa do Povo e por outras instituições do território como uma iniciativa que iria congelar o bairro e transformá-lo em um pólo exclusivamente turístico e comercial. Por isso, pensando na diversidade característica do Bom Retiro, propusemos um projeto alternativo.

Um outro exemplo é a chegada da cidade administrativa, que tem levado à expulsão da favela do Moinho, ao fim das políticas de redução de danos, ao fechamento do Teatro de Contêiner, entre outras ações que visam a gentrificação do nosso território. Não é simples, nem ganho, mas é fundamental. Estamos trabalhando hoje para tecer alianças com movimentos parceiros em outros bairros que passam por situações semelhantes: Bexiga, Liberdade, Barra Funda.

Acho que a assembleia que organizamos para Macaé Evaristo foi um bom exemplo disso tudo.

Quem é o público da Casa hoje?

Costumamos falar que não temos público alvo, mas uma comunidade em constante construção. Essa comunidade é diversa no que diz respeito a questões de classe, de raça, de idade, de gênero e de origem. Quem circula pelo prédio sente isso na pele. Muitos alunos de boxe são jovens pretos. Os coralistas são principalmente mulheres de idade avançada – judias e coreanas. Muitos dos movimentos que usam a instituição estão vinculados aos movimentos negros, LGBT, entre outros.

Qual é a principal contribuição da Casa do Povo para a cidade de São Paulo?

A Casa do Povo traz três contribuições relevantes.

Em primeiro lugar, ela que nasce de um grupo muito específico, mostra que essas especificidades não precisam ser barreiras. Ao contrário, a Casa do Povo mostra que as identidades podem ser pontos de partidas e não de chegadas. São pontos de partidas para tecer alianças amplas.

Em segundo lugar, a Casa do Povo defende a ideia que os espaços de arte podem ser mais do que espaços expositivos ou de apresentação de espetáculos. Podem ser pequenas “utopias realizáveis” para parafrasear o que o arquiteto húngaro Yona Friedman dizia.

Em terceiro lugar, na Casa do Povo a memória é uma importante alavanca para agir no presente. A Casa do Povo não é um lugar saudosista que olha para o passado como algo perdido, mas um espaço que mantém a memória viva e a transforma em um exercício de solidariedade no presente. Todo ano, no dia 19 de abril, quando comemoramos o Levante do Gueto, nos perguntamos quais são os levantes hoje e como nos solidarizar a eles. Como falar de outros levantes e dos levantes dos outros? Como traduzir essa palavra em outras línguas: “soulevement” em francês, “uprisings” em inglês, “intifada” em árabe?

A Casa do Povo não está sozinha nessas contribuições. A Ocupação 9 de Julho, a Aparelha Luzia ou a Aldeia Kalipety são iniciativas muito distintas entre si, mas que nos parecem atuar de forma parecida no entendimento da identidade, do papel da cultura e do uso da memória.

Todas mostram que outros mundos são possíveis.

Quais são os desafios e aspirações para o futuro da instituição? Há algum projeto concreto ou algum direcionamento que gostariam de tomar?

No Brasil, o futuro costuma ser uma ideia nunca realizada em nome da qual se apaga o passado para alguns poucos tirarem proveito no presente. Por isso, temos certo receio com essa ideia. Nosso objetivo é ver no presente quais são as sementes para outros modos de viver. E são muitas! Fazemos isso à luz da nossa história, claro.

Neste sentido, hoje, nossos projetos são bastante pragmáticos: melhorar as condições de uso do espaço para receber mais grupos, reformar o teatro para manter sua história viva, reforçar nossa articulação política para garantir nossa relevância. Tudo isso sem crescer demais. Achamos mais interessante proliferar do que crescer. É melhor nos aliar com outras instituições semelhantes à Casa do Povo do que ter uma Casa do Povo maior.

O resto terá que ser inventado.