Delcy Rodríguez ‘não é presidente interina legítima’, afirma opositor venezuelano
Carlos José León, residente no Brasil desde 2018, contraria posição da Casa Branca e afirma que Maria Corina ‘tem liderança consistente, mas não controla Forças Armadas’
Em meio ao novo cenário político aberto na Venezuela após o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, Opera Mundi entrevistou Carlos José León, cientista político venezuelano e crítico dos governos bolivarianos desde Hugo Chávez (1999-2013).
Para “restaurar a soberania popular”, segundo ele, o país precisa de “eleições realmente livres, auditáveis e sem controle do regime, libertação de presos políticos, fim da perseguição judicial, reestruturação do sistema eleitoral e garantias internacionais de transparência e segurança”.
O analista político descreve o sequestro do presidente Nicolás Maduro como “captura de um chefe de regime acusado por crimes de alcance internacional”: “narcotráfico, financiamento de grupos armados e operações ilegais no exterior, além de violações sistemáticas dos direitos humanos”.
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León passou a estudar de forma sistemática a realidade da Venezuela a partir de sua imigração. Realizou três pós-graduações e escreveu o livro Internacional Castro-Chavista, publicado pela Editora UICLAP. Admite que Machado e seu grupo político não representam a totalidade das forças opositoras ao chavismo e “não controlam as Forças Armadas nem o aparato coercitivo do Estado, o que torna inviável qualquer transição de poder sem reformas profundas”.
Leia a entrevista completa com o cientista político venezuelano Carlos José León.
Opera Mundi: Como o senhor vê a situação atual na Venezuela?
Carlos José León: Trata-se da consolidação de um Estado autoritário com fachada institucional, sustentado por uma combinação de controle militar, repressão política e mecanismos legais que estrangulam a dissidência. É importante também relatar que membros da oposição fazem parte de uma estrutura de negócios que também fortalece o regime.
Por outro lado, normas como a chamada “Lei contra o Ódio” têm sido usadas para criminalizar a crítica e punir vozes dissidentes com penas severas, ao ponto de organizações como a ONG Espacio Público registrarem dezenas de casos de perseguição com base nessa legislação. Instrumentos como os CLAP (sigla em espanhol para Comitês Locais de Abastecimento e Produção), os coletivos armados e unidades de segurança com atuação paramilitar funcionam como dispositivos de vigilância e coerção ideológica.
A economia em colapso, o êxodo em massa e a desmontagem institucional não são efeitos colaterais, mas resultados diretos de um projeto político que trocou soberania e bem-estar social por sobrevivência no poder, inclusive entregando setores estratégicos da economia nacional a interesses estrangeiros.
A recente saída de Nicolás Maduro do poder altera o cenário político em termos simbólicos, mas não elimina a cautela em relação à cúpula político-militar, amplamente acusada por organismos internacionais de violações sistemáticas de direitos humanos, corrupção e repressão.
Qual é a sua opinião sobre o sequestro do presidente Nicolás Maduro?
Não se trata de um sequestro, mas da captura de um chefe de regime acusado de crimes de alcance internacional. Maduro é apontado por diferentes instâncias e relatórios como líder de uma estrutura que utiliza o Estado venezuelano como plataforma para narcotráfico, financiamento de grupos armados e operações ilegais no exterior, inclusive deve responder a denúncias no Tribunal Penal Internacional (TPI) pelo seu papel contra as violações sistemáticas de direitos humanos cometidas durante seu governo.
A ação também atende a compromissos políticos de Donald Trump com sua base e com a narrativa hemisférica de combate ao narcoterrorismo, mas isso não anula o caráter necessário da operação.
Casos recentes reforçam esse contexto. O ex-tenente venezuelano Ronald Ojeda, exilado político no Chile, foi sequestrado e assassinado em fevereiro de 2024, em uma operação vinculada ao grupo Tren de Aragua. As autoridades chilenas apontam a existência de conexões com agentes ligados ao Estado venezuelano e mantêm uma investigação em curso, inclusive com cooperação internacional.
O atentado contra o pré-candidato presidencial colombiano Miguel Uribe, ocorrido em junho de 2025, também ilustra o ambiente de violência política regional, no qual opositores e críticos de regimes autoritários se tornam alvos, especialmente quando se confirma que um dos autores materiais do crime, o guerrilheiro conhecido como “Zarco Aldinever”, foi morto posteriormente em território venezuelano, segundo o próprio Ministério da Defesa da Colômbia.
Se um chefe de cartel é capturado, ninguém chama isso de sequestro. Com Maduro, a lógica é a mesma.
Quais são as principais reivindicações que o senhor listaria?
A principal reivindicação da oposição é a restauração da soberania popular. Isso passa por eleições realmente livres, auditáveis e sem controle do regime, pela libertação de presos políticos, pelo fim da perseguição judicial, pela reestruturação do sistema eleitoral e por garantias internacionais de transparência e segurança.
Sem essas condições, qualquer eleição é apenas teatro autoritário.
A postura da oposição precisa ser estratégica, unificada e realista. Não basta protestar. É necessário pressionar internamente, negociar com firmeza no plano internacional, ampliar o isolamento político do regime e trabalhar para que atores como Donald Trump e Marco Rubio incorporem essas demandas nas suas agendas sobre a Venezuela (o grande desafio disso é que líderes representativos desses partidos, embora também acusados de serem parte do jogo do regime, encontram-se fora da Venezuela).
O próprio Trump já indicou que a cooperação com setores do chavismo, como Delcy Rodríguez, faz parte de um plano maior para evitar que a Venezuela se transforme em um novo Iraque. Creio que isso revela uma lógica de contenção geopolítica, não de legitimação democrática, que corresponde mais aos líderes opositores venezuelanos do que ao próprio Trump.
Como o senhor avalia os Estados Unidos preferirem, ao menos por ora, manter relações com a presidente interina Delcy Rodríguez?
Delcy Rodríguez não é presidente interina legítima, mas uma peça central da engrenagem chavista, associada à repressão, à corrupção e à diplomacia paralela do regime.
Quando os Estados Unidos mantêm canais de comunicação com ela, isso não significa reconhecimento político, mas gestão de riscos geopolíticos, onde certamente também podem entrar interesses de elites nacionais e opositores ao Maduro, mas que se entenderiam bem com ela, em troca de lugar na mesa, sem beber da mesma ideologia. Washington negocia com quem controla o território e as estruturas de poder, não necessariamente com quem tem legitimidade popular. Contudo, é preocupante o chavismo neste ponto estar calado diante o entreguismo de Delcy, ao abandonar a “luta revolucionária” por um “entendimento bilateral” com quem eles dizem ter “sequestrado” o seu líder.
Essa lógica se assemelha à posição expressada por Celso Amorim, assessor especial da Presidência do Brasil, ao afirmar que o país não reconhece governos, mas Estados (ao ser questionado sobre o Brasil reconhecer Maduro como Presidente). Trata-se de uma diferenciação entre continuidade institucional e legitimidade democrática.
A oposição também reconhece que líderes como Edmundo González e María Corina Machado, apesar da vitória eleitoral em 2024, não controlam as Forças Armadas nem o aparato coercitivo do Estado, o que torna inviável qualquer transição automática de poder sem reformas profundas.

Opositor venezuelano questiona legitimidade da presidente interina Delcy Rodríguez
Prensa Presidencial da Venezuela
Como o senhor espera que a questão dos recursos naturais venezuelanos seja tratada em meio a este conflito com os Estados Unidos?
O petróleo, o gás e o ouro venezuelanos hoje financiam a sobrevivência do regime, não o desenvolvimento do país. Esses recursos sustentam elites militares, alimentam redes ilícitas, compram lealdades políticas e servem como moeda de troca diplomática.
A oposição defende transparência, auditorias internacionais e reconstrução institucional antes de qualquer abertura econômica real. Casos de ex-ministros chavistas como Jorge Giordani e Rafael Ramírez, que denunciaram desvios e má gestão de recursos bilionários, mostram como a renda petrolífera foi sistematicamente saqueada ao longo dos anos. Os recursos naturais, portanto, devem voltar ao controle e ao investimento nacional. Isto implica acabar com as máfias que controlam hoje o território e esses mesmos recursos.
Qual é a sua opinião sobre María Corina Machado? Ela representa todos os setores da oposição?
María Corina Machado é hoje a figura mais consistente da oposição democrática, com discurso claro, base social real e rejeição frontal ao chavismo. Ela não representa todos os setores dentro da oposição, mas sim o segmento que ainda acredita na ruptura institucional, e não na convivência com o autoritarismo, além de ter o respaldo popular, o que foi visto ao vencer as primárias de 2023.
Se substituísse o chavismo, seu maior desafio não seria apenas vencer o regime, mas unificar um país destruído por 25 anos de polarização, medo e migração forçada. Ela também carrega o peso de ter sido excluída por setores da própria oposição durante anos, rotulada como radical, o que fragmentou ainda mais o campo opositor.
Como a comunidade dos venezuelanos residentes no Brasil tem reagido aos eventos das últimas semanas?
A diáspora venezuelana no Brasil reage com uma combinação de indignação, ao ver que só capturaram Maduro, uma esperança cautelosa de que Delcy realmente coopere e de que haja uma saída ao chavismo, e também ceticismo, ao pensar que nada disso virá em breve. Muitos perderam casa, família, carreira e estabilidade. O trauma coletivo é real.
Ao mesmo tempo, há um sentimento claro de que qualquer movimento que enfraqueça o regime é visto como positivo, desde que leve a uma transição real, e não a mais um acordo para a sobrevivência chavista.























