Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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O discurso do presidente Lula na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na última terça-feira (22/09), foi “o melhor dos realizados por ele durante este terceiro ano de mandato”, segundo avaliação de Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Segundo o analista internacional, o mandatário “foi mais explícito ao falar da potência militar dominante dos Estados Unidos, coisa que ele não fazia antes. Até então, ficava na ambiguidade”.

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“O do ano passado foi um discurso de generalidades, mas este aqui não. Falou da intervenção dos Estados Unidos no continente, talvez poderia ter se aprofundado nesse ponto, mas foi bem. Também foi muito bem na questão da inteligência artificial”, disse Maringoni.

O professor também falou sobre a reta final da campanha, e disse que as dificuldades da campanha petista são fruto, sobretudo, da decepção de parte do eleitorado petista com algumas promessas de 2022 que não foram cumpridas. “Naquela ocasião, Lula prometeu em 2022 reestatização da Eletrobrás, estatização das refinarias, rever a reforma trabalhista, mas especialmente o que pegou na boca da população foi picanha e cerveja para todo mundo, e não houve nenhuma política de retomada dos estoques reguladores”, ponderou.

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Em entrevista a Opera Mundi, o docente da UFABC também analisou os efeitos na corrida eleitoral da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e do projeto para acabar com a escala 6×1.

Leia a entrevista completa com Gilberto Maringoni:

Opera Mundi: há diversas notícias saindo sobre possíveis interferências dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Como avalia essa postura do governo Trump?

Gilberto Maringoni: a ideia de uma interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras já é muito concreta. Ela se completa essa semana, pelo menos o capítulo da semana, com a reunião do Escudo das Américas, realizada na terça-feira, buscando claramente isolar o Brasil, foi gravíssimo. Embora o Brasil não seja governado pela extrema direita ou faça parte do Escudo das Américas, o documento que sai de lá sobre classificação de 24 organizações criminosas como narcoterroristas, com destaque para o PCC e para o Comando Vermelho, abre espaço para intervenções militares no Brasil.

Esse é o capítulo da ameaça, ou seja, é quase impossível que uma ação concreta seja tomada daqui até o dia das eleições ou daqui até o segundo turno, mas a lâmina está no ar.

As intervenções vão da política de tarifas a declarações de membros do governo dos Estados Unidos a declarações no discurso do próprio presidente Donald Trump de que o Brasil não colabora, de que o Brasil coloca problemas na classificação de organizações como de narcotráfico. Ou seja, a ameaça é explícita, e ela está acontecendo também através do boato de que se Lula vencer as eleições com uma diferença pequena sobre o segundo colocado, provavelmente Flávio Bolsonaro, Washington vai contestar a lisura das eleições. Isso abre espaço para todo tipo de sanção, todo tipo de iniciativa.

A gente viu isso com a Venezuela. É pouco provável que ocorra aqui algo como o sequestro de um presidente, mas a tendência de uma tentativa de isolamento do Brasil é muito forte.

A campanha do presidente Lula, por sua vez, está sabendo lidar com esse intervencionismo? Poderia fazer mais ou adotar uma estratégia diferente da que vem mantendo?

A campanha do presidente Lula nessa questão do intervencionismo teve o seu ponto alto no discurso pronunciado pelo presidente nesta terça-feira, na Assembleia Geral da ONU.

Foi quando o presidente foi mais explícito ao falar da potência militar dominante dos Estados Unidos, coisa que ele não fazia antes. Até então, ficava na ambiguidade. Assim como a campanha tem ficado em uma ambiguidade, um papo de marqueteiro, cenas de drones, crianças em câmera lenta, falando platitudes, evitando entrar mais profundamente na denúncia do intervencionismo.

O presidente Lula poderia ter avançado nisso no discurso da ONU, que eu repito, é um discurso muito bom, mas poderia, por exemplo, ter feito uma denúncia mais forte da do sequestro de Maduro na Venezuela. Mas, mesmo que tivesse colocado isso tudo no discurso, de nada adianta se isso não estiver no centro, se não for um dos pontos centrais da campanha eleitoral, da campanha de massa.

Além da pauta concreta, que falta, essa questão de comida, dinheiro no bolso e perspectiva do futuro, o governo subestima o peso que tem a questão nacional pro eleitorado e pro povo brasileiro.

O discurso de Lula na ONU pode ser lido então como um fator positivo na campanha?

Como eu disse, o discurso do Lula na ONU foi muito bom. É talvez o melhor discurso que ele fez neste mandato no púlpito da ONU. O do ano passado foi um discurso de generalidades, mas este aqui não, falou inclusive da questão do Estados Unidos, da intervenção desse país no continente, talvez poderia ter se aprofundado nesse ponto, mas foi bem. Também foi muito bem na questão da inteligência artificial.

Outra parte do discurso foi para o público interno, aqui do Brasil, e isso é muito bem calibrado, porque tanto um público quanto o outro conseguem perceber e entender o discurso inteiro. Talvez esse discurso devesse ser baliza para essa reta final da campanha.

Entretanto, faço uma ressalva: o discurso é uma peça importante de campanha, mas não sei se ele vira voto. Acho que ele consolida tendências, mas virar voto é outra coisa. O que vira voto é uma ação de governo, teria que ser algo diferente. Nesta reta final, a campanha precisa trabalhar para garantir uma vantagem de Lula no primeiro turno, para preparar o ânimo da militância, dos ativistas, dos apoiadores, para a disputa decisiva que vai se dar no segundo turno.

A campanha de Flávio Bolsonaro está sabendo se aproveitar das ações promovidas pelo governo dos Estados Unidos? Como analisa as chances de vitória do candidato da extrema direita?

Há chances da vitória do candidato da extrema direita, claro que há. Nós estamos vendo a sequência de pesquisas, principalmente desde o início de maio, em que as candidaturas Lula e Flávio estão mais ou menos congeladas, Lula um pouco à frente, Flávio um pouco abaixo, e essa distância percentual entre elas às vezes se alarga, às vezes se afunila.

Isso é o resultado de um governo medíocre feito pelo Lula, um governo de clara orientação neoliberal, que restringiu o investimento público, restringiu o investimento em serviços, em ampliação de serviços públicos. Embora o gasto tenha aumentado, há uma restrição clara, cortes de verbas para as universidades que estão de pires na mão, pedindo emendas parlamentares para os deputados simpáticos à causa da Educação.

presidente Luiz Inácio Lula da Silva
‘Talvez este foi o melhor discurso que Lula fez neste mandato no púlpito da ONU, diz Maringoni
Ricardo Stuckert

O governo Lula é uma decepção em relação à expectativa que existia no início do governo. Uma decepção em relação ao que o Lula prometeu em 2022, como reestatização da Eletrobrás, estatização das refinarias, rever a reforma trabalhista, mas especialmente o que pegou na boca da população, que foi picanha e cerveja para todo mundo. Não houve nenhuma política de retomada dos estoques reguladores.

Então, essa decepção alimenta não a candidatura do Flávio, mas a rejeição a Lula. Por mais que as planilhas digam que o desemprego nunca foi tão baixo, que a massa salarial é alta, que o Brasil foi o país que mais cresceu entre os emergentes, nada disso adianta se não bate na vida concreta da população. E a vida concreta da população é comida no prato, salário no bolso e perspectiva de futuro.

Diante disso, o que cresce é a rejeição ao Lula. Esse é o problema. Diante disso, o candidato Flávio Bolsonaro bota as manguinhas de fora. No entanto, ele também tem um limite. Pegou muito mal as opiniões e as ações tanto do Flávio quanto do seu irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, saudando a política de tarifas deflagrada por Trump em 2025. Lula soube se aproveitar da questão nacional, soube se aproveitar da questão do nacionalismo, desse sentimento difuso, mas muito forte na base da sociedade.

No entanto, o Flávio deu uma recuada hábil, ele continua com a mesma política. Um governo dele seria de abertura total, mas o Lula, eu não sei por que, não agarra essa questão do nacionalismo com mais força. Eu tenho algumas hipóteses. Em primeiro lugar, a questão nacional nunca fez parte da prática petista, embora aqui e ali tenha entrado em documentos ao longo da história, mas ela nunca fez parte.

A ideia de união nacional contra uma agressão externa, isso nunca fez parte. E nós temos problemas sérios em Defesa. O ministro José Múcio, há questão de dois ou três meses, disse essa frase imortal, que se houver uma invasão dos Estados Unidos, ele vai estar na primeira fila para abrir o portão para entrada dos Estados Unidos. É incrível que ele ainda continue no cargo depois disso.

A segunda questão é a das terras raras. Embora talvez não toque na maioria da população, a o PL das terras raras não garante a posse nacional dessa riqueza. O Lula refutou a criação de uma “Terra Brasil”, ou de uma estatal nos moldes de uma Petrobras, e a lei é suficientemente ambígua, ou tem suficientemente porosidade para permitir o que já aconteceu: a maior mineradora aqui no Brasil, a Serra Nova, é de propriedade não só de capital dos Estados Unidos, mas é do Departamento de Estado. Acho que o Lula falha nessa questão de abraçar a causa nacional com peso, com força.

O travamento do projeto de fim da escala 6×1 no Senado está prejudicando o governo nesta campanha eleitoral?

O que aconteceu com o projeto fim da escala 6×1 no Senado é o epílogo de um comportamento inexplicável do governo sobre essa iniciativa. Vamos lembrar, a questão da escala 6×1 ganhou volume, se tornou um tema da conjuntura, a partir da campanha eleitoral do vereador o Rick Azevedo, do PSOL do Rio de Janeiro, em 2024. Ele fez uma campanha artesanal, distribuindo pequenos panfletos com amigos em trens e subúrbio, em locais de concentração.

Isso ganhou escala e colocou em evidência a campanha Vida Além do Trabalho. A deputada Érika Hilton entrou com um projeto no Congresso sobre isso. Existia ali o início de uma mobilização social muito importante em vários estados.

A partir daí, a medida foi atacada pelo governo, na figura do ministro do Trabalho Luiz Marinho, que disse no início de 2025 que não poderia ser feito da forma como o projeto planteava, que o melhor seria fazer empresa a empresa, que é a fórmula neoliberal para qualquer questão sobre o trabalho. A gente acompanha projetos e reformas trabalhistas pelo mundo e vê que a melhor maneira de você acabar com direitos é dizer para negociar empresa a empresa, como se a força de um sindicato, por mais poderoso que seja, fosse comparável com a de um grande monopólio. Então, o governo matou a proposta de início, quando existia mobilização social.

A retomada do projeto pelo governo se deu no início de 2026, quando se percebeu que isso poderia ser um bom ativo eleitoral. A negociação para a entrada em pauta foi demorada, eu não entendi até agora por que que não entrou com urgência logo de cara e por que o governo não mobilizou a população.

Como você vê a postura de Lula com relação à crise no STF? Já passou todo o estrago que o tema poderia causar à sua candidatura ou ele ainda pode prejudicá-lo?

A crise do STF faz parte de uma grande crise institucional brasileira. O mote é a relação dos ministros com o Banco Master, com o Daniel Vorcaro. Isso toma todos os poderes da República.

A gente tem presidente da Câmara e presidente do Senado possivelmente envolvidos com isso, vários parlamentares, governadores, recursos de aposentadoria, de fundo de pensão, de fundo de aposentadoria dos funcionários públicos, tudo isso nas mãos do Banco Master. Isso envolveu até o ministro da Casa Civil do governo Lula, o Rui Costa, e o senador Jacques Wagner, e envolveu os ministros do STF.

Até agora, ao que parece, há seis ministros com algum tipo de envolvimento com Vorcaro. Isso tem que ser isolado como uma crise do STF. O presidente Lula, o governo não pode tomar parte disso.

O governo Lula faz bem em isolar essa crise, até porque majoritariamente ela é uma crise da direita, da extrema direita e que está muito centrada no entorno de Flávio Bolsonaro. Não há nenhum motivo para envolver o presidente Lula na crise do STF. Aliás, não há nenhum indício de que ele tenha alguma relação com essa bandalheira.

Muitas pesquisas indicam que mesmo em cenários de primeiro turno, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem acima dos 40% de intenções de voto. É possível um desfecho dessa eleição já no dia 4 de outubro, para um lado ou para outro?

Vai depender de se a reta final pode ter alguma surpresa. Por exemplo, a desistência de algum candidato de extrema direita, seja Caiado, Zema, Renan Santos ou Cury, talvez mais de um, e que isso seja a senha para uma avalanche de voto útil em Flávio Bolsonaro. É uma possibilidade, não acho que seja a maior.

Não sou especialista em pesquisa eleitoral, mas eu acompanho, tento ler nuances em cada uma. Creio que o cenário mais provável é uma passagem para o segundo turno com uma ligeira vantagem de Lula. Agora, nem isso pode ser garantido, dada a proximidade em intenções de votos. Além disso, ambos têm um cenário de rejeição semelhante.

Então, isso pode impedir uma vitória no primeiro turno. Essa possibilidade até existe, mas é muito pequena. O mais provável é uma disputa no segundo turno.

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