‘Dizer que há uma ditadura na Venezuela é loucura imperial’, afirma parlamentar e ex-guerrilheiro
Líder o grupo MRT, Williams Benavides promete que EUA pagarão ‘custos garrafais’ se invadirem a Venezuela
Dias antes do bombardeio dos Estados Unidos contra a Venezuela, e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua companheira Cília Flores, Opera Mundi esteve em Caracas, na sede do Movimento Revolucionário Tupamaro (MRT), coletivo político-social com representação parlamentar que hoje conta com um número proeminente e crescente de militantes. Williams Benavides, secretário-geral nacional do MRT e deputado na Assembleia Nacional, recebeu a reportagem durante um dia de intensos trabalhos.
Entre reuniões que incluíam discussões sobre políticas públicas, projetos de apoio social e treinamento específico cívico-militar, o líder popular garantiu que a organização estava pronta para defender o governo Nicolás Maduro e a soberania do país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo. “A democracia aqui é popular, de forma direta, não governamos para as elites. A liberdade partidária ocorre normalmente. Entretanto, sempre colocamos o interesse da pátria acima de interesses individuais. Por isso, dizer que a Venezuela é uma ditadura é uma loucura imperial”, afirmou.
Formado no início dos Anos 90, o MRT se consolidou primeiro como guerrilha urbana durante o segundo mandato do presidente Carlos Andrés Pérez (1989-1993), cuja orientação foi mais neoliberal. O grupo afirma ter inspiração cubana e uruguaia: o Movimento 26 de Julho (M-26-7), liderado por Fidel Castro, e o Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T), de quem também pegaram emprestado o apelido, e que teve como uma de suas principais figuras Pepe Mujica, que viria a ser presidente do Uruguai entre 2010 a 2015.
A força e notoriedade dos Tupamaro na capital Caracas se deu através da organização popular nas comunidades, principalmente a do bairro 23 de Enero. Por meio de células guerrilheiras, atuavam no combate à corrupção, repressão e violência policial nas periferias, travando ainda uma luta direta contra narcotraficantes que dominavam os territórios. Este período da história é lembrado por estudiosos como a “década perdida” para a América Latina. Com a ascensão de Hugo Chávez, que ocuparia a presidência da Venezuela pela primeira vez em 1998, o MRT ganhou força e notoriedade, atuando e construindo bases de apoio nos princípios da Revolução Bolivariana.
Sobre o ataque realizado em 3 de janeiro, e do cenário que surgiu no país a partir de então, Benavides diz que “os Estados Unidos não nos perdoam por sermos um exemplo para a libertação dos povos”.
“Por que não pedem democracia aos aliados que têm no Oriente Médio, ou às monarquias do Golfo Pérsico? Por que não pedem democracia, por exemplo, aos reinos da Europa, com seus príncipes, herdeiros e seus respectivos chefes de Estado? De que democracia falam?”, questiona.
Leia a entrevista exclusiva com o líder do MRT, Williams Benavides:
Opera Mundi: Como o MRT tem trabalhado diante da tensão causada pelas ameaças dos Estados Unidos?
Williams Benavides: Estamos fazendo um balanço do trabalho, do que foi desenvolvido a fim de traçar planos para o próximo ano, do tipo: como a conjuntura está sendo discutida, o que está se desenvolvendo no momento, como o mundo está e como o império busca retomar sua hegemonia. O império norte-americano deu sinais, mudou o nome de seu Ministério da Defesa para Ministério da Guerra, seguido de uma declaração militar. Ao fazer isso, indicou que perdeu a hegemonia.
Há povos que estão se levantando contra o neocolonialismo, contra o imperialismo e todas as suas fases. Outras potências surgiram, como a China, com uma abordagem diferente de como os povos se desenvolvem. A Rússia vem resgatando certa efervescência importante da União Soviética. E, na América Latina, não podemos esquecer dos camaradas nicaraguenses, cubanos, da nossa Revolução Bolivariana e do processo que se deu pela União Latino-Americana com Hugo Chávez, ocasionando também um movimento progressista de vanguarda que os Estados Unidos não puderam frear.
Como avaliam o atual momento, dentro do longo histórico de interferências dos EUA na Venezuela e em toda a América Latina?
Os Estados Unidos não nos perdoam por sermos um exemplo para a libertação dos povos, para que outros povos clamem por uma democracia real, não apenas a escolha de um governante. A democracia aqui é popular, de forma direta. As pessoas se mobilizam, defendem as suas propostas políticas. A liberdade partidária ocorre na Venezuela normalmente. Entretanto, sempre colocamos o interesse da pátria, como um todo, acima de interesses individuais. Por isso, dizer que a Venezuela é uma ditadura é uma ‘loucura imperial’. Isso faz parte de toda uma estrutura de guerra midiática contra a Venezuela para justificar ações. Nós dizemos aos Estados Unidos, que tanto falam de democracia e não sei o quê, por que não pedem democracia aos aliados que têm no Oriente Médio, ou às monarquias do Golfo Pérsico? Por que não pedem democracia, por exemplo, aos reinos da Europa, com seus príncipes herdeiros? De que democracia falam? É um duplo padrão com um conceito de democracia só para eles e suas elites.
Porém, há diferentes países, até mesmo uma parte da oposição aqui na Venezuela, que acusa não só o presidente, mas algumas organizações, inclusive a de vocês, de sustentar uma ditadura. Qual é a sua resposta a esta análise?
O império norte-americano é que tem uma ditadura. Aquilo sim é uma ditadura, com um sistema bipartidário no qual Democratas e Republicanos são praticamente a mesma coisa, defendem o mesmo conceito de império, sem permitir que nenhuma outra organização social ou de base se levante. Se aquilo é democracia, nós não queremos essa democracia. São eleições de terceiro grau, eleições que não têm nada a ver com um processo verdadeiramente democrático.
Democracia é o poder do povo, e nos Estados Unidos não há poder do povo, apenas uma ideia de democracia representativa na qual eleitores escolhem senadores, congressistas, prefeitos, governadores e um presidente. Porém, o seu povo não tem nenhuma participação na tomada efetiva de decisões, diferentemente dos venezuelanos. Aqui existe uma democracia participativa, na qual o povo é protagonista, que evoluiu para uma democracia direta, na qual o conselho comunal e o processo sindical estão se desenvolvendo. É como nas ligas camponesas, nos conselhos camponeses, uma democracia na qual o povo participa das grandes decisões do país. Aqui, com frequência acontecem referendos para decisões importantíssimas, que têm a ver com a vida na República.
Trump diz que a Venezuela é um “narcoestado”, usou esse argumento em suas agressões em curso contra o país.
Os Estados Unidos, desde que são um império, estão sob o conceito constante da mentira. Nas últimas décadas, eles invadiram o Iraque por uma mentira, mataram cerca de 600 mil entre idosos, mulheres e crianças. Quem pode reparar essas vidas? Também cometeram assassinatos na Síria, também por supostas armas químicas de destruição em massa que nunca existiram. Também fizeram isso contra a Líbia e contra o Afeganistão. O Afeganistão quintuplicou a produção de ópio durante a administração dos norte-americanos. A guerra contra o narcotráfico na América Latina foi uma justificativa dos Estados Unidos para a instalação de sete bases militares na Colômbia, e depois disso a Colômbia triplicou sua produção de cocaína. Tudo é mentira, não há nenhum combate ao narcotráfico.
Se houvesse, por parte dos Estados Unidos, um verdadeiro interesse de combater o narcotráfico, (Daniel) Noboa não seria presidente (no Equador). Há vários registros de carregamentos apreendidos com toneladas de drogas proveninetes das empresas da família de Noboa. Mas eles dizem que o suposto “narcoterrorismo” são essas lanchas capazes de carregar no máximo 100 ou 200 quilos. É mentira, só querem ter uma justificativa. A máscara do império norte-americano caiu. Na hora da verdade eles confessam: o que querem é petróleo, as terras raras, os diamantes, o ouro, a água. O que querem é vencer uma guerra inter imperial pela hegemonia contra as potências do mundo, porque estão enfrentando agora um grande déficit econômico.
O que fará o MRT no caso de um cenário de uma invasão terrestre dos Estados Unidos na Venezuela?
Em 1998, em pleno processo eleitoral que elegeu o comandante Chávez, havia um setor das Forças Armadas comprometido com os norte-americanos, que exigia um golpe de Estado, e nós o derrotamos. Em 1999, no primeiro processo constituinte, também queriam desconhecer o comandante. No golpe de Estado de 2002, em 47 horas, nós derrubamos um golpe financiado, orquestrado e operado pelos Estados Unidos. Depois veio todo o processo de agressão econômica, guerra econômica, e nós derrotamos. Sempre com nós tupamaros participando dessa resistência. O império não nos perdoa por termos lutado contra ele. Rompemos com o cerco das sanções unilaterais assassinas, das sanções coercitivas, das sanções que atentam contra a vida natural comum a qualquer país. É como estão fazendo contra a Rússia e demais países sancionados; Coreia do Norte, Irã, Cuba e Nicarágua. Também não os perdoam.
Em uma etapa de agressão, que é a que eles estão propondo, de intervenção militar, apesar de atualmente estarmos atuando como partido, nossa estrutura é a de um movimento, uma organização revolucionária político-militar, com experiência no âmbito do combate de milícia. Nos formamos como uma milícia revolucionária, uma milícia que vai defender o seu território junto ao povo, porque somos parte desse povo. Vamos defender cada trecho, cada palmo, cada centímetro do nosso território e transformaremos a Venezuela em uma guerra popular prolongada, na qual o império norte-americano vai arcar com custos garrafais. Estamos decididos a combater o império norte-americano nesse terreno.

Integrantes do MRT venezuelano estão dispostos a pegar em armas para defender o país contra possível invasão dos EUA
Stefani Costa / Opera Mundi
A Venezuela é um país de paz e nós continuamos a defender a paz, nossa força militar nunca buscou avançar para além das nossas fronteiras. Nunca agredimos ninguém, nunca declaramos guerra a ninguém. Nossos exércitos saíram das fronteiras para ajudar na libertação de outros países, nunca para escravizá-los. Vamos defender o legado do libertador Simón Bolívar, e o legado do comandante Hugo Chávez, de defender a paz, a soberania, a autodeterminação dos povos, de exercer a liberdade e a democracia direta e participativa.
Qual é a importância da solidariedade de outros países da América do Sul?
A solidariedade sempre será muito importante nas organizações revolucionárias. A solidariedade com os povos da Ásia, África, América Latina e América Central é sempre importante. A revolução, tal como a concebemos, não se constrói em um só país, em um só espaço. Acreditamos no internacionalismo proletário com todos os trabalhadores unidos, como dizia Karl Marx. Com justiça social, praticando solidariedade, qualquer que seja a língua, qualquer que seja a cor da pele, qualquer que seja a cultura.
Nós, revolucionários, sempre acreditamos na solidariedade como princípio e na solidariedade proletária dos nossos povos. Neste momento, claro, é importante para a Revolução Bolivariana romper esse cerco midiático, romper esse processo que está se instalando. Como no caso, por exemplo, da Palestina, a qual pedimos que seja livre do rio ao mar.
No caso venezuelano, Trump colocou um tapa-olho, um papagaio no ombro e a perna de pau. Virou um pirata do Caribe. É mais um pirata que está tratando de roubar tesouros, riquezas e bens materiais, como fez a Inglaterra imperial, como fez a França imperial, como fez Portugal imperial. O império está louco e em decadência, e isso é perigosíssimo. Tirou a máscara e disse: “nós vamos invadir os países, não importa mais nada”. São assassinos. Nós venezuelanos esperamos qualquer coisa desse império, mas penso que eles terão um grande custo se ousarem fazer uma guerra contra o nosso território.
* Com colaboração de Victor Farinelli.
























