Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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A História dos Vertebrados (Bazar do Tempo), primeiro romance da escritora catalã Mar García Puig, chega ao Brasil como um farol para 57,9 milhões de mães brasileiras, em particular, as que enfrentaram ou estão enfrentando distúrbios mentais relacionados à maternidade. Segundo dados da FioCruz, problemas relacionados a saúde mental e parto afetam 25% das mães brasileiras (cerca de 14,5 milhões de mulheres). A todas elas, a ex-deputada pelo partido de esquerda Podemos aconselha: “não se culpem e se perdoem”.

Escrito em primeira pessoa, o romance relata como ela enfrentou o transtorno de ansiedade generalizada, com predomínio de pensamentos obsessivos, após o parto prematuro de gêmeos, ocorrido no mesmo dia em que foi eleita deputada por Barcelona. O romance, no entanto, não se restringe a este público-alvo, atinge a todos, homens e mulheres, que já enfrentaram crises de ansiedade ou passaram por situações extremas.

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A Opera Mundi, Puig analisou o debate em torno da saúde mental, cujos transtornos vêm gerando milhões de pessoas incapacitadas, apontando sua dimensão individual, mas também coletiva. “O capitalismo é um sistema completamente disfuncional, porque não é sustentável. Ele nos deixa loucos e ainda exige que sejamos produtivos”.

Ela também aborda o poder da literatura na construção de um olhar mais empático sobre o sofrimento humano, inclusive para a esfera da política, defendendo a criação de políticas públicas voltadas para as mães, frisando que, na cultura patriarcal ao qual estamos submetidos, “a combinação da mãe louca desperta grandes terrores sociais”. “Se a loucura e o louco são estigmatizados, a mãe louca é ainda mais”.

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No romance, sua experiência como mãe e, também como gestora pública, é intercalada por uma série de referências da ciência médica e psicanálise, da literatura e mitologia, além do pensamento feminista, permitindo um amplo retrato sobre como a combinação maternidade e da saúde mental vem sendo abordada ao longo da história. Puig analisa ainda o avanço do discurso misógino em uma Europa que, apesar de todo seu histórico com o fascismo, vive a ascensão de governos de extrema direita.

Leia a entrevista na íntegra:

Opera Mundi: em ‘A História dos Vertebrados’, você traz um relato da sua vivência da maternidade e dos distúrbios mentais, como depressão pós-parto e crises de ansiedade, após o nascimento dos seus filhos. Como você avalia o debate sobre a saúde mental hoje?

Mar García Puig: o livro fala sobre maternidade, mas principalmente sobre a loucura e como a ansiedade pode varrer tudo o que existe pela frente, até seus filhos recém-nascidos, agarrando você como uma fera. Existem livros que falam sobre mulheres que enlouqueceram e livros sobre a maternidade, mas essa combinação da mãe louca desperta grandes terrores sociais, porque para o patriarcado não existe nada mais antinatural do que uma mãe louca. É uma questão pouco abordada, mas quando algo começa a se mover socialmente, isso passa a ser tema da literatura. É o que está acontecendo em relação à saúde mental das mães.

Meu romance foi lançado em um momento em que outros livros sobre esse tema começaram a sair. A literatura passou a ouvir essas mães, reconhecendo a loucura, suas causas e seu enfrentamento. Isso permite uma visão mais complexa, respeitando as experiências individuais e entendendo sua dimensão coletiva.

A maternidade é um momento extremo. Ela transforma a vida das mães e tudo o que acontece a sua volta. Claro que há outros momentos extremos, por isso, este não é um livro apenas para mães. Você não precisa ter vivido a maternidade para entender como é possível perder a cabeça em um momento extremo da vida. Nós enfrentamos muitos momentos extremos. O livro aborda, portanto, essa situação limite.

Você traz a questão dos transtornos da ansiedade, que é um problema generalizado.

Nós estamos vivendo a era da ansiedade. Quem nunca teve ansiedade? Não há mais nenhum complexo em dizer “eu sofro de ansiedade”. A questão é como estamos lidando com ela. Tomando quilos e quilos de medicação que são bem-vindos e podem ajudar, mas parece que eles não estão nos curando, mas nos tornando ansiosos crônicos. As cifras continuam se multiplicando, apesar de haver cada vez mais medicamentos e mais pessoas medicadas. Talvez a medicação não seja suficiente.

Há também uma questão sobre como a sociedade trata seus loucos, o que diz muito sobre ela. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde mental será a primeira causa de incapacidade no mundo. Um mundo que está produzindo pessoas loucas. Em outras palavras, o capitalismo cria pessoas loucas, mas não consegue sustentar os loucos que gera. É um sistema completamente disfuncional porque não é sustentável. Ele nos deixa loucos e ainda exige que sejamos produtivos. Estamos diante de números que realmente assustam e que nos deveriam fazer parar para pensar. Isso não é um problema apenas individual e não se resolve com pílulas. Vai muito além.

Você atuou como deputada entre 2016 e 2023. Na sua avaliação, como o poder público pode melhorar a vida das mães?

Precisamos criar políticas voltadas para elas. De forma geral, quando as políticas são justas, elas ajudam sobretudo as mães, porque são elas que carregam o piano. Políticas gerais para a sociedade sempre acabam refletindo nas mães, que são as grandes cuidadoras. Por isso o feminismo tem abordado tanto as políticas de cuidado. Precisamos investir nelas.

Há uma questão grave na Espanha relacionado à Lei de Dependência, porque muitas mães cuidam de filhos vulneráveis. Em relação à saúde mental dessas mães, se a loucura e o louco são estigmatizados, a mãe louca é ainda mais. Conforme a visão das políticas públicas mudam em relação à loucura, isso reflete nelas. Além, naturalmente, do fato de que uma sociedade mais feminista sempre será melhor para as mães.

Nós precisamos de serviços públicos de saúde mental que possam ser usados com confiança por elas, de forma gratuita e universal, até porque, muitas vezes, elas precisam sustentar seus filhos e não podem pagar serviços psicológicos privados. O hospital público mais importante de Barcelona abriu uma unidade de saúde mental para mães com problemas graves de saúde mental. Elas podem passar o dia ali, com seus filhos, recebendo um serviço abrangente que inclui psicologia, pediatria e serviços sociais.

Isso é importante, inclusive, contra a pressão para a remoção da guarda dessas mães, que só tende a privar o filho da mãe e agravar os problemas de saúde mental delas. Essa unidade é pioneira na Espanha, não retira a custódia, pelo contrário, acompanha e fortalece o vínculo mãe-filho.

O livro Holocausto Brasileiro [da jornalista Daniela Arbex sobre o genocídio de 60 mil pessoas no Hospital Colônia de Barbacena], me fez pensar que na Espanha há ainda muitos lugares em que as pessoas ainda estão confinadas em hospitais psiquiátricos, onde os direitos humanos mais básicos são violados.

Escritora aborda loucura e maternidade e aconselha mães: ‘não se culpem’
Reprodução/ Editora Bazar do Tempo

Teu livro combina a experiência pessoal e um repertório riquíssimo sobre os distúrbios mentais das mães ao longo da história, articulando ciência, literatura e feminismo. Como você construiu isso?

Saiu de forma orgânica, como uma necessidade pessoal. Estava vivendo minha história e comecei a pesquisar, de um jeito caótico, sem saber que isso me levaria a um livro. Conforme eu fui me deparando com as histórias dessas mulheres no século 19, na Inglaterra vitoriana, eu fiquei fascinada pelos historiadores da Medicina, e quis escrever sobre.

A ideia inicial era um ensaio, mas, anos depois, quando contei à psiquiatra que me atendeu que eu estava pensando em escrever sobre o tema, ela me perguntou se eu queria ver os meus prontuários médicos. Eu estava lendo histórias de outras mulheres e nunca pensei que conseguiria ler a minha, então, quando li os meus registros, eu percebi que precisava inserir a minha história.

Você era uma figura do mundo político, você enfrentou algum problema com isso?

Surpreendentemente não. Na verdade, o livro foi publicado dois meses após da convocação de novas eleições e eu não me candidatei. Eu tive receio das redes sociais, porque fui muito insultada quando congressista. “Quando lerem o livro, o que não vão me dizer”, pensei. No entanto, o livro está na esfera da literatura, o que permite um debate muito mais complexo e não responde a insultos fáceis, nem a confrontos. A literatura é o espaço para a empatia, o debate social, o questionamento das próprias posições.

Pode até haver críticas, mas elas são, em geral, mais calmas, mais compreensivas, abertas e mais construtivas. Há nela uma possibilidade mais profunda e ampla de reflexão.

No seu livro, esses dois âmbitos da cultura-literatura e da política estão presentes. Como você avalia o encontro entre essas duas esferas? O que a literatura pode contribuir na política?

A política e a literatura são percebidas como duas esferas muito separadas. Política e cultura, mas especificamente literatura que é vista como um espaço do sentimento e da emoção, enquanto a política não. Elas deviam estar muito mais vinculadas, porque através da literatura nós podemos ter uma visão muito mais complexa para trabalharmos as questões politicamente e entender a dimensão coletiva da experiência individual, que é tão importante na política.

A literatura cria a empatia, hoje tão distante dos âmbitos políticos, que são muito mais rígidos. Há uma pensadora feminista, Sara Ahmed, que coloca na mesa o tema das emoções na política. Ela diz que as estruturas patriarcais dentro da política expulsaram ou tentam expulsar as emoções da política e que isso é impossível. A troca entre política e literatura mostra isso. É necessário que a política seja movida e se atenha às emoções que afetam as pessoas.

Há também todo um embate da extrema direita contra essa voz feminista, sobretudo uma idealização da maternidade, do retorno da mulher ao lar. Como está isso na Espanha?

O machismo da ultradireita é geral. As redes sociais são deles. Estudos diferentes mostram que eles têm mais seguidores políticos, em particular no TikTok, com toda essa questão das esposas héteros, do machismo. Na Espanha, há um grupo de influenciadores muito tradicionalistas, que defendem o retorno ao catolicismo reivindicando uma espiritualidade ligada às estruturas mais tradicionais da Igreja Católica.

Há um livro da Susan Faldi, de 1991, chamado Backlash: The Undeclared War Against American Women, em que ela estuda o movimento (backlash) de reação conservadora ou antifeminista após uma onda de avanço das mulheres. Nós passamos por anos de avanço feminista na Espanha, incluindo as greves feministas. Na América Latina, também. Aliás, na Europa hoje, o parâmetro é o feminismo latino-americano e o que ele vem criando.

O livro da Faldi observa o retrocesso dos anos 1980, em meio a era Reagan e Thatcher, após os avanços conquistados pelas feministas nos anos 1970. O que estamos vivendo é isso, tivemos mudanças, mostramos força e agora estamos vendo a reação. Há muitos paralelos com os dias atuais. Ela foca nos Estados Unidos e na Inglaterra, mostrando como esse movimento se expressou na televisão, no cinema e na moda nos anos 1980, com aqueles físicos magérrimos. Nos anos 2000, 2010, tivemos um momento de afirmação dos corpos reais, de aceitação e tantas outras conquistas, que agora estão sendo atacadas.

Nós estamos vivendo a ascensão dos governos de extrema direita na América Latina, como vocês estão enfrentando isso na Espanha? O governo Sanchéz ainda se mantém firme?

A extrema direita está avançando na Europa da mesma forma como vocês estão vivendo. Nós vivemos uma ditadura fascista na Espanha e durante muito tempo os partidos de extrema direita foram um tabu. Agora, eles estão na Itália, que sempre foi uma referência política para a Espanha, as pessoas costumam dizer que o que acontece antes lá, vai acontecer aqui. Quando Giorgia Meloni, uma mulher de extrema direita, venceu, nós pensamos que o governo não iria se sustentar.

“Eles não vão conseguir entrar na União Europeia”, “vai ter uma oposição muito forte”, “este governo não vai durar”. Era o que as pessoas diziam devido ao passado fascista, que gerou muita culpa e preocupação. Mas o governo Meloni foi completamente normalizado. Nós ficamos muito surpresos, tanto em termos simbólicos quanto econômicos, que uma senhora, admitidamente fascista, esteja governando um país tão importante na União Europeia.

Na Espanha, vem acontecendo o mesmo. Sempre acreditamos que a ditadura e os herdeiros de Franco nunca voltariam a governar, mas apesar de o governo central ainda se manter ileso, a extrema direita vem governando em muitas regiões e comunidades autônomas. Nós nunca imaginamos que algum partido espanhol faria um pacto com a extrema direita, mas essas barreiras foram quebradas nos últimos. E, agora, embora eles não vençam as eleições, é provável que façam algum pacto para atuar dentro do governo.

Isso também acontece em outros países. A extrema direita é uma ameaça na França e, inclusive, na Alemanha, o que é impressionante porque isso era um tabu por causa do nazismo. Havia linhas vermelhas que não podiam ser ultrapassadas, mas elas já foram cruzadas.
Analistas falam que existe uma crise do incumbente, ante a incapacidade de governança dos Estados.

Há uma dificuldade para os governos apresentarem propostas mais radicais. Na Espanha agora, nós estamos submersos em investigações de corrupção contra partidos majoritários, todos eles. Até mesmo o partido no governo vem enfrentando casos de corrupção e é difícil distinguir o que é corrupção do que é lawfare. A linha pode ser muito tênue.

Na Espanha, [José Luis Rodríguez Zapatero], um ex-presidente que foi o mais progressista, está sendo julgado por corrupção. Provavelmente há corrupção em outros governos, mas só ele está sendo investigado, o que não é justo. O sistema de justiça está investigando uns e não outros. É muito difícil para as pessoas comuns entenderem o que está acontecendo. Isso é um terreno para o fascismo.

Você parou completamente o exercício parlamentar?

Sim. Eu atuei entre 2016 até meados de 2023. Logo após sair do livro, foram convocadas eleições, mas eu já contava com oito anos de mandato no Podemos. Entrei na primeira legislatura quando a legenda foi fundada e havia naquele momento um código de ética de permanecer no máximo 8 anos. Eu fui fiel a isso, porque fazia sentido para mim e havia outras pessoas que poderiam ser eleitas e dar uma forte contribuição.

Além disso, na política, você acaba perdendo o contato com o mundo real. Temos que reconhecer que isso acontece na forma a política funciona atualmente na Espanha e, pelo que sei, no Brasil também. Os parlamentares e delegados perdem o contato com o dia a dia do povo, é muito difícil mantê-lo. Então, por esses motivos, eu resolvi retornar ao mundo dos livros, que é de onde eu vim e para onde estava indo. Esse foi meu primeiro romance agora estou escrevendo outro que também envolve pesquisa em hospitais psiquiátricos, em busca de tempo, porque meus filhos já estão com dez anos, sou tradutora e editora. É muita coisa.

Qual mensagem você gostaria de deixar às tuas leitoras mães do Brasil que estejam passando por problema de ansiedade, depressão pós-parto e outros distúrbios mentais?

Eu criei laços literários mágicos na minha viagem ao Brasil meses atrás. Quantos diálogos nós podemos ter através da literatura. O ato de ler e escrever criar esses laços de irmandade, isso me deixou muito feliz.

A maternidade já envolve muita culpa e quando a depressão, a ansiedade ou a psicose entram, quando a loucura entra, essa culpa se multiplica infinitamente. O que me ajudou muito foi ler as experiências dessas outras mulheres.

Eu diria às mães, portanto, vamos nos perdoar. Vocês não têm nada do que se envergonhar, nada para se sentirem culpadas. Perdoem-se e não se sintam culpadas.