'Eu te amo, Ivan' de Wesley Barbosa será adaptado para o cinema
Sob direção e roteiro do ator Francisco Gaspar, conto questiona: 'por que as pessoas não podem simplesmente aceitar a maneira como o amor se manifesta?'
O conto Eu Te Amo, Ivan, publicado pela Barraco Editorial, fundada pelo próprio escritor independente Wesley Barbosa, será adaptado para um curta-metragem sob a direção e roteiro do ator brasileiro nascido em Belém do Pará, Francisco Gaspar. “Estou curioso e ansioso para saber como seria ver minhas palavras transformadas em imagens para um curta-metragem”, contou o autor paulista em exclusividade a Opera Mundi.
“Quando ele me escreveu dizendo que havia gostado do livro e que ficou impactado com a história e sua virada no final, e que por isso, entre outras coisas, sentiu vontade de adaptar, eu fiquei surpreso”, relembrou. “Li o roteiro e percebi que ele tem um estilo próprio de escrita. Dá para perceber nas entrelinhas, é a visão dele sobre a minha história”, acrescentou.
Barbosa contou que já colaborou no curta-metragem Apagamento, de Daniel Fagundes, e que fez uma leitura com Matheus Nachtergaele para o roteiro Mais Pesado é o Céu. “Percebi que é uma linguagem totalmente diferente!, declarou. “No livro, você pode colocar a psicologia da personagem em palavras; em um filme, uma imagem pode significar um milhão de coisas. Espero que a complexidade dos personagens, os medos, os desejos e as sutilezas sejam captadas”, afirmou.
O autor já escreveu outras obras, como Parágrafos Fúnebres (2020), Relato de um Desgraçado Sem Endereço Fixo (2021) e o conto O Rebento do Ódio, publicado pela Revista Piauí, em 2023, e logo em seguida transformado em livro de bolso.
“Costumo dizer que esses livros são histórias curtas com finais impactantes, e isso me move a escrever contos, como foi o caso de Eu Te Amo, Ivan, cujo assunto (vingança, ódio e alcoolismo) surge na trama apenas como pano de fundo para abordar algo ainda maior: o amor”, revelou.

‘Se puderem, leiam o livro e vejam o filme’, declara Wesley Barbosa
Arquivo pessoal
O conto é sobre o romance de duas pessoas existencialmente complexas: um homem e uma mulher que querem apenas viver o amor e não serem julgados pela forma como amam. Um ponto chave está no narrador, “que traz a verdade dele e se questiona: ‘por que as pessoas não podem simplesmente aceitar a maneira como aquele amor se manifesta na face da Terra?’”
“Toda história quer apresentar um ponto de vista de alguém. Isso não significa que esse ponto de vista seja a verdade absoluta sobre algo. Essa pergunta do narrador quer dizer: deixe as pessoas amarem como quiserem e viverem como quiserem. Seja livre. Ame também e não se importe com o que digam. Amar também é aceitar as diferenças e essas pequenas reflexões perpassam o texto. Eu gostaria que, de alguma forma, elas estivessem no filme”, declarou.
Barbosa prefere não contar o motivo do título, explicado na virada final do conto, mas revela: “lembrei de ‘Ivan, o Terrível’, na hora de nomear a personagem e achei esse nome bem forte”. “Se puderem, leiam o livro e vejam o filme”, acrescentou.
Desafios de um escritor independente
Wesley Barbosa destacou que o maior desafio para um escritor independente é ter distribuição nas livrarias, ser convidado para eventos literários, ter espaço na imprensa para divulgar seu trabalho e continuar existindo com alguma relevância.
“Por sorte e por insistência, tenho distribuído meus livros como um operário da literatura, um vendedor ambulante das palavras. Saí com destaque em alguns dos maiores jornais. Portanto, consegui algum espaço e sigo resistindo com minha própria editora, a Barraco Editorial, onde também publico novos autores”, contou.
Criada em 2023, a Barraco Editorial vem publicando autores independentes das periferias brasileiras, com o objetivo de ecoar a cultura negra periférica e disseminar a luta antirracista.
Dentre os desafios enfrentados, está o racismo. O autor relatou ter sido vítima de racismo durante sua participação, em maio deste ano, no Festival Literário Flipoços, em Minas Gerais.
Durante uma palestra no estande do Coletivo Neomarginal, grupo do qual faz parte e que reúne autores ligados à literatura periférica, a escritora Camila Panizzi Luz questionou: “como faz para ser neomarginal?” Na sequência – em tom irônico, aponta Barbosa -, ela acrescentou: “eu quero ser uma neomarginal, gente, olha que tudo. Camila Luz, neomarginal, nunca fui presa”.
Ele contou que a declaração, ao associar a palavra “marginal” ao encarceramento, foi recebida com desconforto por parte da plateia. Barbosa se manifestou sobre o caso em postagens nas redes sociais. Em uma delas, afirmou: “ser neomarginal é não ser racista”.























