‘Exposição sobre Gaza multiplica testemunhos do genocídio’, afirma curador
Amilcar Packer falou sobre ‘A guerra contra a verdade: liberdade e expressão sob a ocupação israelense’, mostra exposta no Al Janiah, em São Paulo
“Testemunhos fotográficos compõem as denúncias sobre os horrores promovidos pelo Exército de ocupação sionista e a resistência do povo palestino”. Essa é a análise de Amilcar Packer, curador da exposição “A guerra contra a verdade: liberdade e expressão sob a ocupação israelense”, que ocorre no Al Janiah até 21 de dezembro.
O restaurante e centro cultural palestino, que fica em São Paulo, recebe a exposição realizada com os registros dos fotojornalistas colombiano Mauricio Morales e da palestina Fatma Hossana.
Com organização da Embaixada da Colômbia em Brasília e apoio do Consulado colombiano na cidade de São Paulo, o trabalho tem como objetivo “reforçar o trabalho de fotojornalistas e ativistas que vêm sendo sistematicamente assassinados” por Israel ao denunciar o genocídio na Faixa de Gaza.
“Esse gesto de solidariedade é feito a partir de uma homenagem à poetisa e fotojornalista Fatma Hassona, assassinada aos 25 anos, junto a dez membros de sua família, no dia 16 de abril de 2025”, disse Packer a Opera Mundi.
Segundo ele, a realização da exposição no Al Janiah, considerado “a casa palestina na cidade de São Paulo”, é importante porque “há um contexto transformador, como se a mostra tivesse sido feita para este lugar”.
Packer lembra que Fatma e Mauricio não se conheceram, nem viram o trabalho um do outro. Mas ambos têm um fator em comum: testemunham e documentam pessoas testemunhando a destruição. “E esses olhares se encontram na exposição, assim como nós também testemunhamos esses testemunhos, gerando uma espécie de multiplicação dos olhares de testemunho. Fazer isso é uma maneira de recordar o que foi desmembrado pelo sionismo: a Palestina e seu povo”, afirmou.
Leia a entrevista completa de Amilcar Packer a Opera Mundi:
Opera Mundi: quem organizou e realizou a exposição “A guerra contra a verdade”?
Amilcar Packer: essa exposição é parte de uma série de movimentos de solidariedade ao povo palestino promovidos pelo governo colombiano, presidido por Gustavo Petro. Trata-se de reforçar o trabalho feito por fotojornalistas e ativistas, principalmente palestinos, que vêm sendo sistematicamente assassinados sem que haja uma real oposição das instituições mundiais.
Esse gesto de solidariedade é realizado a partir de uma homenagem à poetisa e fotojornalista Fatma Hassona, assassinada aos 25 anos, junto a dez membros de sua família, no dia 16 de abril de 2025. O Exército de ocupação da entidade sionista bombardeou a casa de Hassona no dia seguinte da sua nomeação ao festival de Cannes pelo documentário que foi/é protagonista, Coloque sua alma em sua mão e ande. A obra foi dirigida por Sepideh Farsi e recentemente lançado no Brasil. Hassona também participou como produtora e personagem de outro filme, Israel and Gaza: Into the Abyss (2024).
Os testemunhos fotográficos acompanhados por textos de Hassona são constelados aos de Mauricio Morales, fotojornalista colombiano engajado, que há mais de uma década cobre territórios denominados como zonas de conflito, seja na Colômbia, Líbia, Síria, ou na Palestina, com a qual está implicado há anos. Morales também fez parte de uma das incursões da Global Flotilla Sumud, em setembro de 2025. Esses testemunhos fotográficos compõem um gigantesco arquivo de denúncias que atestam os horrores promovidos pelo Exército de ocupação sionista, mas sobretudo, compartilham a resistência por meio de momentos de vida e do cotidiano do povo palestino na Palestina.
Em São Paulo, a embaixada colombiana em Brasília procurou o Al Janiah que, por sua vez, solicitou que eu assumisse a responsabilidade de organizar a intervenção. Hassona estava ligada à Plan International, organização que foca na promoção dos direitos das crianças e adolescentes, a qual cedeu o direito de uso de dez de suas imagens. No caso de Maurício Morales, pude ter acesso a um arquivo maior, que fui selecionando a partir do que vem a ser esse encontro de testemunhos. Fatma e Mauricio não se conheceram, não viram as imagens um do outro. Desde o início, o que me chamou a atenção, e se tornou o eixo da curadoria e da montagem, foram imagens muito semelhantes que Hassona fez em Gaza e Maurício fez em Tulcarém, de duas pessoas sentadas no chão, de costas, olhando a destruição [fotos acima]. Fatma e Mauricio testemunham e documentam pessoas testemunhando a destruição. E esses olhares se encontram na exposição, assim como nós também testemunhamos esses testemunhos, gerando uma espécie de multiplicação dos olhares de testemunho. Colocar Gaza ao lado de Jenin e de Tulcarém é também uma maneira de remembrar o que foi desmembrado pelo sionismo: a Palestina e seu povo.
Nesse sentido, trata-se de uma iniciativa do governo da Colômbia, movida pela embaixada colombiana em Brasília, com suporte do consulado em São Paulo, acolhida e realizada pelo Al Janiah, e com consultoria curatorial e artística, além da montagem, realizadas por mim. Além disso, escrevi um texto que conceitualiza e contextualiza um pouco do trabalho que fizemos.
Como resultado, a exposição lembra que os números oficiais variam em torno de 250 jornalistas assassinados pelas forças sionistas em Gaza desde outubro de 2023, o que é de longe o maior número de profissionais assassinados em situações que poderiam ser descritas como semelhantes. No entanto, vale lembrar que a situação na Palestina não é uma guerra e que seria no mínimo simplista a descrição como um conflito armado. Trata-se de um genocídio como parte da limpeza étnica e da ocupação colonial sionista que ocorre há mais de 100 anos.
Qual é a importância da exposição ser realizada no Al Janiah, que é visto como um espaço cultural e de resistência palestina na cidade de São Paulo?
O Al Janiah é a casa palestina em São Paulo. É territorialidade em diáspora, em ressonância à vila de Al Janiah, na Palestina. A iniciativa em breve completa dez anos, tendo se consolidado como espaço fundamental em São Paulo e que opera na acolhida de migrantes e refugiados e se alia a diversos coletivos, como o Cordão da Mentira. Trata-se um lugar de sociabilidade, onde se reunir, comer e beber, dançar, ouvir música, participar de seminários, cursos, lançamentos de livros e exposições não se separam da implicação com movimentos e práticas abolicionistas, antirracistas, anti-imperialistas e em sistemas de dominação masculina e patriarcal, em particular a partir da demanda pela Palestina livre.
Me parece que não haveria lugar melhor para apresentar os testemunhos de Fatma e de Mauricio. Apesar de o governo colombiano ter organizado mostras semelhantes em Nova Iorque, Santiago do Chile e Rio de Janeiro, acho que no Al Janiah há um contexto transformador, como se a mostra tivesse sido feita para este lugar, o que orienta a escolha de imagens e a montagem para uma intervenção local.

À esquerda: Gaza, Palestina (maio de 2024); à direita: Tulcarém, Palestina (março de 2025)
Fatma Hassona e Mauricio Morales
Qual é o impacto de registrar o trabalho da fotógrafa Fatma Hassona após a brutal violência de Israel contra sua vida e sua família?
If I die I want it to be a thunderous death.
I don’t want to be noted in breaking news, or as a
number among a group. I want the whole world to hear my death.
I want it to have an impact that doesn’t wane through time. I want
images that can’t be buried in space or time.
Se eu morrer quero que seja uma morte estrondosa.
Não quero ser vista em , ou como número de um grupo.
Eu quero que o mundo todo ouça a minha morte
Quero que tenha um impacto que não se esvaia através do tempo.
Eu quero imagens que não podem ser enterradas nem no espaço ou no tempo.
Fatma Hassona
(Tradução do árabe ao inglês por Batool Abu Akleen, e versão do inglês ao português por Amilcar Packer)
O texto acima de Hassona dá o tom e a direção para a minha resposta. Mais do que um impacto, trata-se aqui de responder à convocação que Fatma Hassona nos faz, de que suas imagens não sejam ou não possam “ser enterradas nem no espaço ou no tempo”. Esperamos que essa mostra possa contribuir para isso. Na mesma direção, o genocídio contra a Palestina e seu povo não se inicia com a intensificação dos massacres cometidos pelas forças sionistas desde outubro de 2023. Isso remonta, por exemplo, à declaração de Balfour, aos ataques terroristas perpetrados pelas milícias sionistas como Haganá e Gangue Stern. O assassinato de Hassona e de sua família, ecoam o de Shireen Abu Akhl, ou o assassinato do escritor e ativista politico Ghassan Kanafani pelo Mossad em 8 de Julho de 1972 em Beirute, no Líbano, por meio de uma bomba colocada em seu carro, o que também assassinou sua sobrinha Lamis Njeim.
Além do gesto de homenagem e, vamos dizer, de denúncia, acredito que é preciso entender como os sistemas de brutalidade estão interligados, colaboram e aprendem uns com os outros, ao redor do mundo. Por isso, o trabalho de pessoas como Hassona e seu terrível assassinato pode, a meu, ser visto em ressonância ao de Marielle Franco. Acho que temos o dever de fazer esses crimes ressoarem de outra maneira pois isso é inaceitável lá e cá, cá e lá.
A brutalidade colonial e racial no Brasil e na Palestina estão mais relacionadas do que sabemos e me parece que cantos nas manifestações como “Chega de chacina, a PM na favela, Israel na Palestina” são a emergência desse conhecimento, e o Al Janiah, assim como as pessoas e coletivos que passam por lá, têm sido necessários para esse movimento.
A Embaixada e o Consulado da Colômbia atuaram para que essa exposição acontecesse. Essa participação de canais diplomáticos colombianos ocorreu pela falta de respaldo do governo brasileiro ou da cidade de São Paulo?
A exposição faz parte de um gesto de solidariedade transnacional do governo colombiano. Até onde entendo, não houve um contato da representação colombiana com autoridades brasileiras para esse movimento. Minha percepção é de que o governo brasileiro vêm expressando solidariedade ao povo palestino, gerando indignação em todos os espectros políticos, inclusive de quem brada bandeiras anticoloniais, anti-imperialistas e antirracistas. No entanto, apesar dessas manifestações de solidariedade e denúncia das atrocidades sionistas, faltaram e ainda faltam medidas concretas e coordenadas pela comunidade internacional. É preciso encarar a cumplicidade na venda de combustíveis, componentes e armas, assim como a manutenção das relações diplomáticas e acordos comerciais. Não houve uma ruptura expressa com o sionismo, o que poderia ter impedido ou interrompido o genocídio em curso.
Recentemente, o Parlamento israelense aprovou uma lei para impedir que jornais estrangeiros atuem no país. Como uma exposição como essa é importante para compreender a forma que o governo Netanyahu avança contra os jornalistas, em especial os jornalistas palestinos?
A entidade sionista não tem qualquer limite. A capacidade de produzir e legalizar o horror tem sido espantosa. Ao mesmo tempo, é preciso não encapsular a questão a um período, partido, governo em particular, como o atual governo Netanyahu, ou atribuir a situação apenas à extrema-direita. Tamém é importante não encapsular o terrorismo do estado sionista à Gaza ou à Palestina, pois os ataques têm ocorrido contra o Iêmen, Líbano, Síria, Iraque, Irã, Armênia… É preciso entender a raiz da brutalidade, que é a criação da entidade sionista por sobre a Palestina, por sobre corpos de palestinos. Vale lembrar e condenar o fato de que as entidades sionistas cometem e sustentam políticas de assassinato há mais de 100 anos, e que o que vemos desde outubro de 2023 é a intensificação de um processo de obliteração e apagamento que começa, pelo menos, desde a Declaração de Balfur [documento do governo britânico que estabeleceu a Palestina como “Lar Nacional do Povo Judeu”] em 1917.
Em 2022, a fotojornalista norte-americana-palestina Shireen Abu Akhl foi assassinada pelo exército sionista. O governo [do ex-presidente dos EUA Joe] Biden tentou blindar a situação, o assassinato foi atribuído aos palestinos e somente por meio de investigações independentes se chegou à confirmação de que fora um soldado sionista. O funeral de Shireen foi atacado por soldados sionistas, isso significa que não respeitaram nem o luto. Se puderam matar uma jornalista norte-americana impunemente, porque não poderiam simplesmente assassinar sistematicamente jornalistas palestinos? O que os impede agora, se nada, até hoje, impediu? Se a entidade sionista foi instalada sobre a Palestina com legitimação da ONU e segue até hoje com apoio do que é chamado de Ocidente coletivo?
Em seu texto referente às fotografias, o senhor fala sobre a cumplicidade para promover a propaganda israelense. Como o senhor analisa que essa cumplicidade ocorreu no Brasil?
Os meios de comunicação podem funcionar como armas de destruição em massa. No caso da Palestina isso se tornou extremamente evidente. Foi avassalador ver como boa parte dos meios de comunicação brasileiros funcionaram. O discurso muitas vezes antecede a brutalidade ou tenta fazer uma legitimação retroativa. Fico perplexo com o silêncio, conivência e cumplicidade dos meios de comunicação e grande parte das jornalistas em relação ao genocídio cometido pelo exército sionista. Os mesmos meios de comunicação, as mesmas pessoas que trabalham produzindo as condições de possibilidade para uma suposta legitimidade dos massacres na Palestina, o fazem aqui — como no caso da chacina dos complexos da Penha e do Alemão, ou os Crimes de Maio de 2006.
Também no texto, o senhor fala sobre os genocídios e massacres de povos oprimidos no Brasil. Estamos há poucas semanas da maior chacina realizada no Rio de Janeiro. Como vê esses paralelos?
Não é um paralelo, mas sim uma continuidade. O Rio de Janeiro nasce do genocídio dos povos indígenas e se constrói pelo genocídio de pessoas que foram deportadas da África para abastecer as demandas das metrópoles coloniais de produtos coloniais feito por meio de trabalho escravo. O genocídio dos povos indígenas a afrodesencentes no Brasil segue estruturando o país. A chacina cometida pela polícia do Rio de Janeiro é uma continuidade nos processos de colonização e imperialismo que persistem no presente e são marcados pela brutalização racial, assim como na Palestina. O Brasil é um dos lugares onde se prototipou a brutalidade colonial e racial. Entender isso não resguarda a sensação de terror frente à brutalidade policial e tampouco reduz a perplexidade em relação à conivência de grande parte dos meios de comunicação que trabalharam como se houvesse uma campanha coordenada.
A semântica é algo fundamental aqui, não é um detalhe. Quando a Folha de São Paulo, em recente matéria descreve a horrível e inaceitável formulação “bandido bom é bandido morto” como sendo algo da linha dura política de repressão ao crime, o que o jornal está fazendo? Não apenas se essencializa uma categoria “bandido” e se atribui a esta a matabilidade, mas se coloca dentro do espectro político um enunciado assassino. Essa formulação não é do campo político, faz parte do campo genocida. O que ocorre, semanticamente, é tornar ou tentar tornar, tolerável o que deveria ser inaceitável.
A solidariedade transnacional nos leva a entender que a bala, bomba, economia, fome, doença ou jornal que mata lá, também mata aqui. Não é possível condenar aqui e não condenar lá, e vice-versa. Quando ouço “Palestina livre do rio ao mar”, ouço um chamado planetário, isto é, pela libertação dos rios aos mares. Essa é uma das intenções que também está presente na organização dos trabalhos no Al Janiah.























