'Extrema direita quer que mulheres voltem ao modelo de Adão e Eva', diz feminista pioneira
Leopoldina Fortunati analisa que trabalhos doméstico e sexual são centrais ao capitalismo em livro publicado pela primeira vez no Brasil
Com 45 anos de atraso, O Arcano da Reprodução chega ao Brasil (Editora Boitempo). O livro clássico do feminismo italiano, lançado pela socióloga Leopoldina Fortunati, em 1981, propõe uma reviravolta teórica ao demonstrar que os trabalhos doméstico e sexual, historicamente invisibilizados, são centrais para a reprodução do capitalismo.
A Opera Mundi, Fortunati reconstrói o percurso intelectual e político que deu origem à obra. “Os homens falavam em revolução nas fábricas, mas nunca propunham isso para as mulheres”. Ela também destaca a luta feminista neste período, frisando que “a autonomia financeira é crucial para as mulheres” e que o trabalho doméstico, embora central, não é pago.
Em sua avaliação, frente ao crescimento de governos de direita e extrema direita, o trabalho doméstico tende a crescer dado o desmonte dos serviços sociais. “Os homens não têm dinheiro, o trabalho das mulheres é mal pago e o Estado não ajuda. A resposta da direita às mulheres é a volta para modelo Adão e Eva”.
Para Fortunati “a única esperança que temos é nos unirmos e vencermos” e, neste sentido, as tecnologias servem para fortalecer a construção de uma articulação internacional do feminismo.
Leia a entrevista na íntegra:
Opera Mundi: em que contexto e por que a senhora resolveu estudar o trabalho doméstico e sexual das mulheres italianas?
Leopoldina Fortunati: este é um livro militante, porque surgiu das lutas e debates das mulheres feministas durante os anos 1970. Na Itália, como em outros países, nós tivemos o movimento estudantil de 1968 e no início da década de 70, surgiram grupos extraparlamentares que desafiavam a hegemonia do Partido Comunista italiano.
Apesar de forte social e politicamente, o Partido Comunista italiano tinha uma proposta muito fraca para as mulheres. Defendia apenas a emancipação por meio do trabalho assalariado. Foi nesse contexto que Mariarosa Dalla Costa começou a desenvolver a proposta de salário para o trabalho doméstico. Nós participávamos de grupos como o Potere Operario, ligado a Mario Tronti, Antonio Negri, entre outros, que desenvolveram uma visão muito forte da classe trabalhadora, atualizando categorias de análise para o capitalismo contemporâneo.
Esses grupos, porém, não diziam nada sobre as mulheres. O mesmo ocorria no movimento estudantil. Os homens falavam em revolução nas fábricas, mas nunca propunham isso para as mulheres. O trabalho doméstico que elas realizavam não era considerado produtivo, elas eram vistas apenas como apoio, cozinhar, distribuir panfletos, enquanto a “luta real” era atribuída aos homens.
Para nós, isso era inaceitável. Então, decidimos entrar no movimento feminista que surgia inspirado no feminismo norte-americano, mas com um desenvolvimento bastante próprio na Itália. O principal objetivo desse livro foi, portanto, demonstrar que o trabalho doméstico realizado pelas mulheres é produtivo.
Por que o foco na reprodução sexual, a esfera do ciclo capitalista que diz respeito à produção de indivíduos como mercadoria para a força de trabalho?
Muitas correntes feministas falavam de sexualidade, corpo, violência, aborto, mas não falavam de trabalho doméstico. Isso ocorria porque o movimento era majoritariamente composto por mulheres de classe média, que podiam delegar esse trabalho e tinham a ilusão de que bastava sair de casa para que o trabalho doméstico desaparecesse.
Nós dizíamos: ‘não é assim’. Nosso ponto de referência era a dona de casa da classe trabalhadora, a mulher proletária, que acumulava trabalho doméstico e trabalho mal pago. Assim, permanecemos no movimento feminista, mas desenvolvendo nossa própria análise.
Nos debates públicos, que reuniam militantes, trabalhadores e cidadãos, nós percebemos a necessidade de criar instrumentos sólidos de análise para que as mulheres pudessem argumentar e demonstrar que seu trabalho não era marginal, mas central no sistema capitalista. Isso exigiu compreender o que fazíamos em casa, em que processo produtivo estávamos inseridas, como ele se organizava, seu significado, se era produtivo ou não. Ou seja, compreender nossa própria realidade utilizando categorias marxistas, mas também indo além delas quando necessário.
Até então, ninguém falava sobre isso?
Não era apenas o Partido Comunista que estava errado em sua análise, todos os economistas estavam, de certo modo, na mesma linha. Havia os que estavam convencidos de que a esfera da reprodução era, de alguma forma, pré-capitalista, ou seja, algo que não respondia aos objetivos do capital e não participava da produção de valor.
Outro grupo acreditava que a esfera doméstica era um modo de produção separado, distinto de qualquer outro modo. Assim, em certo sentido, o capital teria que integrá-la ao seu sistema econômico, mas ela era vista como algo anômalo. E havia ainda uma terceira posição, que considerava essas atividades como naturais, ‘atividades das mulheres’.
A forma como os economistas e os economistas políticos pensam o capital, a composição de classe, a reprodução, mudou completamente por causa do nosso trabalho. Há um grande reconhecimento de que a nossa análise foi capaz de produzir esse deslocamento. Mas nós não inventamos nada de novo. A reivindicação de salário para o trabalho doméstico já existia. Nos Estados Unidos, por exemplo, no século 19 e até a Grande Depressão, houve movimentos de mulheres pelo reconhecimento material do trabalho doméstico. Isso é um objetivo político que aparece, desaparece e reaparece e nós o retomamos no início dos anos 1970.

Boitempo lança “O Arcano da Reprodução” de Leopoldina Fortunati
Reprodução / Boitempo
Como a senhora avalia essa esfera da reprodução social do trabalho hoje?
Tudo mudou. Nos anos 70, a esfera da fábrica era o lugar onde havia o maior investimento do capital em tecnologia, as tecnologias mais avançadas estavam ali. Havia também maior investimento em organização, em planejamento e controle da classe trabalhadora, a fábrica era capaz de dar o ritmo a toda a sociedade, inclusive à esfera doméstica, da reprodução. Ela funcionava de forma subordinada à fábrica, porque era o salário que comandava e controlava também a classe. Hoje isso é completamente diferente. É a esfera da reprodução que se tornou a parte dominante, inclusive em relação à produção de mercadorias.
Com a centralidade da reprodução e com a inteligência artificial que temos hoje, a redução do trabalho fabril fará com que o trabalhador industrial fique em uma situação ainda pior porque, ao perder sua força numérica, ele também perde sua relevância política.
Já na esfera da reprodução, nós temos os grandes números, porque todas as mulheres fazem trabalho doméstico e o fazem em escala internacional. Em todo lugar temos filhos, cuidamos de parceiros, maridos, idosos. Então, potencialmente, temos uma força política enorme. Esse é o ponto mais importante a partir do qual a composição de classe pode ser reorganizada. E os homens precisam entender isso.
Como a esfera da reprodução se tornou mais importante?
Primeiro, porque temos os grandes números e não estamos divididas em setores, como a classe trabalhadora sempre esteve, têxtil, mecânica, química, por exemplo. Nós não temos essas divisões. Segundo, porque há agora um enorme investimento do capital na esfera da reprodução, especialmente em tecnologia. Todas nós temos computadores e celulares, uma série de tecnologias digitais e robóticas. E são tecnologias de ponta, das quais empresas como Meta, Google, etc., capturam uma enorme quantidade de valor direto.
Hoje, na reprodução, não há apenas a produção de mais-valia ligada à produção e reprodução da força de trabalho, mas também outra fonte de valor, ligada ao uso dessas tecnologias. E, nesse uso, não estão envolvidas apenas as mulheres, mas todos os membros da família. Crianças, adolescentes, adultos, idosos — inclusive os mais velhos.
Como a senhora avalia o futuro do trabalho doméstico?
Há uma falsa impressão de que o trabalho doméstico tenha se tornado residual. Ele continua muito importante e no núcleo da produção de valor. Além disso, há novos desdobramentos na organização do trabalho doméstico como o trabalho doméstico pago, com muitas mulheres racializadas atuando nesse setor. Ainda existe o setor de serviços (sociais, escolas para crianças, hospitais, creches, instituições para idosos), mas a qualidade é um desastre. Não é algo em que possamos confiar plenamente, a qualidade é muito baixa e isso se intensifica, porque o que os governos de direita ao redor do mundo estão fazendo é cortar os serviços sociais.
Isso significa que todo o trabalho doméstico organizado por serviços antes socializados está sendo devolvido para o espaço doméstico. Assim, as mulheres em casa passam a assumir cada vez mais não apenas o trabalho doméstico habitual, mas aquilo que antes era cuidado hospitalar, cuidado infantil, educação, tudo.
Além disso as mulheres que atuam nesses trabalhos domésticos são pagas pelas famílias que, diante da redução de salários, não conseguem pagá-las, fazendo com que grande parte do trabalho volte para os ombros das mulheres no interior dessas famílias. O trabalho doméstico está destinado a crescer, esse é o problema.
Basta ver como os governos de direita, como o de [Giorgia] Meloni administram os hospitais. Na Itália, há cerca de 5 milhões de pessoas que decidiram não se tratar porque não têm dinheiro para isso. No Reino Unido é a mesma coisa. Nos Estados Unidos, nem precisamos falar — é o paradoxo máximo. E na França, Espanha e em todo lugar essa tendência existe.
Então, se nos anos 1970, o movimento feminista conseguiu externalizar parte do trabalho doméstico, por meio das cadeias globais de cuidado e dos serviços sociais, grande parte disso está agora retornando. Se não formos capazes de vencer a luta pelo pagamento desse trabalho, continuaremos muito pobres. Precisamos nos reapropriar da riqueza que produzimos, se não tudo vai piorar.
Na Índia, já existem 12 estados que reconhecem o salário para o trabalho doméstico e pagam um valor mensal às mulheres. Claro, os valores são muito baixos, mas a questão é começar de algum lugar e, depois, negociar um reconhecimento maior. Precisamos começar de algum ponto. É possível que milhões de mulheres estejam destinadas a trabalhar sem qualquer reconhecimento? É esse o sistema que produz um capital tão arrogante, cada vez mais concentrado em poucas mãos, enquanto o resto do mundo apenas observa?
Ao desmonte das políticas sociais dos governos de direita, soma-se uma visão antifeminista e violenta, como vemos frente a emergência dos movimentos incel e red pill, por exemplo. Como avalia esse cenário?
Antes, as mulheres não estavam suficientemente inseridas no debate político e pediam dinheiro aos homens, aos maridos que podia aceitar ou não. Isso mudou e estamos vivendo uma crise realmente profunda no sistema de reprodução, porque a resistência e a luta das mulheres destruíram muitas mediações nessas relações, na organização da família e da sociedade.
Há muitas fraturas neste momento, as gerações jovens têm muitos problemas, os idosos estão sozinhos tentando sobreviver por conta própria. A direita reage a isso e sua resposta típica é ‘voltem ao modelo de Adão e Eva’. Meloni, por exemplo, é uma mulher com grande capacidade de comunicação, que incorpora muito do discurso feminista sobre a autodeterminação das mulheres. Mas, depois, ela diz ‘Deus, família e Pátria’.
A premiê italiana diz o que milhões de mulheres devem fazer, essencialmente, voltar à família tradicional, ao homem tradicional e ter mais filhos. Mas com base em quê? Em nada, porque hoje os homens não têm dinheiro, você precisa trabalhar e o trabalho é muito mal pago. O Estado não ajuda, não há nada de concreto. É um discurso vazio.
Meloni é mãe solteira, vive com a irmã que tem dois filhos, não é casada com o pai de sua filha. Se você olhar um por um desses líderes de direita, todos têm esse tipo de arranjo familiar, portanto não têm credibilidade para dizer como os outros devem agir, já que vivem exatamente como as outras pessoas. É uma contradição real.
Além disso, eles não entendem a produção, não entendem a taxa de natalidade, não entendem politicamente o que tudo isso significa. E, como não veem o trabalho doméstico como trabalho, ficam perdidos. São incapazes de formular uma política real sobre migração, um fenômeno complexo que precisa ser compreendido, pensado e elaborado. Nenhum deles está preparado.
Como a senhora avalia o movimento feminista hoje?
Hoje existe muito mais conexão entre as mulheres em todo o mundo. Isso é fantástico porque vemos que nossas discussões circulam. Há mulheres na Itália que estão acompanhando o Irã, que está sendo bombardeado agora, compartilhando informações conosco, assim como as mulheres de Gaza.
Então, existe hoje a possibilidade real de realizar o sonho de uma união internacional do feminismo. Isso é muito empolgante. Na edição do Arcano da Reprodução na Itália, eu trabalhei com dois arcanos: o da força, a mulher capaz de abrir a boca do leão e domá-lo sem violência; e o do mundo. Isso significava que as mulheres não serão capazes de vencer se não estiverem unidas internacionalmente.
Não podemos vencer na Itália, ou no Brasil, isoladamente. A única esperança que temos é nos unirmos e vencer em todo o mundo. Caso contrário, não conseguiremos.
O que é emancipação das mulheres, na sua visão? No que precisamos estar atentas?
Emancipação não significa que as mulheres se tornem iguais aos homens na exploração. Essa perspectiva não diz nada sobre o trabalho doméstico que acabou se tornando o segundo trabalho das mulheres, além do primeiro. A autonomia financeira é crucial para as mulheres. Nós queremos dinheiro para nos reapropriarmos da riqueza que produzimos. Só por meio dela seremos economicamente autônomas e, portanto, capazes de tomar decisões por nós mesmas e sem limitações. Para isso, precisamos mudar radicalmente a sociedade.
O dinheiro é muito importante para as mulheres. No período da acumulação primitiva, a maneira pela qual o capital conseguiu subjugar as mulheres foi tirando delas a autonomia financeira.
Agora, não podemos mudar a nossa situação sem também mudar a situação de exploração dos homens. Precisamos considerar na nossa luta os interesses dos sujeitos mais vulneráveis, como as crianças e os idosos, e também o dos homens. Ao mesmo tempo é fundamental abrir uma discussão pública sobre como queremos organizar a reprodução da força de trabalho. Se o capital, por alguma razão, entrar em colapso, o que acontece? Nós não estamos preparadas. Como queremos organizar a família? Queremos a família, não queremos? Se há quem queira acabar com a família, como nos posicionamos? Como imaginamos a maternidade, os filhos? Como pensamos o cuidado com os idosos, com nossos pais?
Há também a questão da sexualidade. Como imaginamos isso? Por exemplo, não sabemos o suficiente sobre o trabalho sexual hoje, como ele está sendo reorganizado por essas corporações digitais. Precisamos saber muito mais sobre isso. Como queremos a nossa realidade? É preciso uma discussão pública sobre a socialização do trabalho doméstico. Se não discutirmos isso, outros decidirão por nós.























