Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Há caminhos para frear o avanço do desmatamento no Brasil, mas eles esbarram em um obstáculo recorrente: a vontade política. A avaliação é da jornalista Marina Rossi e autora de O Cerco, a Amazônia invadida pelo agro (Editora Todavia), que investigou a cadeia da carne e os conflitos fundiários na Amazônia ao longo de mais de uma década de reportagem e pesquisa.

Segundo Rossi, propostas já existem e vêm sendo debatidas por especialistas, organizações e até setores do próprio mercado. “Há solução, sem dúvida. Tem muita gente boa debruçada sobre essa problemática hoje e propondo soluções viáveis”. Ainda assim, destaca que iniciativas isoladas não são suficientes para enfrentar um problema estrutural e histórico.

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Para a autora, o enfrentamento do desmatamento exige articulação entre diferentes frentes. Esse plano, segundo ela, passa por medidas que vão desde o fortalecimento da fiscalização até mecanismos mais eficientes de rastreabilidade na cadeia produtiva.

Um dos exemplos citados é o Plano Nacional de Rastreabilidade, frequentemente apontado como uma ferramenta-chave para controlar a origem da produção pecuária.

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Apesar do potencial, a implementação desse plano ainda enfrenta desafios. “É um caminho, mas depende de muitos fatores, como a aplicação real no chão da fazenda, os buracos que podem permitir fraude e a adesão dos produtores”, explica.

“Acho que já existe alguma consciência dentro do agro, inclusive por questões econômicas: as mudanças climáticas estão levando embora safras inteiras”, afirma. A dúvida, segundo ela, é se essa mudança virá a tempo de conter os danos ambientais em curso.

Leia a entrevista com Marina Rossi na íntegra: 

Opera Mundi: como foi o processo dessa investigação que resultou no livro O Cerco?

Marina Rossi: eu comecei a estudar a cadeia de produção de carne quando entrei na Repórter Brasil, em 2022, mas antes, no El País Brasil, eu já havia feito muitas reportagens sobre meio ambiente, desmatamento e a Amazônia. Quando recebi o convite da editora Todavia para escrever um livro-reportagem, utilizei parte dessa experiência de 15 anos como repórter. Muitas coisas eu já sabia, ou ao menos conhecia o caminho por onde chegar, mas outras tantas ainda não, então foi um processo de aprendizagem muito legal para mim.

Comecei investigando como e quando o boi chegou ao Brasil e passou a ser utilizado nas fazendas e a origem do caos fundiário que a região amazônica vive hoje. Consultei livros, documentos e conversei com especialistas para trazer essa história, de 500 anos atrás, para a atualidade: como chegamos até aqui? Para isso, realizei uma viagem ao sudeste do Pará, até São Félix do Xingu, município com o maior rebanho bovino do país há mais de uma década. Ali, encontrei personagens que vivem na pele o que eu até então só havia encontrado em planilhas e documentos: conflitos de terra, ameaças, violência, terras irregulares e uma verdadeira briga de Davi contra Golias.

Por fim, fui atrás de buscar iniciativas positivas, porque tem muita gente boa debruçada sobre esse tema e pensando em soluções práticas. E porque eu quis terminar o livro com esperança.

Segundo Marina Rossi, ‘iniciativas isoladas não são suficientes para enfrentar um problema estrutural e histórico’ como o desmatamento no Brasil
Vinícius Mendonça / Ibama

O livro cita sobre a “bancada do boi”, o lobby por trás, sua extensão e organização desse grupo que defende os interesses do agronegócio e proprietários rurais no Congresso. É uma formação muito sólida e até histórica. Como você avalia essa força política?

De fato é uma formação histórica. Participa do poder e da tomada de decisões quem já estava, de alguma maneira, estabelecido na sociedade, sob o ponto de vista socioeconômico. Por isso eu avalio que essa bancada sempre existiu.

E por que, na sua avaliação, uma bancada ambientalista não conseguiu se formar ou até mesmo ter esse nível de organização?

A bancada ambientalista existe, mas muito menos organizada e com menos força, até por conta de interesses econômicos. É fácil observar que o dinheiro está muito mais do lado das multinacionais produtoras, do lado dos agrotóxicos, dos grandes frigoríficos e pecuaristas, por exemplo, do que de quem defende a floresta.

Um dos pontos do acordo Mercosul-UE é impor uma rigidez contra o desmatamento, exigindo rastreabilidade total para exportações, especialmente em soja e carne. O governo brasileiro avalia com isso uma chance de conciliar a expansão do agro com o compromisso de zerar o desmatamento ambiental. É um caminho possível a partir da imposição europeia?

Eu costumo dizer que o mercado acaba regulando, mas, por outro lado, há contradições. A União Europeia impôs uma política rígida para a importação de carne brasileira, e isso pode trazer consequências positivas para a preservação da floresta. Mas é importante lembrar, primeiro, que a China é a maior compradora de carne do Brasil, seguida do Chile, Estados Unidos e Emirados Árabes.

A União Europeia fica em 9º lugar nessa lista, em termos de volume, representando somente 2,8% das exportações brasileiras em 2024. Além disso, cerca de 80% da carne que produzimos é consumida aqui dentro. Ou seja, não adianta somente a União Europeia impor essas restrições.

O Plano Nacional de Rastreabilidade, por exemplo, é um caminho para zerar o desmatamento ambiental?

É um caminho, mas depende de muitos fatores, como a implementação real, no chão da fazenda, os buracos que ele pode deixar para ser fraudado, a adesão dos produtores, além de um plano reforçado de comando e controle do desmatamento. Para zerar o desmatamento, é preciso haver um plano integrado. E para isso, muita vontade política.

Marina Rossi é autora de ‘O Cerco, a Amazônia invadida pelo agro’
Divulgação / Arquivo pessoal

Sobre ainda o cuidado com o meio ambiente, evitar desmatamento e afins, é possível o agro ser consciente com essas questões? Ou seja, haverá uma mudança na estrutura diante das mudanças ambientais?

Acho que já há uma mudança. Se a gente olhar para trás, para 20, 30 anos antes, vai perceber que um caminho já começou a ser aberto. Acho que já existe alguma consciência, inclusive por questões econômicas: as mudanças climáticas estão levando embora safras inteiras e isso é consequência também do desmatamento. A pergunta é se a tomada de consciência será pela maior parte dos produtores e se já não será tarde demais.

Estamos em ano eleitoral. A questão do meio ambiente é um dos temas decisivos, na sua avaliação? Caso não, por quais motivos entende que a pauta não é tratada como preocupação política e social?

Não acho que a questão ambiental será um tema decisivo, como nunca foi. Infelizmente a preocupação com as mudanças climáticas e o meio ambiente é uma pauta associada à esquerda, embora todos, sem exceção, vivamos suas consequências. De maneira geral, acredito que ainda não entendemos exatamente que as mudanças climáticas são consequência das nossas próprias ações.

Gostaria que comentasse sobre a violência rural. O Brasil é um país violento e a luta pela terra não seria uma exceção nesse contexto. Pouco se fala sobre?

Acho que sim, pouco se fala sobre, porque são poucos os espaços que olham para esse problema. A Repórter Brasil faz um trabalho fundamental nesse sentido, mas, de maneira geral, a imprensa cobre mal, quando cobre, essa pauta. E aí podemos abrir aqui uma nova caixinha sobre a crise da imprensa, mas acho que não é o caso (risos).

Há solução para controlar o avanço do gado na Amazônia? E o desmatamento no geral?

Há solução, sem dúvida. Como eu disse, tem muita gente boa debruçada sobre essa problemática hoje e propondo soluções viáveis. Mas, novamente, é preciso um plano integrado e, acima de tudo, vontade política.