Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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A ativista de direitos humanos Maryum Ali, filha do lendário boxeador Muhammad Ali, conversou com Opera Mundi, neste sábado (19/09), durante sua participação no Despertar 2026, evento promovido pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que reuniu 4 mil pessoas no Vibra São Paulo, na capital paulista.

Em sua palestra, Ali recuperou episódios da trajetória do boxeador e uma das maiores vozes contra o racismo, a guerra e o colonialismo. Ela destacou que o pai cresceu em uma cidade segregada e sofreu os impactos da política de segregação racial nos Estados Unidos.

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Nem mesmo a medalha de ouro conquistada nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, protegeu Ali da segregação. Maryum lembrou que, ao voltar aos Estados Unidos, ele não foi atendido em um restaurante reservado a brancos.

“Ele ficou arrasado, percebendo que a medalha não significava nada, a ponto de acabar jogando a medalha no rio”, contou. Foi nesse período, que o boxeador passou a buscar suas origens, converteu-se ao Islã e abandonou o nome Cassius Clay para adotar o de Muhammad Ali.

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Mais de meio século depois, salientou a ativista, o governo Trump vem banindo os livros que relatam a luta contra o racismo e pela justiça social, da qual seu pai fez parte. Segundo ela, obras de autores negros vêm sendo retiradas em 18 estados.

Após a palestra neste sábado, a ativista conversou com Opera Mundi e aprofundou o cenário de restrição de direitos nos Estados Unidos sob Trump. Confira a entrevista.

Opera Mundi: Você atua na defesa dos direitos humanos, qual a sua avaliação dessa área?

Maryum Ali: Direitos humanos básicos estão sob ataque, como o direito de protestar. Você pode enfrentar problemas em relação ao direito de protestar em apoio à Palestina e às crianças palestinas, por exemplo. Isso é uma violação da Constituição dos Estados Unidos, que garante o direito aos protestos pacíficos.

Há ataques contra outras liberdades. Vemos proibição de livros, o que também é vedado pela Constituição. Ao mesmo tempo é chocante vemos programas de tevê que transmitem notícias e vídeos que mostram fatos, mas, mesmo assim, esses fatos são distorcidos.

Em relação aos imigrantes, nenhum deles está passando pelo devido processo legal nos tribunais, embora isso seja um direito, segundo a Constituição. As liberdades estão sendo restringidas de várias maneiras, em particular se você é muçulmano.

Na semana passada, foi pedido uma investigação federal sobre os casos de enforcamento de pessoas negras nos Estados Unidos, eu gostaria que você comentasse o que está ocorrendo em relação à população negra.

Nós temos irmãos e irmãs perseguidos de várias maneiras. Houve uma série de linchamentos no último ano de pessoas negras sem que houvesse nenhuma condenação, são dez casos que estão sendo denunciados.

Na realidade, temos muita dificuldade de acreditar neste governo, ou em qualquer governo controlado por esta direita que tem maioria no Congresso. Diante desses linchamentos que estão surgindo, eles alegam que os próprios negros estão se matando, o que nunca aconteceu de verdade. Dizem que os próprios negros estão se enforcando em árvores. Isso é impossível de acreditar.

Estamos vendo muitas atrocidades nos Estados Unidos, em termos de direitos humanos e, também, em relação aos nossos direitos econômicos como contribuintes. Para onde vai o dinheiro dos nossos impostos? Vemos muitos políticos ficando ricos. É uma situação triste.

Como estão as expectativas em relação às midterms?

Existem norte-americanos cientes do que está acontecendo e, por outro lado, pessoas que estão em estado de negação, simplesmente levando essa vida materialista e alheia à realidade.

Como progressista, eu me desiludi com o Partido Democrata porque o dinheiro deve ficar fora da política. Não parece nada bom o que eles planejam para este momento e o futuro.

Bilhões estão sendo canalizados para o Partido Democrata e para os partidos tradicionais. Minha esperança é que nosso país tenha, um dia, uma verdadeira democracia, em que o povo realmente tome as decisões e os políticos elaborem leis para o povo.

Maryum Ali foi um dos destaques de evento realizado em São Paulo
Cortesia ICL

Qual sua opinião sobre a ascensão dos socialistas dentro do Partido Democrata?

Eles são candidatos progressistas e falam sobre questões sociais. Quem controla a mídia gosta de distorcer definições e deturpar quem as pessoas realmente são. Certo? É desinformação. Então, o que eu digo às pessoas é: vejam o que os candidatos dizem que estão tentando fazer pelo povo.

E vejam o que eles estão realmente fazendo. Então, sou totalmente a favor desse movimento e apoio as pessoas que estão surgindo e dizendo que não aceitarão dinheiro de lobistas.

Eles não aceitarão nenhum dinheiro de campanha nem de bilionários. Estão encontrando soluções e proporcionando às pessoas a qualidade de vida que elas merecem. Nunca imaginei que viveria em um país onde ir ao supermercado fosse tão doloroso.

Se você quer uma qualidade de vida minimamente decente, não vai se preocupar com termos como “socialista democrático”. Basta olhar para isso – e é por isso que (Zohran) Mamdani venceu, contra a retórica e as mentiras que estão sendo contadas às pessoas.

Como você avalia essa indústria de mentiras hoje?

Fiz esta apresentação (durante o evento do ICL) justamente para falar sobre essa estratégia já foi tentada (nos Estados Unidos). São as mentiras usadas para escravizar os brancos, as mentiras que levaram ao assassinato de judeus no Holocausto, as mentiras que matam as vidas de crianças palestinas e de comunidades pobres que foram destruídas.

Foi assim que chegamos a este ponto. Eles estão fazendo isso e usam essa mesma tática na política. É a mesma estratégia só que com um grupo diferente de pessoas. Há um grupo de pessoas que está conduzindo essa estratégia.

Na sua opinião, qual seria a opinião de seu pai em relação a Trump?

Meu pai lutou tanto, passou por tanta coisa, sacrificou-se tanto que isso ver isso tudo acontecendo é simplesmente demais. Aconteceu com ele, está acontecendo comigo. Ele era contra a opressão e o racismo e o Trump é a favor de tudo isso.

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