Marrocos normalizou relações com Israel por apoio militar contra independência de Saara Ocidental, diz embaixador saarauí no Brasil
Em entrevista, Ahamed Mulay Ali Hamadi destacou trajetória de luta dos movimentos pela autodeterminação
A luta contra a independência de Saara Ocidental tem levado o governo de Marrocos a se aproximar dos Estados Unidos e de Israel, na busca por apoio militar a financeiro contra os movimentos separatistas da região.
Em entrevista a Opera Mundi, o representante e embaixador saarauí no Brasil, Ahamed Mulay Ali Hamadi afirmou que “Trump busca uma maneira de abrir relações diplomáticas com Israel”.
“O primeiro governante que aceitou abrir embaixadas com Israel chegou a enviar – e temos informações claras e concretas sobre isso – soldados marroquinos para atuar no exército israelense contra os palestinos”, acrescentou.
Segundo Ali Hamadi, “Trump, para agradecer ao rei de Marrocos por esse trabalho, declarou que o Saara Ocidental é marroquino. Mas trata-se de uma declaração política cujo efeito prático é limitado. Outros países, claro, alinham-se a essa posição graças ao uso do dinheiro por parte de Marrocos”.
A origem do conflito no Saara Ocidental remonta ao período colonial espanhol, que se estendeu de 1884 até 1975, quando o território foi repartido entre potências europeias no Congresso de Berlim. Desde então, o povo saarauí luta por sua independência – primeiro de forma pacífica, depois com as armas, diante da recusa espanhola em negociar.
O diplomata relembra os marcos dessa trajetória: “em 20 de maio de 1973, ocorreu a primeira operação militar saarauí contra o exército espanhol. Dois anos depois, a Espanha começou a negociar com a Frente Polisário. Mas depois fomos traídos, porque Marrocos e Mauritânia não queriam a existência de uma república de caráter nacional e de língua espanhola”.
Com o fim do domínio espanhol, Marrocos e Mauritânia invadiram o território, e a luta armada se estendeu contra os dois países. Em 1979, a Mauritânia recuou: “vencemos a Mauritânia, que assinou um acordo, retirou-se do Saara Ocidental e entregou a parte que ocupava à República Saarauí. Hoje, mantemos relações diplomáticas com o país”. A guerra, porém, continuou contra Marrocos, que passou a contar com o apoio da França, dos Estados Unidos e de Israel.
O embaixador descreve o momento em que o conflito ganhou uma nova dimensão: “estávamos vencendo e fazendo o Exército marroquino recuar, mas o rei de Marrocos pediu à França e a Israel apoio para construir um muro. Marrocos construiu esse muro de 2.700 km com mais de 8 milhões de minas terrestres, e assim o país saarauí agora está dividido: uma parte ocupada e uma parte livre. Continuamos atacando o muro”.
Em 1990, o muro já estava quase destruído, e o rei de Marrocos aceitou negociar o direito do povo saarauí à autodeterminação. Em 1991, foi assinado um acordo supervisionado pela Organização das Nações Unidas (ONU), com três pontos: cessar-fogo, censo e referendo.
A MINURSO foi criada para aplicar o acordo. Mas, com a morte de Hassan II, seu filho Mohammed VI subiu ao trono e, segundo Hamadi, “passou a bloquear a atuação da ONU e do Conselho de Segurança, contando com o apoio de seus aliados no Conselho – Estados Unidos e França, que têm poder de veto. Com isso, a MINURSO não conseguiu avançar na preparação do referendo”.
O povo saarauí esperou 30 anos. Diante da inação da comunidade internacional, a Frente Polisário retomou as armas em novembro de 2020. “Não foi a ONU, não foi ninguém, foi o povo saarauí e os homens e mulheres saarauís. A guerra continua até hoje e continuará até que Marrocos aceite aplicar o direito de autodeterminação”, conta o diplomata.
Para Hamadi, há respaldo jurídico suficiente para a causa: o Tribunal de Haia, a Corte de Justiça Africana, o Departamento Jurídico da ONU e, em 2024, o Tribunal de Justiça da União Europeia já se manifestaram favoravelmente ao povo saarauí. Apesar disso, ele afirma: “aONU não conseguiu aplicar sua própria carta. Por isso, o povo saarauí pegou em armas”.
Atualmente, cerca de 60% do território está ocupado pelo Exército marroquino, e o restante permanece livre sob controle do povo saarauí.
Leia a entrevista na íntegra de Opera Mundi com o embaixador Ahamed Mulay Ali Hamadi:
Opera Mundi: O plano de autonomia proposto por Marrocos em 2007 – que manteria o Saara Ocidental sob soberania marroquina com certa autonomia local – é visto pela comunidade internacional como uma solução viável? Por que a Frente Polisário o rejeita?
Embaixador Ahamed Mulay Ali Hamadi: O plano que Marrocos apresenta – para quem estuda o regime marroquino ou a monarquia feudal –, até mesmo os americanos estão vendo que não é viável. Nós, porém, não somos contra qualquer sugestão.
Essa posição foi apresentada nas reuniões organizadas pelos Estados Unidos em Madri – na embaixada americana – e em duas ocasiões nos Estados Unidos, com a participação dos ministros de relações exteriores saarauí e marroquino, além de representantes da Argélia e da Mauritânia.
Marrocos apresentou sua proposta, nós também apresentamos nosso programa, mas dissemos que é preciso levar tudo ao povo saarauí. O povo saarauí é quem deve decidir seu futuro. Seja para ser independente, integrar-se a Marrocos, retornar à Espanha ou optar por qualquer outro destino, tudo deve ocorrer dentro do marco do direito internacional.
Precisamente hoje, neste momento, o enviado especial da ONU está nos campamentos, reunindo-se com a liderança, o presidente e o governo saarauís para discutir o direito de autodeterminação. Esperamos que a ONU possa agir de forma efetiva. Não nos opomos a qualquer iniciativa nesse sentido.
Tudo deve ser apresentado ao povo saarauí, e que ele mesmo decida. A Frente Polisário não pode falar em seu nome, nem Marrocos pode impor sua vontade. É por isso que o processo está paralisado.
Qual tem sido o papel dos Estados Unidos, França e Espanha no conflito, especialmente após o reconhecimento norte-americano (2020) da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental em troca da normalização das relações entre Marrocos e Israel?
Trump busca uma maneira de abrir relações diplomáticas com Israel. O primeiro governante que aceitou abrir embaixadas com Israel chegou a enviar – e temos informações claras e concretas sobre isso – soldados marroquinos para atuar no exército israelense contra os palestinos.
Trump, para agradecer ao rei de Marrocos por esse trabalho, declarou que o Saara Ocidental é marroquino. Mas trata-se de uma declaração política cujo efeito prático é limitado. Outros países, claro, alinham-se a essa posição graças ao uso do dinheiro por parte de Marrocos.
É amplamente conhecido o papel da corrupção nesse processo, e Marrocos sabe usar esse recurso para angariar apoios à sua tese. Por isso, alguns países declararam que a sugestão marroquina é boa. Não nos opomos a que ela seja considerada boa – desde que seja submetida ao povo saarauí.
Que seja apresentada ao povo saarauí para que vote, e que ele decida se aceita ou não. É nesse ponto que estamos agora: alguns países apoiam a pretensão marroquina de soberania sobre o Saara Ocidental. Mas, se formos justos – e aplicarmos o direito internacional –, isso não pode ser feito. A Frente Polisário e o governo saarauí não aceitarão qualquer solução que não passe pelas urnas.

Exército saarauí
Foto: Agência de Notícias Saharaui/Reprodução
Como a posição da União Europeia – principal parceira comercial de Marrocos – influencia o impasse? A UE tem pressionado por um referendo ou prefere manter o status quo?
Na Europa, temos uma importante sentença jurídica do Tribunal Superior Geral da Justiça Europeia que decidiu que o Saara Ocidental e Marrocos são territórios distintos. Aliás, eu lhe enviei a decisão traduzida para o português. A sentença também estabelece que é proibido comprar recursos saarauís através de Marrocos sem o consentimento do povo saarauí, e reconhece a Frente Polisário, assim como a ONU, como representante legítima do povo saarauí.
A Europa enfrenta, portanto, um dilema: está tentando manter relações com Marrocos e, por isso, tenta ignorar as decisões de seu próprio tribunal, ao mesmo tempo que busca uma maneira de adquirir recursos saarauís por intermédio de Marrocos.
Se essa postura se mantiver, apresentaremos uma nova denúncia ao Tribunal de Justiça da União Europeia.
O reinício do conflito armado em 2020 (após a Frente Polisário declarar fim do cessar-fogo) alterou o equilíbrio militar no terreno ou apenas aprofundou a estagnação?
O povo e o Exército saarauís já tiveram experiências anteriores com Marrocos e Mauritânia. Venceu Marrocos? Não. Venceu a Mauritânia? Não. Por isso a Mauritânia saiu e reconheceu a República Árabe Saarauí Democrática. Foi por isso que, em 1991, Marrocos aceitou negociar e reconheceu o direito da autodeterminação.
Agora estamos em guerra contra Marrocos, que está escondido atrás do muro, e estamos causando grandes dificuldades ao inimigo. Infelizmente, muitos soldados marroquinos estão morrendo, mas também sabemos de centenas deles que fugiram, que desertaram, porque sabiam que, se continuassem ali, morreriam.
Alguns foram espancados pela polícia marroquina e estão na prisão, e outros conseguiram chegar à Europa. Sabemos que vamos vencer. A guerra avança e, pouco a pouco, se tornará maior do que é agora.
Na semana passada, nosso exército realizou três operações militares no muro: destruiu trechos da barreira, atingiu armamentos e causou baixas entre os inimigos, antes de retornar. Nosso exército se move como quer, e o exército marroquino está escondido atrás do muro, porque não pode se mover. É assim que estamos vencendo.
O impasse persiste porque Marrocos não quer deixar que a ONU aplique a Carta da ONU e o direito de autodeterminação ao povo saarauí. Por isso, vamos forçá-lo a aceitar a autodeterminação.
Qual o atual cenário do conflito?
O estado atual do conflito é de guerra. Principalmente no âmbito militar, trata-se de guerra e continuará. No âmbito diplomático, estamos trabalhando, buscando mais força e mais pressão sobre Marrocos para que retorne à aplicação do acordo assinado entre a ONU e a Frente Polisário.
No nível social, seguimos construindo nosso país. Os ministérios estão em atividade, o Parlamento opera regularmente, e nossas embaixadas no mundo seguem atuantes. Seguimos fortalecendo essas estruturas gradualmente.
Acredito que todo país que se respeita, que tem em sua constituição o respeito aos povos e à autodeterminação, e cujo povo passou pelo colonialismo e lutou contra ele, deve reconhecer a República Árabe Saarauí Democrática. Esse reconhecimento forçaria Marrocos a aceitar o plano de paz e também pressionaria a ONU a cumprir seu papel no Saara Ocidental.
Além de ser membro fundador da União Africana, a República Saarauí já é reconhecida por 84 países. Esperamos que o Brasil se torne o 85º – o que seria um passo decisivo para a paz no norte da África.
Na União Africana, a República Saarauí e o Reino de Marrocos sentam-se lado a lado nos congressos e assembleias. Isso demonstra que, no plano continental, Marrocos já reconhece a República como um Estado-membro.
























