Movimento redpill transformou misoginia em ferramenta eleitoral, diz Carolline Sardá
Para comunicadora feminista, aumento dos casos de feminicídio no Brasil deve ser uma das pautas nas eleições de 2026
Ser mulher no Brasil (e no mundo inteiro) nunca foi fácil, mas se tornou muito mais perigoso no ano de 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública publicados no início de dezembro.
O levantamento mostra que apenas nos dez primeiros meses de 2025 foram registrados no país 1.075 casos de mulheres que morreram por ações de feminicídio, em episódios que não envolvem somente ataques perpetrados por cônjuges ou namorados – em novembro passado, a diretora e uma psicóloga do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET Maracanã) foram assassinadas por um professor que não aceitava ser subordinado a mulheres.
Também foram identificados nos primeiros dez meses do ano 2,7 mil ocorrências por tentativa de feminicídio, o que representa um aumento de 26% em comparação com o balanço de todo o ano de 2024 nesse tipo de caso em que a vítima consegue sobreviver.
Claro que sobreviver, nesses episódios, não significa um final feliz, vide o acontecido com Tainara Souza Santos, que foi arrastrada debaixo de um carro por mais de um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo, por um homem com quem ela se negou a ter um relacionamento e que a teria atacado quando a viu com outro homem – o autor do crime alega que não a conhecia, mas as investigações da polícia apontam que ele sim teve uma aproximação com Tainara, que não morreu após o atropelamento, mas teve as duas pernas amputadas.
Os recentes levantamentos e os casos extremos de violência registrados nos últimos dias foram o estopim de uma primeira onda de protestos organizada por movimentos de mulheres em defesa de suas próprias vidas. Os atos aconteceram no último domingo (07/12) e se reproduziram em mais de 20 cidades em todo o Brasil, reunindo dezenas de milhares de pessoas.
As manifestações reivindicaram melhores políticas de segurança para a proteção das mulheres e também uma mudança de conscientização da sociedade, principalmente dos homens, em um cenário de crescimento dos grupos masculinistas como o movimento redpill, que prega abertamente a desumanização das mulheres e incentiva posturas consideradas misóginas e agressivas.
Em meio a esse cenário, Opera Mundi entrevistou a comunicadora e ativista feminista Carolline Sardá, cujos canais e perfis nas redes sociais são alguns dos mais atuantes no combate à violência contra as mulheres no Brasil. Segundo ela, o aumento nos casos de feminicídio e violência de gênero “não é uma surpresa histórica”.
“Casos de feminicídios crescem quando discursos de ódio, políticas de austeridade e ataques às instituições de proteção ganham força. E 2025 foi exatamente esse cenário. Tem defasagem nos dados estaduais, a violência doméstica e a violência misógina no trabalho cresceram. Isso se conecta com o ambiente político dos últimos anos, em que a misoginia se transformou em ferramenta eleitoral”, comentou a comunidora.
Sardá também afirma que a questão dos feminicídios será uma das pautas do ano eleitoral de 2026. “As mulheres estão cansadas de serem estatística e estão ocupando o debate público. Quando um segmento que é 53% do eleitorado se mobiliza, isso mexe com a agenda. Se a política não quiser ouvir por consciência, vai ouvir por voto”.
Leia a íntegra da entrevista com a comunicadora feminista Carolline Sardá:
Opera Mundi: Como você analisa esse aumento nos casos de feminicídio? Os números de 2025 são maiores que o de outros anos? É possível identificar causas neste momento?
Carolline Sardá: A gente vive um aumento que não é “surpresa histórica”. Casos de feminicídios crescem quando discursos de ódio, políticas de austeridade e ataques às instituições de proteção ganham força. E 2025 foi exatamente esse cenário. Tem defasagem nos dados estaduais, a violência doméstica e a violência misógina no trabalho cresceram. Isso se conecta com o ambiente político dos últimos anos, em que a misoginia se transformou em ferramenta eleitoral. Então sim, dá para identificar causas como desigualdade de gênero, cultura de posse, radicalização online, cortes em políticas de prevenção e um discurso público que autoriza a violência simbólica e física contra mulheres.

Belém do Pará e várias outras capitais e grandes cidades brasileiras registraram atos de grande adesão no dia 7 de dezembro, convocados por movimentos de mulheres contra a crescente onda de feminicídios no país
Instragram / @pontodepautabelem
Como você avalia a responsabilidade do movimento redpill e de grupos de extrema direita nesse aumento da violência contra as mulheres?
Enorme. Eles fazem o trabalho sujo de transformar misoginia em identidade masculina. Normalizam frases como “mulher é manipuladora”, “toda mulher é vagabunda até que se prove o contrário”, “o feminismo destruiu a família” e por aí vai. Isso gera ambiente de hostilidade que legitima agressões. Agressores de mulher estão encontrando comunidades e justificativas. Esses grupos fornecem tudo isso embalado como “desenvolvimento masculino”. Temos de exemplo o Thiago Schutz (conhecido popularmente como “Calvo do Campari”), que sempre vendeu livros e mentorias sobre redpill e recentemente esteve envolvido em uma denúncia de violência doméstica.
Casos como o das professoras assassinadas no CEFET Maracanã por um colega que não aceitava ser subordinado a mulheres mostram uma nova dimensão da violência de gênero, ou isso já existia, apenas tinha menos repercussão que os crimes ligados a relacionamentos?
Mulheres sempre foram punidas quando ocupam espaços que historicamente eram reservados aos homens, especialmente cargos de liderança. Isso já aparece em estudos de violência laboral desde os Anos 90. A diferença é que hoje os casos são registrados, viralizam e desmontam a ideia de que feminicídio é “crime passional”. Não é. É controle. É punição. É poder. O caso do CEFET expôs isso de maneira brutal.
Há exemplos de políticas públicas eficientes na prevenção dos feminicídios e proteção das mulheres? O Brasil tem a Lei Maria da Penha e outros instrumentos considerados bem sucedidos, mas que não impediram essa onda atual de violência. O que mais pode ser feito?
Sim. Temos exemplos de políticas públicas que funcionam, o problema é que o Brasil nunca implementou essas políticas na escala necessária. A Lei Maria da Penha é uma das melhores do mundo, mas ela não anda sozinha. Onde existem delegacias especializadas funcionando de verdade, medidas protetivas acompanhadas, abrigos seguros e equipes treinadas, os números de feminicídio caem, porque fiscalização e resposta rápida salvam vidas. O que falta mesmo é prioridade política. A gente precisa ampliar a rede de proteção, garantir orçamento estável, formar profissionais para atender sem violência institucional e integrar os sistemas, como justiça, saúde e assistência. Precisamos de educação sexual, combate à masculinidade violenta, programas de reeducação de agressores e autonomia econômica das mulheres. Porque não adianta só ter lei no papel se o Estado continua chegando tarde demais, quando a medida protetiva está na bolsa, mas não tem casa de acolhimento para essa mulher poder ir.
Como você avalia o caso da influenciadora Cíntia Chagas, conhecida no passado recente por seu discurso abertamente antifeminista, mas que surpreendeu recentemente em um debate com a ex-deputada Manuela D’Ávila fazendo um mea culpa? O feminismo deveria acolher a influenciadora?
Autocrítica pública é rara e corajosa, ainda mais quando vem de alguém que ajudou a alimentar discursos antifeministas. Isso não zera o passado, mas abre uma porta. O feminismo acolhe todas as mulheres, sendo elas de direita ou de esquerda, feministas ou antifeministas, é um movimento político que luta pela libertação das mulheres. O que importa é se a mudança é consistente. Toda mulher tem direito de errar, fazer autocrítica, rever posições, reparar danos e aprender com quem ela atacou. É importante entender que acolhimento não significa “passar pano” ou “apagar tudo que foi falado contra o feminismo”, significa criar condições para que pessoas saiam da máquina de ódio e encontrem afeto na luta.
Qual é o papel dos homens nessa luta? Qual é o papel que os homens conscientes do problema vêm exercendo hoje e qual eles poderiam ter para reforçar o combate à violência de gênero? E os que não são conscientes?
Homens precisam começar a desmontar a estrutura que lhes garante privilégios enquanto custa a vida das mulheres. Os que já entenderam isso fazem o básico denunciando amigos, acolhendo mulheres e cobrando instituições, mas ainda é pouco diante de uma ordem inteira construída para protegê-los. Os que fingem não saber escolhem o conforto do privilégio. São os que fazem piada com feminismo, tratam nossa luta como exagero e reforçam a lógica que nos coloca em risco. Quando homens finalmente enfrentam a estrutura que os favorece, e não só as consequências dela, começa a mudança real.

Segundo a comunicadora, ‘homens precisam desmontar estrutura que lhes favorece enquanto custa a vida das mulheres’
Youtube / Carolline Sardá
Discursos como o da Michelle Bolsonaro, defendendo a submissão feminina, também são responsáveis por essa tendência? Uma possível candidatura dela, e até um mandato presidencial, podem gerar que tipo de efeitos na luta contra a violência às mulheres?
Sim. Quando uma figura pública diz que mulheres devem ser submissas, ela reforça exatamente a lógica que sustenta a violência, e a ideia de que homens mandam e mulheres obedecem. Uma candidatura dela, dependendo do tom que adote, pode fortalecer grupos religiosos ultraconservadores, retroceder políticas de igualdade e empurrar o debate para um moralismo que silencia vítimas.
A violência de gênero será uma das pautas do ano eleitoral? As manifestações deste domingo são um sinal de que as mulheres têm força para colocar esse tema no debate público em 2026?
Tudo indica que sim. O que vimos nas ruas é sintoma de algo maior. As mulheres estão cansadas de serem estatística e estão ocupando o debate público. Quando um segmento que é 53% do eleitorado se mobiliza, isso mexe com a agenda. Se a política não quiser ouvir por consciência, vai ouvir por voto.
O Governo Lula 3 tem resultados para mostrar na questão do combate à violência contra as mulheres?
Tem avanços, mas insuficientes diante da dimensão do problema. Retomou o Ministério das Mulheres, recompôs orçamento, relançou programas de enfrentamento à violência e redes de atendimento que haviam sido desmontadas. Mas ainda há gargalos sérios, como a falta de capilaridade, falta investimento constante e a falta de integração entre estados e municípios. Há um norte, mas o ritmo precisa acompanhar a urgência. E urgência é todo dia, porque as mulheres continuam morrendo no meio desse atraso.























