Sábado, 5 de setembro de 2026
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Em um decreto de 9 de julho, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, convocou eleições legislativas palestinas para 28 de novembro. Essa será a primeira votação desse tipo desde janeiro de 2006. “Esperamos que elas sejam realizadas no prazo e não sejam adiadas indefinidamente”, destaca Ubai Aboudi, pesquisador e defensor de direitos humanos, que vive em Ramallah, cidade palestina na Cisjordânia ocupada.

“Ter um conselho que seja representativo, com todas as diferentes forças políticas palestinas representadas, pode realmente proporcionar ao povo um sistema de governança mais equilibrado que possa realmente abordar os problemas que enfrentamos: a presença da ocupação, a corrupção generalizada, o roubo de recursos palestinos e a limpeza étnica dos palestinos”, afirma a Opera Mundi.

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A campanha eleitoral está prevista para começar em 6 de novembro, apesar das complexidades existentes, incluindo a guerra genocida de Israel contra Gaza, a escalada da violência na Cisjordânia ocupada e as restrições do governo Netanyahu em Jerusalém Oriental ocupada.

“Incursões israelenses, fechamentos e prisões são práticas diárias e constantes”, aponta, apesar do acordo de cessar-fogo ter entrado em vigor em outubro de 2025. No dia em que a entrevista foi realizada, Aboudi conta que nas primeiras horas da manhã, “por volta das 2h ou 3h da madrugada, a maioria das prisões é para detenção administrativa”.

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“Em geral, as mesmas políticas continuam: ataques de colonos, casas palestinas sitiadas – como está acontecendo agora, e estamos recebendo muita cobertura disso. Basicamente, vidas palestinas estão sendo visadas”, diz.

“É importante lembrar que nenhum de nós está livre até que todos nós estejamos verdadeiramente livres”, pontua Aboudi. “As mesmas políticas que estão sendo aplicadas contra os palestinos, a mesma repressão se espalharão globalmente, a menos que os povos do mundo se levantem contra isso. E podemos ver que o povo brasileiro, em geral, entende isso”, acrescenta.

Leia a entrevista completa de Opera Mundi com o defensor de direitos humanos Ubai Aboudi:

Opera Mundi: o anúncio das eleições legislativas em Gaza acontece apenas três dias depois de o Hamas dissolver seu governo. O que representa a dissolução do seu órgão de governo civil após 20 anos?

Ubai Aboudi: nós, como povo palestino, fomos comandados por uma das piores lideranças que já existiram – uma que falhou em atender às nossas aspirações como povo por liberdade, por uma sociedade democrática, por desenvolvimento, por descolonização. O que aconteceu, na verdade, foi que tivemos uma liderança que é cúmplice, eu diria hoje, em grandes escândalos de corrupção, abuso de poder e algumas das piores práticas já vistas.

Portanto, essas eleições representam uma oportunidade bem-vinda de mudança. Embora sejam afetadas por muitos desafios, um deles é o fato de estarmos sob ocupação ilegal de Israel. A ocupação pode não permitir o pleito eleitoral ou reprimir aqueles que concorrem com uma pauta de libertação nacional ou de proteção dos direitos palestinos.

Também há forte interferência das potências ocidentais, especialmente dos Estados Unidos, nas eleições. Na última vez em que foram convocadas, por exemplo, as eleições foram canceladas com base em uma recomendação de Washington. Portanto, o que temos aqui é uma situação precária. Mas, apesar disso, o povo quer mudança. Então, talvez essas eleições ofereçam uma oportunidade – ou abram uma porta – para a mudança.

Em relação ao Conselho da Paz que Donald Trump criou para a reconstrução de Gaza, isso pode ter influência no pleito eleitoral?

O conselho que foi criado, de acordo com a resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), deveria ter seu mandato limitado a apenas duas coisas: acabar com o genocídio e a reconstrução de Gaza. Eles não têm soberania ou governança sobre o povo palestino. Eles não têm soberania sobre as terras palestinas e não podem agir sobre essas terras nem sobre o povo palestino sem a nossa anuência.

Então, ele falhou em ambas as suas funções até agora, embora esteja ativo há quase oito meses. O que estamos vendo a esse respeito é o seguinte: primeiro, o genocídio continua – bombardeios israelenses, assassinatos e o cerco à Faixa de Gaza seguem ininterruptos. Segundo, Israel também impediu praticamente qualquer reconstrução em Gaza. O que estamos vendo agora, por exemplo, é que a situação de segurança alimentar e de subsistência das pessoas é muito precária até este momento.

Portanto, esse Conselho recebeu um mandato no qual está falhando – e não deveria se estender a questões políticas, sob risco de violar o direito do povo palestino à autodeterminação.

Presidente Abbas vota nas eleições para a liderança do Fatah em Ramallah

Presidente Abbas vota nas eleições para a liderança do Fatah em Ramallah
Foto: Wafa

O Hamas anunciou Khalil al‑Hayya como novo líder político do grupo. Além disso, a questão do desarmamento é frequentemente apontado como motivo para a retirada da ocupação israelense. Isso representa algo para as eleições palestinas?

Eu diria que até mesmo o presidente Mahmoud Abbas se tornou realmente obediente, por falta de um termo melhor, ao que Israel está fazendo, agindo sob suas direções e não contrariando os israelenses, mesmo quando eles não querem que ele o faça. Eles enfraqueceram a Autoridade Palestina a ponto de a instituição poder colapsar.

Hoje, por exemplo, os funcionários do setor público têm salários atrasados de cerca de 14 meses. As pessoas estão sofrendo. Pacientes com câncer na Cisjordânia não estão recebendo seus medicamentos porque a Autoridade Palestina não tem dinheiro para pagar as clínicas. Pessoas que deveriam receber assistência – aquelas que são marginalizadas, muito pobres, que precisam de ajuda alimentar e de saúde – não estão recebendo nenhum desses serviços porque Israel controla a situação financeira e as receitas fiscais da Autoridade Palestina, ou a maior parte delas – cerca de 80%.

Então, a esse respeito, o que estamos vendo neste momento é que Israel está criando um pretexto após o outro para que os palestinos não tenham o direito à autodeterminação. E foi ainda além, porque a intenção de cometer genocídio não tem como alvo parte da sociedade palestina ou parte do espectro político – quer exterminar a totalidade do povo palestino.

Estamos vendo isso acontecer. Eles estão usando o desarmamento do Hamas como pretexto. Quando os líderes do Hamas estavam se reunindo para discutir como se desarmar e dar os primeiros passos para entregar suas armas, o que vimos foi que os israelenses os bombardearam. E eles continuam bombardeando Gaza hoje, enquanto falamos. Portanto, a esse respeito, não vejo que as ações de qualquer partido palestino influenciem a direção de Israel em relação ao genocídio ou à sua posição.

Como está o Fatah no momento?

O Fatah acabou de realizar uma conferência há um mês. Eles elegeram Yasser Abbas, filho do atual presidente, para o órgão máximo do Fatah, o Comitê Central do partido. E o que se ouve nas ruas entre os palestinos é que ele está sendo preparado para substituir o pai como o próximo presidente da Autoridade Palestina, o que está gerando muito descontentamento dentro do próprio Fatah.

Estamos vendo que a divisão dentro das fileiras do Fatah é evidente para todos. Há conversas abertas sobre cinco ou seis listas de dissidentes do partido que querem criar suas próprias chapas e concorrer às eleições. Então, eu não diria que o partido está indo bem.

Além disso, a liderança de Mahmoud Abbas – que é o presidente não apenas da Autoridade Palestina, mas também do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e do Fatah – contribuiu para a situação atual que estamos vivendo como povo palestino. Hoje, especialmente na Cisjordânia, colonos israelenses estão sitiando famílias palestinas, destruindo propriedades palestinas e promovendo a limpeza étnica dos palestinos de suas terras – com, é claro, nenhuma ação da atual liderança palestina.

Em 27 de outubro acontecerão as eleições para o parlamento israelense. Isso pode influenciar as eleições palestinas?

Este é, na verdade, o primeiro governo em muitos anos em Israel a cumprir integralmente seu mandato de quatro anos. O genocídio cometido por este governo foi amplamente apoiado pelo público israelense em geral. Não é apenas um problema deste governo, é também um problema da sociedade israelense.

Então, o que estamos vendo é que Israel terá suas eleições e, muito provavelmente, um governo diferente surgirá. Acreditamos que a maioria das políticas israelenses de limpeza étnica, racismo e apartheid continuarão. Mas esperamos que, com uma nova formação governamental, pelo menos o genocídio possa parar. No entanto, também entendemos que isso depende totalmente da pressão internacional. Se houver pressão internacional suficiente sobre a sociedade e o governo israelense, então eles terão que escolher políticas diferentes em relação aos palestinos.

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