Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
APOIE
Menu

Em O Lado de Lá (Bazar do Tempo, 2026), a escritora argentina e brasileira Paloma Vidal aborda o tema das desigualdades sociais, deixando de lado o registro autobiográfico, que caracteriza sua literatura, para romper as fronteiras do real e libertar a crítica social e o ódio contra a violência de gênero. “Nós somos reféns disso”, afirma.

O livro, que chega somente agora ao Brasil, foi publicado originalmente em 2021, na Argentina, como La Banda Oriental. Nele, Vidal adota recursos da linguagem teatral, marcada pela contenção de diálogos e espaços, em um cenário dotado de forte simbolismo. Este é também seu primeiro livro escrito em espanhol.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

Em entrevista a Opera Mundi, a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) explica suas escolhas para construir esse romance e permitir que os leitores possam “entrar”, de fato, na crítica social através da literatura. “Se fosse só sobre o mundo dos ricos ou só a violência e a exclusão, as pessoas olhariam isso de fora”, afirma.

O romance acompanha as transformações de uma menina, sobrinha da trabalhadora doméstica de uma mansão de brasileiros no Uruguai, que é fascinada pelo Brasil. A aproximação com os ricos, no entanto, é violenta, alterando a percepções da personagem e confirmando a intuição do seu fiel cachorro. “Vivemos essas violências o tempo inteiro em países como o Brasil, a Argentina, o Uruguai. Na verdade, em todos os lugares”, declara a escritora, ressaltando sua identidade como argentina e brasileira.

Mais lidas

Vidal também defende a literatura de registro autobiográfico que vem sendo produzida pelas escritoras brasileiras, “nós precisamos contar as nossas vidas”, afirma. Ela ainda menciona a difícil situação do país vizinho sob o governo Milei, destacando um sentimento de resiliência e resistência entre seus amigos. Quanto à Copa do Mundo, confessa: “sim, torci muito pela Argentina”.

Acompanhe a entrevista:

Opera Mundi: Em O Lado de Lá, você opta por um formato diferente da literatura que você vem fazendo. Como aconteceu essa mudança e o que é este livro?

Paloma Vidal: É um livro de crítica social, a partir da literatura, de uma forma mais livre. A literatura sempre é uma crítica social, porque tem essa capacidade de explicitar o que as pessoas não querem que seja visto. Neste livro, eu toco em assuntos delicados como a violência de gênero e de classe.

Eu quis escrever sobre desigualdade social, exclusão e violência, mas tinha dificuldade de me aproximar desse universo. Eu tenho uma literatura muito autobiográfica e que trabalha com questões próximas, com personagens meio inventadas, mas que giram em torno de um núcleo de afinidades.

Ao começar a escrever sobre uma realidade muito diferente da minha, eu pensava: “não vou aguentar, vou sofrer, não vou me identificar”. Ao mesmo tempo, sentia um impulso muito forte de entrar nisso. Eu havia lido Delírio de Damasco (Cultura e Barbárie, 2012), da Verônica Stigger, os contos do André Santana, autores que sempre curti muito, mas sentia que não seria capaz, por exemplo, de entrar na cabeça das personagens horríveis do André.

Cada livro te exige uma escolha e este foi um desafio para mim. Por isso, ele é tão estruturado. Eu criei muitas restrições para escrevê-lo, trabalhei com poucos espaços e poucas falas. O livro foi salvo pela menina e pelo cachorro que, mais do que uma voz, trazem esse olhar frágil e irônico.

Se fosse só sobre o mundo dos ricos ou só a violência e a exclusão, as pessoas olhariam isso meio de fora. Eu queria que elas fossem entrando. Se eu tivesse optado por um registro mais realista e subjetivo, teria de ficar dando um monte de explicações, correndo o risco de um “mea culpa” ou de não assumir todas as limitações para tocar em assuntos que eu precisava retratar. Por isso, eu parti para a ficção total.

Paloma Vidal ultrapassa fronteiras em romance sobre exclusão social e violência de gênero
Reprodução / Bazar do Tempo

Essa é uma vivência que a gente tem muito forte. Vivemos essas violências o tempo inteiro em países como o Brasil, a Argentina, o Uruguai. Na verdade, em todos os lugares, e nem percebemos como, às vezes, quando queremos explicar o que nos indigna, faltam palavras.

Fica aquela coisa banal, a gente fica dizendo que todo mundo já sabe. Você tem que dizer aí no plano da política, não tem outro jeito. No âmbito da militância, é preciso ficar martelando e dizendo as coisas 500 vezes e falando de feminicídio. Mas, na literatura, é outra história. Foi muito desafiador e muito interessante sentir que posso fazer outro tipo de texto.

Quando você começou a escrevê-lo?

Eu comecei a escrever em 2013. Dois anos depois, fui convidada a escrever uma peça coletiva na Argentina e ali surgiu a primeira cena da menina e do cachorro na piscina. Em 2016, quando voltei ao Brasil, eu trabalhei bastante no livro, nós estávamos no meio de todas aquelas coisas acontecendo contra o Lula. Depois, eu parei e só voltei a este romance em 2019. Ele me acompanhou por muito tempo e foi o primeiro que escrevi em espanhol. Ele foi publicado primeiro na Argentina, em 2021, como La Banda Oriental.

Nesse período, eu também publiquei o Pré-História (7 Letras, 2020), que trata de uma separação atravessada pela política. Comecei esse romance em 2018, durante as eleições, e publiquei em 2020. Nele, eu trabalhei a discussão sobre o que é ser de esquerda e de direita.

O romance aborda a nossa capacidade de indignação diante da desigualdade social, que é própria da esquerda, e também esse discurso da direita de que “o capitalismo é assim mesmo” ou de que “o comunismo deu errado”. Essa discussão é ponto cego de um casal que se separa. Já no início desse romance, indico: “este livro é a sombra de outro”, referindo-me a O Lado de Lá.

Está explicada, então, a forte presença do teatro e como esse tema já vinha te acompanhando.

O teatro mostra mais do que diz. Ele tem uma economia espacial e eu quis trabalhar com poucos elementos: a piscina, a entrada, a casa. Tem essa superposição de cenas e a repetição desses capítulos.

A ideia era mostrar que essas questões são uma marca da nossa sociedade e que nós somos reféns disso. Eu quis construir esses dois universos e foquei na transformação dessa menina que começa de um jeito e termina de outro. O livro é a revolução que ocorre com ela.

Os ricos são uma espécie de bando e eu trabalhei com personagens planas, sem muita profundidade. O convidado apresenta uma certa ambivalência, tem um pouco a insegurança desse novo rico. A mulher dele é a única que construí com um certo traço autobiográfico, ela lê Os Miseráveis, usa óculos de aros grossos.

Eu havia lido Coisa de Rico (Todavia, 2025), do Michel Alcoforado, que me ajudou a construir esse universo. Mas ele é sociólogo, estudou e trabalha com referências de uma pesquisa. Outro dia, li que a moda dos ricos agora é não pintar mais as unhas, isso entraria com certeza no romance.

Você inclusive usa as notas de rodapé.

Eu me diverti fazendo aquelas notas absurdas de rodapé e insisti em mantê-las, porque havia uma preocupação de que elas deixassem o texto datado, por exemplo, a referência às novelas do Manuel Carlos. Mas eu insisti, porque queria recriar esse universo em que a televisão, a TV Globo em particular, atuava como uma espécie de ímã daquilo que todos consumiam coletivamente. Isso mudou muito hoje com a internet.

As notas também trazem esse elemento de verossimilhança para a narrativa. A menina lê revistas velhas. Ela, a tia e o cachorro vivem das sobras dessa casa, então, isso faz sentido nessa espécie de jogo dos restos. Ao mesmo tempo, construí esse retrato dos ricos a partir de caricaturas e oposições, como a empregada e o padrinho contracenando.

O padrinho, que é quem realmente manda, traz essa a parte de humor, que eu sempre tive dificuldade em trabalhar. O meu lance sempre foi partir de sentimentos mais melancólicos ou ligados à minha história.
Então, eu usei os clichês desse universo dos ricos que permitiram a ironia. Isso foi importante, inclusive, para dar força às partes mais densas da história.

Entrando nessa densidade, no segundo ato, você adiciona às desigualdades sociais toda a questão da intimidação e violência de gênero. Como foi trabalhar isso?

Outro dia, uma amiga me perguntou: “mas, ela foi ou não estuprada?”. Eu optei por deixar isso ambíguo, focando na tensão dessa menina. Quando aparece um homem e você é muito nova, tem toda a questão dessa masculinidade que parece que vai te dar algo a mais.

A pessoa invade sua vida te oferecendo coisas e às vezes é muito menos óbvio para quem está vivendo isso. Essa ambiguidade era importante para mim, porque é uma vivência que tenho e, quando isso acontece, as coisas não são tão claras. Você acha que é especial porque aquela pessoa olhou para você.

A menina fica em dúvida se está sendo ou não violentada. Eu quis trabalhar esse sentimento. Ela foi fundamental, porque ali, embora com todas as distâncias culturais, de classe e de contexto, porque ela é uma personagem que está em um contexto muito específico e diferente do meu, havia ali uma coisa minha.

Muitas mulheres já passaram por isso e eu abordei essa questão em várias ocasiões, inclusive na cena inicial de Mar Azul (Rocco, 2012). Em outros momentos, inclui a presença das amigas e, neste livro, construí essa outra menina do jornal.

Essa menina violentada, que vem desse recorte de jornal, fortalece essa ideia da violação, mas também a força da reação que essa personagem tem, inclusive rompendo com os traços realistas da narrativa no final.

Era muito importante que fosse assim. Eu não queria retratá-la apenas como uma vítima. Quando a gente entra no processo da escrita, as coisas vão se apagando um pouco. Eu não tinha um caminho já estabelecido e não sabia o que ia acontecer.

Inclusive, eu mostro meus textos para algumas pessoas lerem. Sobre esse final, a Luisa Valenzuela, que é uma grande escritora e amiga, dizia “não sei, não sei”, mas eu insisti neste tom meio fantástico, porque queria que essa menina pudesse, de fato, reagir e transformar a violência nessa energia de ódio. Há toda uma discussão sobre a potência do ódio no feminismo, de que as mulheres possam colocar isso para fora.

A saída que encontrei foi um final meio Cesar Aira, um autor argentino cujos livros já traduzi, que se permite esse tipo de coisa. Eu nunca tinha ido por esse caminho mesmo do fantástico, nessa fronteira borrada entre o real e o irreal.

Há também muitos elementos simbólicos, como essa piscina preta que magnetiza a gente.

Tinha de ter esse cenário. Eu queria essa piscina como uma espécie de ímã, um lugar que chama todo mundo. Foi muito delicado fazer com que ela não fosse somente uma imagem negativa. O livro todo tem o esforço de criar a ambiguidade no olhar dessa menina e de que isso, ao mesmo tempo, se resolva em uma afirmação de identidade forte.

A gente quer afirmar as identidades e as revoltas, mas isso pode ficar muito esfaqueado. Se eu dissesse, simplesmente, que “ela é uma menina pobre, excluída, violentada”, isso retiraria totalmente a complexidade e a delicadeza que essa personagem precisava.

A piscina tem esse caráter ambíguo e é o lugar que vai acolher essa explosão. Isso precisou ser trabalhado na linguagem mesmo. A primeira fala da menina, ‘qué linda’, é sobre a piscina preta. Linda, mas é terrível, porque muitas coisas acontecerão com ela ali dentro.

A piscina é interessante, porque, quando você coloca o ladrilho preto, ela absorve mais o Sol, para a água ficar mais quente. Não são tão comuns piscinas pretas, mas nesse mundo dos ricos são. Eu achei uma imagem bonita e sinistra e, ao mesmo tempo, misteriosa. O livro trabalha com essas oposições, porque essa menina também está fascinada por essas pessoas vestidas de branco que estão na casa.

Outra marca é a relação Brasil e Uruguai, português e espanhol. Você é argentina e brasileira e, como você mencionou, foi teu primeiro livro em espanhol. Como foi revisitar essas identidades?

O espanhol é minha língua materna, eu nasci na Argentina e falo com meus pais em espanhol. É uma identidade linguística muito forte, eu tenho amigos lá e uma relação com a literatura argentina. O romance se passa no Uruguai, que tem uma proximidade muito grande com a Argentina, a gente atravessa de Buenos Aires para Montevidéu. O Uruguai é a banda oriental, o outro lado do Rio da Prata, daí o título do livro.

Eu faço traduções e elas mudaram muito a minha relação com o espanhol, já traduzi dois livros da Clarice Lispector, Legião Estrangeira e O Sopro de Vida. Mas escrever é outra coisa. Eu sempre escrevi em português e penso o espanhol como a língua da infância, a que falo com meus pais. Eu falo, dou aula e escrevo em português.

Essa decisão de escrever em espanhol também teve algo de liberação, porque escrevi do único jeito que saberia em espanhol, onde tenho menos recursos. Isso me possibilitou essa linguagem mais literal no romance. A menina e o cachorro precisavam de uma linguagem mais básica, curta, de pensamentos simples.

Isso também ajudou na minha dificuldade com o tema. Eu não queria uma linguagem elaborada. Poderia dizer as coisas de uma maneira simples e direta e entrar no universo da criança e do cachorro.

E foi você quem traduziu do espanhol para o português?

Sim. As pessoas que leram o livro em espanhol me cobravam: “ele tem que estar em português”. E eu tinha aquela postura: “já foi, já escrevi, publiquei”. Anos atrás, eu traduzi um livro meu para o espanhol, mas depois disso não quis mais. Agora, traduzir do espanhol para o português foi outra coisa e me deu algumas liberdades.

Eu pude tomar decisões, como a de deixar essa menina falando em espanhol, com frases simples que os leitores podem entender, afinal, são línguas irmãs. Dependendo de como você constrói, é possível entender totalmente. Isso, obviamente, muda a versão espanhola que tem tudo em espanhol, com exceção das telenovelas. Foi um trabalho muito legal de edição.

Como você vê essa explosão da literatura mais autobiográfica hoje, em particular das mulheres? Quais os limites disso?

As mulheres tomaram mesmo esse espaço da literatura autobiográfica. Há coisas incríveis sendo escritas tanto aqui dentro como lá fora. A Annie Ernaux ganhou o Nobel por uma literatura profundamente autobiográfica. Ainda há muito a ser feito, nós precisamos contar as nossas vidas e cada uma achar o seu caminho para fazer isso.

Eu continuo fazendo esse tipo de literatura e, na verdade, estou lançando dois livros na Flip. Um de contos, que segue uma linha que mistura o ensaístico e o autobiográfico; e O Lado de Lá, que eu escrevi em espanhol e publiquei em 2021 na Argentina.

Agora, estou escrevendo um livro relacionado à minha mãe e vem outra história: o que será que ela quer que eu conte? Ela está viva, trabalhando, há essas questões na escrita autobiográfica.

Cada livro exige uma escolha e é um desafio. O Mar Azul, que tem essa cena da violência, também é bastante ficcional, mas, depois dele, eu fiz livros muito autobiográficos. No Pré-história, por exemplo, eu escolhi como mote não mentir em um livro dirigido ao meu ex-marido. E sabia que, se eu mentisse, ele diria: “isso aqui não foi assim”.

Para fechar, você torceu para a Argentina? Como você está vendo o Milei?

Eu torci muito pela Argentina justamente por causa do Milei. Eu ecoo muito o que os meus amigos falam, até porque estou aqui e nós temos outra perspectiva. No início, havia aquela coisa de “é melhor perder logo, porque vai beneficiar um governo horrível”, mas eu comecei a ver que meus amigos estavam felizes. A situação por lá está muito difícil e já vinha, mesmo antes deste governo, com crises econômicas, depois veio a pandemia, aprofundando. Mas eles estavam animados com os jogos: “não, a gente está superfeliz”.

Há mil contradições o tempo inteiro. A Argentina, assim como o Brasil, tem uma herança colonial terrível, com elites horríveis e muitas coisas, assim como aqui, ainda não foram elaboradas. O racismo é realmente uma questão complicadíssima. É um país que enfrenta dificuldades de todas as ordens, ao mesmo tempo, há essa sensação de que existe uma resiliência, uma resistência.

Eu estava traduzindo a poesia do Cortázar, que saiu da Argentina muito cedo. Ele não retornou e passou o tempo todo com esse horizonte de voltar e se relacionar com o país. Essa é uma identidade que gruda mesmo e, no meu caso, eu sempre digo: sou uma escritora brasileira e argentina. Isso pode parecer incompatível, mas não é.