Sábado, 7 de fevereiro de 2026
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Um documentário sobre cientistas que estudam a possibilidade de ressuscitar mamutes, primos gigantescos dos elefantes, chamou a atenção da escritora Silvana Tavano durante a pandemia da covid-19. Intrigada com o resgate dos animais pré-históricos para restaurar o ecossistema no Ártico, ela começou uma busca por informações que culminou na escrita do premiado Ressuscitar Mamutes (Autêntica Contemporânea, 2025).

A Opera Mundi, Tavano contou como escreveu o livro vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura, por onde já passaram Dalton Trevisan, Chico Buarque e Itamar Vieira Junior. “Esse livro foi escrito por espasmos”, disse, ao analisar o quanto a pandemia mexeu com sua percepção sobre o tempo e a morte.

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Tomando como metáfora o ressuscitar dos animais pré-históricos, o romance trabalha o ciclo morte-vida para abordar o árduo processo do luto da mãe. O episódio, segundo Tavano, ancora-se na realidade, mas ela garante que “a mãe da narradora tem muito de ficção” ao ponderar que a memória é um processo de contínua reconstrução.

Reunindo ensaio, ficção e memória, o romance traz uma profusão de referências científicas e culturais relacionadas à ideia do tempo. “Eu não consigo viver este momento e não pensar sobre o tempo”, afirmou a autora, que escreveu sobre essas leituras sem pretensão de publicá-las.

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O tempo e o ciclo morte-vida permeiam o trabalho da autora paulistana, que atuou durante décadas como jornalista, iniciando sua produção literária na literatura infantil, seara que lhe rendeu, em 2022, o Prêmio Jabuti por Sonhozzz (Salamandra, 2022). Escrever ficção para adultos sempre esteve no horizonte, o que a motivou a estudar escrita criativa no Instituto Vera Cruz, onde ministrou vários cursos. O Último Sábado de Julho Amanhece Quieto (Autêntica Contemporânea, 2022) foi seu primeiro romance.

Leia a entrevista de Opera Mundi com Silvana Tavano na íntegra: 

Opera Mundi: Silvana, como começa o processo de criação de Ressuscitar Mamutes? Era uma ideia antiga?

Silvana Tavano: esse livro foi escrito por espasmos durante a pandemia [da covid-19]. Fui escrevendo como um pequeno parêntese entre as várias atividades, porque nós trabalhamos muito naquela época. Eu largava o aspirador e ia dar aula, lavava a roupa e voltava para outra aula e quando sobrava tempo, eu lia e escrevia.

Desde 2018, eu tenho um grupo de escrita chamado “Senta e Escreve”, que reúne 12 escritoras. Na pandemia, nós estávamos completamente desoladas, ninguém conseguia escrever porque estávamos imersas naquela perplexidade, então, alguém sugeriu uma “pandemia news”, um jornalzinho de exercício para mantermos a escrita em movimento.

Eu estava lendo muito sobre o tempo, de Proust às confissões do Santo Agostinho, passando por Einstein e Carl Sagan, então comecei a escrever pequenos tópicos dessas leituras em uma série que chamei de “fragtempos”, porque eram textos curtos. Era tudo o que eu conseguia escrever.

Então, um dia, o meu marido me chamou para ver um documentário sobre cientistas que buscavam ressuscitar animais pré-históricos para resgatar o ecossistema da Era do Gelo no Ártico. O objetivo deles é evitar o degelo e manter o permafrost, a camada congelada da crosta terrestre. Era o tipo de documentário que eu jamais veria sozinha, mas aquilo me intrigou. Eu corri para o Google e descobri que havia gente do mundo inteiro trabalhando nisso e que a pesquisa tinha implicações muito mais viáveis, inclusive, para lidar com espécies hoje em extinção.

Isso acabou virando um daqueles “fragtempos”, que eu chamei de “Ressuscitar Mamutes”. Ele começou com 20 a 30 linhas e foi crescendo.

Os fragtempos já anunciam, então, o tema central do livro. Por que falar sobre o tempo?

Quanto mais eu envelheço, mais eu penso na morte. Isso é bom porque me deixa atenta para a felicidade. O tempo sempre me provocou. Tenho vários livros escritos para crianças que abordam essa temática, o Como Começa, O Mistério do Tempo, relançado recentemente. O Último Sábado de Julho Amanhece Quieto, meu primeiro romance, fala uma mulher que descobre que está grávida no mesmo momento em que perde o marido, tocando neste ciclo morte e vida.

A aceleração do tempo durante a pandemia, com milhares de mortes acontecendo, fez com que eu pensasse ainda mais sobre isso. Nós vivemos o tempo suspenso, em que o relógio não fazia o menor sentido. Não tínhamos domingo, nem segunda-feira, os dias eram iguais. Quem teve o privilégio de ficar em casa, porém, trabalhou muito. Havia a sensação de que o tempo se dilatava e não passava, mas muita coisa estava acontecendo lá fora.

A questão da relatividade do Einstein ficou muito concreta para mim. Aquela imagem de quando estamos num trem e a paisagem passa voando, mas, quando estamos parados, a percepção do tempo é outra. Nós sentimos isso, estávamos parados em casa e o tempo voando em uma progressão absurda do número de mortes. Isso trouxe, também, a sensação de que somos nós que passamos pela vida. O tempo é um espaço, uma sensação de eternidade que ninguém vive, nós precisamos acreditar no relógio, na dimensão em que as coisas acontecem.

Além disso, nós estamos enfrentando uma mudança na percepção do tempo, muito determinada pela velocidade das tecnologias, o que nos deixa mais dispersivos, menos concentrados, pensando em várias coisas simultaneamente. Eu não consigo viver este momento e não pensar sobre o tempo.

No meio disso, eu comecei a ler muito sobre o tempo e fiz um curso com o Manuel da Costa Pinto, na Escrevedeira, sobre a obra do [Marcel] Proust, Em Busca do Tempo Perdido, que foi maravilhoso. Ele abordou a forma de lidar com o tempo nas cenas, mostrando formalmente esse processo, naquelas frases intermináveis que viram páginas e páginas, alargando a narrativa como demonstração do tempo circular.

Como essa descoberta da pesquisa científica e essa sensação que você descreve durante a pandemia saltaram para a questão do luto?

O que mais me intrigou foi a ciência buscar soluções no passado para questões que nos atormentam no presente, tentando melhorar o futuro. Aí eu lembrei do processo terapêutico. Quando a gente vai à terapia, na prática, o que estamos fazendo é escavar o passado. Então, o luto veio nesse processo, quase como uma intuição, porque a escrita tem muito de intuição.

Essa memória começou e eu a deixei fluir, porque a mãe dessa narradora me permitia colocar em cena toda essa questão da simultaneidade do tempo. Eu já estava escrevendo sobre ela quando veio a história da mamute bebê que emergiu da tundra. Esse caso chegou pronto para mim. Uma pequena mamute, de dois ou três meses, foi encontrada por um pastor na Sibéria, com a carcaça muito preservada, com pelagem, inclusive. Ela foi chamada de Lyuba, que é o nome da esposa desse pastor e que, em russo, significa amor.

Uma pequena mamutinha emergindo neste nosso presente para contar a história de um passado milenar. Ela está em estado perfeito de conservação, segundo os cientistas, graças ao leite materno, porque ela tinha acabado de mamar quando morreu. Isso fez todo o link e, a partir daí, os mamutes começaram a surgir. Foi igual quando a gente fica grávida e na rua só vê bebês. Eu estava trabalhando essas memórias e comecei a achar interessante compor esse texto híbrido, com fabulação, ensaio, ciência e memória. A [escritora] Natália Timerman chamou de “mãemamute”.

A partir daí aqueles exercícios iniciais do grupo de escrita tomaram forma com a reflexão sobre o tempo. Eu entendi ser preciso, como os cientistas, viajar no tempo para trazer essa mãe de volta. E as coisas foram se encaixando de um jeito muito interessante. É um processo um pouco mágico, embora eu não goste de usar essa palavra, mas é algo totalmente inconsciente. Você vai juntando, puxando e a história vem.

E a escolha de compor o romance com ensaio, ciência e memórias?

Na época, eu estava lendo o [Julio] Cortázar que faz esse exercício de partir de uma situação banal e a partir de fragmentos do real nos coloca numa realidade fantástica que diz tanto. Eu queria brincar com isso porque era preciso ultrapassar esse real para resgatar essa mãe e chegar no impossível. No começo, eu tive muita dúvida em publicar, porque os fragtempos, para mim, não eram um livro.

Foi a [escritora] Gabriela Aguerre quem me disse, em uma dessas reuniões do “Senta e Escreve”, “para que esses títulos entre um texto e outro? É um texto só”. Ela me fez ver coisas que não vemos quando nós estamos imersos no texto.

‘Não consigo viver este momento sem pensar sobre o tempo’, afirma escritora
Foto Renato Parada

Como foi esse trabalho com a memória dessa mãe, a morte dela é real?

Sim e por isso eu tive certo pudor em tocar em um assunto tão umbilical. Obviamente que tem muita coisa da minha mãe, mas tem muita invenção. Ela nunca quis ser aeromoça, por exemplo. A ficção foi friccionando o real o tempo todo, mas há muita invenção. A questão entrou porque essa figura da mãe traz essa sensação de eternidade do tempo.

Foi muito interessante porque depois que o livro foi publicado, as pessoas começaram a me escrever dizendo “eu vi minha mãe no que você escreveu”, “vi minha relação com a minha mãe”, a parti daí eu compreendi que a personagem já não era a minha mãe, mas a mãe de muita gente.

A relação entre mãe e filha é, também, sempre muito complexa. Em geral, tem muito afeto, mas também culpa, raiva, mágoa. Isso pega todo mundo. A mãe dessa narradora não é uma mãe idealizada. Ela é muito representativa de uma geração de mulheres que não puderam estudar além do colegial e foram obrigadas a se casar. Mulheres que apostaram tudo em um casamento que acabou sendo um fiasco. Algumas viveram esse fiasco durante muitos anos, outras não, mas carregaram muita frustração.

O que eu mais gostei de fazer foi inventar vidas, assim como os cientistas. A partir de um indício, eles imaginam como era o bicho inteiro, o que ele fazia, quantos passos deu até se afogar no lago. Ao imaginar vidas, você faz planos para esse passado. E isso é o que todos nós fazemos quando lembramos de algo. “Ah, é memória”, sim, mas tem tanta invenção no livro, coisas que não sei se aconteceram de fato e outras que juro que sim, mas minha irmã, dez anos mais nova, garante que não.

A memória é plástica e muda conforme a gente vive. Aos 68 anos, já devo ter mudado muitas coisas sem intenção de mudar. A vida que levo me faz olhar o passado com outros olhos. A gente muda o passado, de fato.

Quem lê o seu livro pensa que você é uma especialista em mamutes com aquela descrição do Museu em “viagem no tempo”, você esteve lá?

Essa foi outra coincidência. As pessoas me diziam que no Museu de Antropologia do México tem muitos mamutes. Eu estava preparando o livro, então, no final do ano, eu fui com o meu marido para lá. Fiquei encantada, mas subi e desci aquele museu e zero de mamutes. Foi a maior frustração.

Na volta, nós estávamos atrasados, indo para o aeroporto, quando o motorista do Uber errou o caminho. Nós íamos perder o voo e o rapaz foi ficando nervoso, então, ele deu uma ré num viaduto e errou de novo, acabamos parando em uma estrada em obras. O carro estava correndo, quando meu marido me chamou: “olha isso”. Havia vários cartazes nessa avenida em obras chamando para a inauguração de um Museu dos Mamutes naquela semana. Eu jamais saberia disso não fosse esse erro do motorista.

Nós não pegamos o avião, obviamente, e eu passei três dias, literalmente, enfiada no Museu dos Mamutes, e o mamutinho que eu estava procurando no Museu de Antropologia estava lá. Um detalhe: o livro já tinha ido para a gráfica. Eu liguei para minha editora: “Rafaela, pare as máquinas”, porque ali havia muitos dados que eu peguei da internet, mas estava insegura de usar. Quantos quilos de ervas eles comiam, quais plantas, o tamanho dos dentes, esse tipo de coisa que faz muita diferença. Então, eu pude documentar tudo e até tirei uma foto do lado de uma grande mamute com o seu mamutinho.

Escritora Silvana Tavano no Museu dos Mamutes no México
Silvana Tavano / Arquivo pessoal

Foi inacreditável. Eles iriam construir o aeroporto e descobriram que havia um sítio arqueológico nessa área. Começaram a sair mamutes e mais mamutes e outros animais ali, então, o aeroporto precisou ser deslocado. Aí eles fizeram o museu em cima e uma parte dele, inclusive, é toda de vidro para que possamos ver as escavações. Entre a primeira e a segunda sala, você passa por uma instalação com os bichos empalhados, enormes. E eles colocaram sons e até mesmo cheiros para garantir uma imersão antes de passarmos por cima das escavações. O primeiro texto do livro que você se referiu, “viajar no tempo”, é essa experiência.

Para fechar, no último capítulo, “memórias de futuros”, você faz a ponte entre as gerações de mulheres. Como surgiu a ideia desse desfecho de tirar o fôlego? 

Como eu fiz os planos para o passado, eu senti que precisava fazer alguma coisa para o futuro. Então, veio essa memória do futuro, porque na verdade nós pensamos o futuro com a mesma memória com a qual construímos o passado. É a mesma imaginação. Memória está ligada à invenção, você reinventa o passado e inventa o futuro a partir de uma expectativa, dos planos que fazemos.

Eu me diverti muito escrevendo a bisneta da narradora e isso me deu a oportunidade de mostrar essa ligação entre a mãe, filha, neta e bisneta que vem desde sempre. Isso é transmitido na alma e no corpo, daí a avó que cutucava o dedo, a filha que cutucava o dedo e a neta também, mas na construção da bisneta, eu tive de inventar os instrumentos de uma podóloga em 2064, para não incorrer naquelas distopias onde o cara está de relógio.

Eu busquei mostrar que essas dores físicas e psíquicas atravessam o tempo e dialogam com todos nós. Isso também é eterno de certa forma. E era inevitável pensar em todos aqueles mamutes lá na frente, porque nós vamos acabar, mas o planeta não. Afinal, apesar da força que fazemos neste sentido, o planeta se refaz.